MARRADA MAL DADA
Lembro-me bem de, quando era fedelho, olhar para um homem da minha idade e achá-lo com cara de velho. Os portes, os trajes, os costumes e algumas tradicionais teimosias aliadas à dura labuta de então, também não ajudavam a disfarçar a erosão dos anos estampados nos rostos enrugados daqueles corpos distorcidos. Talvez porque haviam mais doenças à solta e menos remédios à mão, muita da nossa boa gente, sobretudo daquela sempre vergada no campo ao moirejar de sol a sol, parecia que envelhecia antes do tempo, coisa que hoje se dissimula com relativa facilidade... caso a vida não nos pregue alguma marrada de mau gosto.
Não gostei, no outro dia, quando me acenaram à distância. “Então, velhote, vai ou não vai?” Claro que foi na brincadeira mas, ali, a palavra caíu-me incómoda no goto e engasguei-me ao engolir em seco aquela impressão esquisita de que já não vale a pena iludir-me. A idade chegou-se, depressa demais, ao ponto que eu temia – o do princípio do fim. Acomodado agora na casa dos 60, faço os possíveis para não ligar muito ao calendário onde risco os dias e rasgo as folhas quase já sem dar por isso. Custa ver o tempo voar sem que o possamos deter. Ao menos por uns instantes, dava-me jeito mas... não há mais marcha atrás. Resta-me o consolo de saber que, daqui em diante, escuso de ter pressas e de ceder a pressões. Há que saber deixar rolar. “Devagar, devagarinho, descontraído, nas calmas, deve ser o teu ritmo agora”, disse-me o médico, anteontem. “O melhor que podes fazer, para arejar a tua saúde mental, é abraçar o sossego e a paz que ele nos traz. Desvia-te de zaragatas, minimiza os ruídos e cultiva mais sorrisos. Nada paga a tranquilidade d’alma embrulhada em boa disposição ao toparmos a reta final.”
O conselho calou-me fundo. “Cai-me bem, sr. doutor mas não é fácil pô-lo em prática. Claro que adoro a paz de espírito, sobretudo caldeada com bom humor. É com ambos que gostaria de me ir desta para melhor...” Ele riu-se e inquiriu-me: “Diz-me lá, para que é que uma pessoa da tua idade tem necessidade de engolir essas pílulas diárias de stress daninho?” Depois, sugeriu-me: “Trata, meu caro, de preencher todos os momentos dos teus dias com o máximo positivismo possível. Tudo o que é negativo e te arrelia, joga fora. Não vale a pena consumires-te com batalhas perdidas.” Foi uma sugestão que me fez eco no ouvido antes de me arranhar o miolo... “... ainda não te fartaste de perder tempo com aquilo que te irrita e com quem te desrespeita?”
A resposta dava pano para muitas mangas e mais artigos de jornal. Permitam-me arrematar este, por agora. Tempo houve em que me deixava ralar por chatices fora do meu controle. Aborrecia-me facilmente com pessoas e coisas que não devia. Umas prendiam-se às tontas rivalidades no futebol, outras entalavam-se nas tolas casmurrices da política, algumas marravam nos toscos tapumes dos nossos costumes e em todas embirrava com gente bem mal encarada. Confesso que não me tenho por cara de parvo mas fiquei deveras aparvalhado quando, na minha recente ida ao médico, a enfermeira me enervou ao medir-me a tensão arterial. Acusava-me números demasiados altos para o que estava habituado. Não gostei de ouvi-los e o meu doutor notou-o de imediato ao ver-me alterado. “O que se passou, Luciano?” Tive de desabafar.
Naquela mesma manhã, horas antes da consulta, tinha visto um vídeo de um capinha, numa tourada à corda lá na minha terra, pegar propositadamente no seu filhinho ao colo para se armar em esperto, ou fazer-se engraçado, a desafiar os cornos do toiro. A meu ver, foi uma atitude desmiolada de um pai irresponsável ao pôr claramente a vida do seu tenro menino em perigo eminente sujeitando-o ali mesmo a alguma marrada mal dada. Fui à lua ao ver a multidão aplaudir o seu condenável comportamento. E da lua passei para o sol, fervi mesmo, ao ver o triste episódio escaldar as redes sociais com variadíssimos comentários de gente supostamente discreta a defender tamanha burrice. “Estimado doutor, adoro a minha ilha natal e as suas ricas tradições. Fui criado e fiz-me homem com touradas à corda ao meu redor. Vi disparates feitos a torto e a direito à cabeça dos toiros, capinhas bem levados da breca, mas aquele atrevimento daquele artista ultrapassou-me todos os limites possíveis de tolerar. Ainda não consegui sacudir toda a minha irritação. É que podia ter acontecido ali uma grande desgraça. E de quem seria a culpa?”
O pachorrento médico, sujeito quase da minha idade que consulto há vários anos, deixara-me falar à vontade para me ajudar a descomprimir. Depois, pediu-me cordialmente a palavra. “Permites-me uma estoriazinha breve?” Acedi com um mudo sim para não o interromper. “A minha irmã mais velha tem um cunhado que foi militar na Base Aérea da Ilha Terceira durante pouco mais de um ano. Decidiu ir um dia ver uma tourada à corda no areal da Praia da Vitória e levou consigo a sua máquina fotográfica. Foi o seu mal. Quis fazer-se forte e seguir o toiro de perto sem medir a distância nem o perigo. Talvez a culpa fosse da lente mas quando se apercebeu que estava tramado, era tarde demais. Duas cornadas de mau jeito em lugar proibido e foi parar ao hospital. Acabara de lesionar gravemente a sua masculinidade. Até hoje, casou duas vezes mas continua sem filhos. Diz-me que é o maior vazio da sua vida. Claro que continua a culpar-se a si próprio e nem com a ajuda de medicamentos ou terapias consegue controlar a depressão nervosa que o tem feito envelhecer antes do tempo. Se o visses, não lhe davas a idade que tem.”
Não preciso ver para crer. Já tenho idade para saber melhor. Com a tensão não se brinca.

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