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domingo, 23 de setembro de 2018

Homenagem a um grande vulto da nossa literatura - Baptista Bastos


Baptista Bastos: Dani, o artista

Há tempo, rigorosamente em Janeiro, ele soube que o seus amigos Rui Reininho e Paulo Gonzo estavam em Paris, curta passagem. Enfiou-se no carro e desceu da Holanda, apenas para com eles beber o vinho da amizade. Vi-o de longe: eu ia trabalhar num texto supérfluo; ele ria alto e os seus amigos alto riam. Fui tocado, um pouco e devagar, pela inveja: também apreciaria estar ali, com eles, falando de mulheres e de bebidas, talvez de futebol, certamente de coisas de alegria e de felicidade. Pertenço a esse clube antigo no qual só se entra quando se admite que a amizade é um posto e que amigo nunca trai amigo.

Não sei se ele transgrediu as normas rígidas, comuns a um profissional de futebol. Sei, isso sei, que ele não tripudiou sobre as regras jubilosas da amizade. Ele – é Dani. Um extraordinário futebolista, e um puto que possui conceitos e defende princípios que começam a ser inusuais. A história deste rapaz está cunhada no Sporting e conquista a sua carta de alforria registada no Ajax, que é uma das melhores equipas do Mundo.

Dani não é usado pela vida: usa-a, serve-se da vida para melhor a servir. Já aprendeu que ninguém sai vivo da vida, e que a vida é uma difícil profissão de afectos. Em todos os ofícios há clássicos de bolso de colete e clássicos da plêiade; quer-se dizer: clássicos pequeninos, e clássicos de alto porte. Dani pertence ao prédio onde habitam estes últimos. Impôs-se-lhe a ideia de que toda a experiência nasce da consciência do vivido. 

É um puto muito novo, vai aos bares, atira-se às miúdas e as miúdas atiram-se a ele, dança, guia, e encontra nos dias de júbilo e nas noites de regozijo a força que justifica e ilumina um destino. Já foi modelo, já figurou em tudo o que é revista ilustrada de jet-8, viram-no com jovens muito belas, muito bem apetrechadas, muito festivas, muito de dar a quem melhor lhes apetecera. Dani avia-se dos manjares, e noiva--os num imemorial banquete. 

Houve um cronista que o igualou às estátuas de Chartres. O cronista não estava doido. Dani, a chutar, parece, de facto, um mármore semovente de estatuária, apenas semelhante a Eusébio, o Grande. Vejamos: o jogo dele é uma inesgotável reciprocidade, sustentada por um talento que chega a roçar o génio. Não vai mais longe porque não o quer. Está onde está porque entende que onde está é, já em si, o bastante.

Boas famílias, mãe que detestava a tineta do filho para o futebol. Mas as coisas são como são, e a força do imaginário e da vontade surge como uma evidência. Das escolas do Sporting nasceu esse poder de configuração e essa extraordinária habilidade gráfica que fazem dos movimentos de Dani um peculiar tratado de geometria e de bailado. Ele talvez não tenha o engodo das redes. Tem, isso tem, o prazer do barroco e o gosto intenso da representação. Dani é um actor no rectângulo verde. Direi: um efabulador da narrativa futebolística, que transforma o campo num grande romance de peripécias e episódios, com personagens fundamentais e um enredo cujo epílogo só no final é revelado. 

Talvez ele ainda não saiba a natureza romanesca do seu futebol. Talvez ele não saiba que toda a actividade humana oculta, no seu bojo, um tecido imaginoso que se define e se defende do mundo real. Contra a realidade, o sonho, a quimera, a esperança. Há anos, escrevi que o futebol é o dia-feriado para todos nós sonharmos. Não abro mão deste conceito. Dani pertence a essa estirpe, cada vez mais rara, de artistas (o futebol é uma arte, uma grande arte) cujo talento narrativo se exprime na imensa parábola de nos representar e de nos permitir que nos integremos nessa representação.

No futebol – todos estamos lá. Não estamos excluídos desse desempenho que, como na Antiguidade, principia com os deuses e se conclui com os homens. No teatro aplaudimos ou pateamos. No cinema somos impelidos ao silêncio, pela natureza específica do espectáculo. No futebol, como no romance, investimo-nos dessa capacidade de recriar o que lemos e de encarnar o que os outros fazem. Quero dizer: tanto o romance quanto o futebol fornecem-nos amplas margens dedutivas e de transfiguração.

Dani possui esse dom. Uma fé muito peculiar que nasce do que se acredita e se credita nas formas como agimos na vida, na profissão, e na relação com os outros. 

O futebol é uma amizade. 

Dani é o nosso amigo. E os nossos mil e um dias são todos aqueles dias felizes em que o Dani entra em campo para animar a tristeza triste das nossas vidas vulgares, e metamorfoseá-las num episódio radiante do romance colectivo.

Este texto foi originalmente incluído 
na Revista-Record do Europeu 2000

QUEM É QUEM

Daniel da Cruz Carvalho «DANI»
Idade: 23 anos (02-11-76)
Naturalidade: Lisboa (Portugal)
Altura: 1,82m. Peso: 75kg
Posição: Médio
Internacionalizações: 9 (0 golos)
Títulos: Campeão holandês em 1998; Taça da Holanda em 1999

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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