CHORADINHO MIUDINHO
Ser imigrante não é facil. Que eu saiba, nunca foi. Dizem e eu acredito que era até muito mais difícil nos tempos em que tanta gente se afoitou a embarcar quase como bagagem de porão, fugidos como calhava por esses mares fora em cata de melhor fortuna. Estou-me a referir, claro, à sina insular de quem nasceu com os olhos postos na linha do horizonte e a alma colada à curiosidade do além. É por isso que a gente vem mesmo sem saber se volta. E não vou escrever sobre isto agora para que tenham ainda mais dó desses de nós – “coitadinhos, parecem lá viver embrulhados dia e noite nas mantas roxas da saudade louca” – sempre inquietos para voltarem. Nada disso! Não me incluam nessa lista nem tenham pena de mim. Vim de livre vontade, como tantos outros o fizeram aventurando-se ao que der e vier.
Venho hoje, aqui, debruçar-me sobre este delicado tema porque dei comigo anteontem a ver na televisão imagens duras do penoso drama dos imigrantes lusos na Venezuela – gente que um dia se viu impelida a partir e agora se vê forçada a voltar. Voltar de férias, como o fazemos sempre que podemos para matarmos a saudade, é completamente diferente de fazê-lo de fugida para nos matarem a fome. Quem um dia abala, ao acaso, em busca de melhor sorte, nunca pensa no pior. Pelo contrário, sonha sempre com o tal futuro risonho que seduz meio mundo a mudar de lugar.
Lugares há neste mundo que cativam à distância. A exótica Venezuela foi um deles para inúmeros filhos madeirenses. Tal como estas longínquas paragens californianas o foram para tantos de nós açorianos. Era eu miudinho de pé descalço no pedregulho ilhéu e já ouvia dizer delas maravilhas pelas cartas que chegavam em envelopes bordados por fora de azul/vermelho e enfeitados por dentro com aquele esverdeado cheirinho das ‘dólas’. Isto sem esquecer igualmente as apreciadíssimas sacas das encomendas cuja roupa também cheirava que consolava. A América e, no meu caso pessoal, a Califórnia, foram as minhas primeiras namoradas. Seduziram-me à distância e não hesitei em dar o salto da pequenina ilha abraçada a uma cultura para esta gigantesca metrópole toda ela multicultural, multiracial e onde se ouvem múltiplos idiomas palrados a cada esquina. São realidades que diferem quase como da noite para o dia.
Os dias passam, os anos rolam e as raízes entrelaçam-nos. Cá assentamos arraiais mas, quando a saudade aperta e o berço chama, se a coisa calha, toca a marcar passagem. Correntemente, para os imigrantes lusos da costa oeste americana que querem voar para as Lajes, na Terceira, aí reside precisamente o busílis da questão – nas passagens das viagens cujos problemas parecem não ter fim. As de ida ainda se fazem relativamente bem. O mesmo já não se poderá dizer das de volta, onde as dores de cabeça se multiplicam sem remédio que as cure. Nada disto é novo porque se repete há alguns anos, desde que a Sata pegou nesta rota para nos servir por estas bandas. Um serviço, sublinhe-se, que tem irritado tanta gente de tal maneira desagradada que custa muito perceber como nada muda para melhor.
“Creio que nada de jeito irá mudar enquanto o Governo Regional se mantiver à frente desta feia bandalheira que é a nossa falhada Sata Internacional. Até parece que andam a gozar connosco.” Ouvi este amargo desabafo da boca de um furioso passageiro que se diz enganado e mal servido pela “nossa falida companhia aérea.” Compreendo-o mas creio não ser suficiente. Nada mudará nas trapalhadas destes voos, a meu ver, enquanto a nossa boa gente não for capaz de erguer a voz unida e bem alta num estrondoso Basta! Basta de nos tratarem como submisso gado bovino incapaz dum coice que doa no lugar indicado quando tal for preciso. Seria necessário, neste caso, os supostos líderes de cá não terem receio de tomarem a vanguarda nesta crítica mensagem de claro descontentamento que se pretende passar para lá com voz bem alta que se possa fazer ouvir.
Porque se continuarmos a fazê-lo em voz baixa e meio a medo, quando setembro nos bater à porta daqui a uma ano, mal os voos chegarem ao fim, este choradinho miudinho de reciclados queixumes voltará de novo à baila com mais avarias, atrasos, rateios e cancelamentos que prometem repetir-se caso nada de concreto seja feito a este respeito. Temo que isso venha a acontecer. Até porque já parece uma tradição anual esta de se falar ou escrever disto para o boneco – e que bem ilustra a nossa branda maneira de ser/agir. Muito se fala e nada se faz.
Fiz-me entender? Sei dum amigo que me lê no jornal e já desabafou que tenho tendência a escrever meio confuso. Espero não o ter sido desta vez. Os imigrantes destas paragens merecem clareza total nesta quente questão de fundo que nos escalda todos os verões com o mesmo desprazer que nos leva a perguntar – até quando continuaremos a ser desrespeitados por estes lados?

Sem comentários:
Enviar um comentário