JORNALISMO EM DESTAQUE

485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

domingo, 7 de outubro de 2018

Da Califórnia - Luciano Cardoso


DITAS DURAS

Gosto muito de comida chinesa. Cá, em casa, todos gostamos. Cai-nos bem e não nos faz mal. É alimento de fácil digestão que nos deixa plenamente satisfeitos e normalmente bem dispostos. O nosso principezinho da boa disposição, o meu netinho de dois anos, sempre que se senta à nossa mesa também já não dispensa o seu pequenino quinhão. Não é tanto o que come mas sim a maneira como nos delicia vê-lo comer. Dá gosto olhar-lhe para as bochechas rosadas quando tem a boca cheia. Não se cansam de trabalhar até que tudo esteja bem moído lá por dentro. Às vezes, até parece que mói demais. É quando começa a babar-se e, claro, deixa-nos igualmente babadinhos.

Uma boa refeição de “chinese food”, para ser bem completa em nossa casa, tem de incluir o mimo final das famosas “fortune cookies” que nos proporcionam os tais papelinhos brancos com ditos populares – frases curiosas a darem-nos que pensar. Quando não nos dão apenas para rir. Gostamos sempre de os ler porque nos ajudam a descontrair. Anteontem, por exemplo, à minha mulher calhou-lhe na sorte, “vais ser feliz no amor” – coisa que muito me apraz confirmar, mas escuso aqui detalhar. Já ao meu neto tocou-lhe um intrigante pensamento, “vens de boas raízes/nunca deixes de as regar/fazem-te quem és/deves-lhes quem serás”.

Um dos seus bisavós, no ramo materno da árvore genealógica, logrou imigrar da China para a Nicarágua, já lá vão uns bons anos. Foi um escapar clandestino, no porão dum navio, para fugir às garras da conhecida ditadura comunista que mal o deixava respirar e quase o asfixiou de vez. Ainda solteiro e com espírito aventureiro, arriscou a vida para salvar a pele ao partir para sobreviver. Só que, a Nicarágua acolheu-o sob outro cruel pesadelo político, o do reles regime fascista do mafioso clã Somoza que martirizou a nação durante quase meio século, levando muitos milhares dos seus cidadãos a zarparem para os Estados Unidos. Do outro lado do Atlântico, em paralelo quase idêntico, o fascismo do “nosso” solteirão Salazar empurrou também milhentas famílias portas fora, lágrimas nos olhos, malas na mão, “…aqui escasseia o pão. Vão lá experimentar a sua sorte onde calhar.”

Calhou aos avós do meu neto imigrarem, de lugares distintos mas situações similares, com o mesmos golos em mente – ganhar a vida para adubar a esperança no cultivo das oportunidades ao dispor dos seus filhos. Tive sorte com os meus. Souberam honrar os sacrifícios dos pais, tal como o tínhamos também feito antes com os nossos. Tudo com a preciosa achega desta fabulosa terra sempre pronta a premiar quem se dedica a fundo para tornar os seus sonhos na realidade desejada. 

Um dos meus desejos de miúdo era o de um dia ser professor. Quando cresci e comecei a estudar, apercebi-me dessa enorme responsabilidade não ser talhada para mim. Casei-me e agradou-me imenso dois dos meus filhos surpreenderem-me depois ao abraçarem esse aliciante desafio com mérito e determinação. Ambos lecionam por gosto. O mais novo dá aulas de Matemática e o mais velho adora ensinar História, a minha disciplina predileta. À mesa, de quando em vez, a nossa conversa vai longe. Anteontem, após a refeição, saíu-lhe no seu papelinho branco a oportuna frase – “tens ainda muito que aprender”. Rimo-nos à farta porque é uma coisa que estou farto de lhe dizer – mal do professor que só pensa em ensinar.

O meu filho aprendeu dos seus sogros uma lição dura de roer. Ela, então jovem jornalista, e ele, militante sandinista, casaram-se na Nicarágua em tempo de acesas guerrilhas que os obrigaram a separarem-se de imediato por ele ser perseguido político. Refugiando-se em matos e montanhas, guerrilhou até os Somoza caírem com a sua podre “ditadura de direita” às mãos do comandante Ortega (então proletário libertador do povo mas hoje disfarçado “ditador de esquerda”), apegado ao poder do pobre país à beira duma guerra civil. Esta cápsula da História que engloba os outros avós do meu neto faz-me tremer sempre que a oiço em detalhe. Num curioso paralelo, faz-me igualmente recuar à mocidade aquando da queda do “nosso” defunto ditador e respetiva ditadura… 
- … já vai para meio século.
Embrulhada nesta histórica trabuzana de políticos mais políticas condenáveis, a nossa conversa ainda passou pela atual tormenta na Venezuela, aonde a bizarra ditadura do camarada Maduro está a fazer correntemente sofrer inúmeros compatriotas nossos, madeirenses na sua esmagadora maioria, fugindo desesperados sem saberem bem o que fazerem à sua vida. O meu filho do meio, prestes a obter o seu mestrado em Estatísticas, diz-me que nunca houve percentagem tão alta de corrupção infiltrada nos políticos e na política como hoje em dia. Após a refeição, o seu papelinho branco lembrava que, “ao contrário das pessoas, os números não mentem.”

Não quero mentir ao meu neto, daqui a anos, se ele me interpelar: “É verdade, avô, que os Estados Unidos, quando eu nasci, eram governados por um ditador?” Não posso mentir-lhe. “No tempo, quem não gramava Donald Trump acusava-o disso mesmo mas tal não corresponde à verdade, querido. Neste país, embora frequentemente contestadas sob insultos, suspeitas, ameaças e escândalos, sempre houve eleições livres. O povo escolhe quem quer para o governar. Nos países dos teus avós não era assim.” … “Como era então, avô?”
Acham que deva mentir-lhe…?... O meu provérbio chinês lia-me anteontem a dita dura – “nunca fujas à verdade”. 

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

Sem comentários:

Enviar um comentário