VOTAR -- UM DIREITO, UM DEVER
Tinha eu dez anos de idade quando participei na primeira eleição da minha vida.
Decorria o ano de 1962 e até foi precisamente por esta altura do ano, na primeira semana de aulas. O Dr. Cândido Forjaz, professor de francês e Diretor de 1º Ciclo do Liceu de Angra, promoveu uma votação para que se escolhesse o nosso chefe de turma. Segundo as regras por ele propostas, todos éramos candidatos e o vencedor seria aquele que reunisse o maior número de votos. Foi eleito, por grande maioria, o Shien Phu Ling, jovem chinês um pouco mais velho do que nós, filho de uma família que se havia instalado na Praia da Vitória. A simpatia do chinês era contagiante, talvez por isso o escolhemos sem nos preocuparmos, na nossa primeira experiência democrática, com raças ou fisionomias.
Passados uns dois anos, tornei a participar numa eleição e, desta vez, fui eu o escolhido, ganhei o escrutínio e passei a ser o presidente da Pré-Juvenil, a assembleia dos membros mais novos do extinto Grupo Juvenil Católico da Sé. Nem tudo foram rosas durante a minha “presidência”. O Carvalho, indigitado pela direção do GJC para apoiar os mais novos, gostava mais de ir à matiné aos sábados à tarde do que estar a sofrer a rapaziada e, quando um dia o confrontei sobre isso, não esteve com meias medidas e atirou-me pela escada abaixo, na sede do Grupo. Felizmente não me magoei e até saí com a minha posição mais reforçada perante os mais velhos. Outras democracias...
Lembro-me, ainda bem novo, de ter tido pequenas conversas com o meu pai acerca da situação política em Portugal, isto, claro, antes da Revolução dos Cravos. Sentia a dor dele em não poder votar em quem desejava, as listas impostas pelo partido único não davam outras opções. Foi, portanto, com natural entusiasmo que fui entregar o meu boletim de voto na que terá sido a primeira eleição livre, logo a seguir ao 25 de Abril. Já não sei em quem votei mas recordo que fiquei contente ao ver na mesa de voto, como delegado de um dos partidos concorrentes, o meu vizinho e amigo de infância, o João E. Medina. Ainda hoje, passados que são mais de 40 anos, eu e o João continuamos a trocar ideias sobre os partidos, candidatos e situações, principalmente quando há eleições, seja em Portugal ou nos EUA. E assim será enquanto tivermos discernimento para analisar e criticar quem nos comanda os destinos, dos dois lados do Atlântico.
Geograficamente falando, se estivermos a olhar para um mapa-múndi, é no lado esquerdo do Atlântico que se vão realizar, daqui a poucos dias, duas das eleições mais importantes deste ano e que poderão trazer repercussões aos povos não só dos dois países onde se vão contar os votos mas até para todo o continente americano e, por arraste, a todo o Mundo.
Os irmãos brasileiros têm entre mãos um problema bicudo. Não estou completamente elucidado dos meandros da política brasileira mas sei o suficiente para reconhecer que “a coisa tá preta”, como cantava o Chico Buarque. Não que seja algo nunca visto por aqueles lados, a vida política brasileira tem andado aos altos e baixos, mesmo até depois de muitos anos de ditadura militar. Posso ler, nos escritos de alguns amigos e familiares que a angústia está a tomar conta dos sectores mais progressistas da sociedade. O perigo de derrapagem para nova ditadura é mais do que evidente, as forças ultraconservadoras, encabeçadas por Bolsonaro, estão a dois passos de ganharem a segunda ronda das eleições e, quem sabe, fazerem o país mergulhar ainda mais num profundo abismo social e económico.
Mais ao norte do Brasil, nestas terras do Tio Sam, as eleições do próximo dia 6 de Novembro não vão eleger um presidente mas sim os novos membros do Congresso. Todos os lugares na Câmara dos Representantes estão em jogo, assim com vários dos Senadores. Os Democratas, até há duas semanas, nutriam esperanças que poderiam vir a ganhar a maioria da House, sobretudo baseados nas sondagens que mostram um crescente entusiasmo das mulheres e outras minorias para votarem nesse sentido; contudo, os Trumplicanos (o novo partido no horizonte político americano) aproveitaram de maneira engenhosa e até maquiavélica, a recente nomeação do juiz Kavanaught para o Supreme Court – nomeação essa marcada por muitos malabarismos por parte da administração trumpista – para encetarem uma mordaz e repugnante campanha no sentido de dizerem às suas bases e aos que ainda possam estar indecisos que votar Democrata é o mesmo que vender a alma ao Diabo. “Eles, os socialistas-comunistas, vão destruir todas as iniciativas do nosso Supremo Líder e regressarão o país aos tempos calamitosos de Obama, quando só havia fome, miséria e pestilência nos Estados Unidos”. É preciso ter mesmo muito descaramento para sair com uma destas...
Ora bem, o que eu vos queria dizer hoje é que, seja qual for a vossa tendência política, não deixem de exercer o vosso dever cívico. Quem não vota não tem o direito de abrir a boca, de contestar, de refilar. E convençam-se que o vosso voto conta, que é importante, que é necessário. Alguns dos precintos, nas últimas eleições presidenciais nos EUA, foram decididos por uma dúzia de votos e isso é bastante para mudar o rumo de uma eleição. Para mais, é tão fácil votar, não dá trabalho nenhum e até podem fazê-lo por correio, como eu faço.
Se queremos repudiar as ditaduras, se queremos um futuro melhor para os nossos filhos e netos, se esperamos uma melhor qualidade de vida, uma concertada resposta às mudanças climatéricas, se almejamos um apoio sistemático aos idosos, à educação, aos cuidados de saúde e aos direitos humanos, temos um caminho a seguir e há, felizmente , candidatos empenhados nesse sentido; mas, por ventura, se achamos que o atual status quo deve ser continuado, se não nos importamos com as manobras sujas da administração e seus mandatários na House e no Senado, se olhamos para os números do desemprego e do stock market mas não vemos a realidade total da situação, se queremos que este país siga isolado e desafiante às alianças antigas e necessárias, se acreditamos que as benesses fiscais dadas de mão beijada aos ricos e aos grandes grupos financeiros é que vão trazer fortuna e bem estar ao zé povinho, se encolhemos os ombros às mentiras descaradas e ao aproveitamento dos cargos para enriquecimento pessoal do presidente e sua família, então também temos essa prerrogativa. Só temos que assumir, livre e conscientemente a nossa escolha. E saber viver, depois, com os resultados, sejam eles a favor ou contra a nossa vontade.
Longe vão os tempos das eleições na turma do 1ºC ou no saudoso GJC. Nunca me esqueci do que aprendi com esses episódios e da importância (relativa) que tiveram no meu crescimento. Por isso eu VOTO, por isso considero fundamental exercer o meu direito de cidadão.
Pelo menos hoje em dia sei que ninguém me vai atirar por uma escada abaixo e espero nunca vir a ter um presidente... chinês!
Lincoln, Ca. Outubro 15, 2018
João Bendito

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