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terça-feira, 30 de outubro de 2018

De Catarina Ferreira de Almeida


Crónica de um desaparecimento

Numa manhã ventosa de novembro, eu vi-os. Eram quatro: três rapazes novos, atléticos, e uma octogenária, paralítica, a descerem a rampa na direcção do cais. Ela, gritando, gesticulava com frenesim, numa espécie de furor endiabrado. Eles, metódicos, içavam-na em peso da cadeira de rodas e mergulhavam-na na água plúmbea, sem piedade.

Em redor, alguns madrugadores observavam a cena com pacatez, de mãos nos bolsos. Os três rapazes inclinaram, então, a cabeça ao mesmo tempo, à beira do cais, e viram a sombra a descer, ondulante, naquele canto de mar sem fundo.

Ao meu lado, um turista assistia, num horror mudo. Devia julgar-se testemunha de um crime inconcebível, num país onde se afogavam octogenárias com um descaramento impune. Não fora um crime, porém, que ele testemunhara – mas um milagre.

Chamava-se Idalina e tinha 83 anos. Há cinquenta que todas as manhãs o seu dia começava ali, na praia da Silveira, com um mergulho indiferente às convenções do calendário ou aos caprichos da meteorologia. Para Idalina, só uma coisa era verdade: o mar gelado, de madrugada. E essa verdade guardou-a ela a vida inteira, escondida no meio das mentiras: que era doente, que não podia, que estava velha, que a gripe (estendiam-lhe o dedo, quando o diziam) ia acabar por apanhá-la um dia. Com uma militância que metia medo (só os bisnetos aguentavam o peso daquela ditadura), mergulhava sem pernas todos os dias.

E ali, no fundo do mar, elas renasciam-lhe.

Idalina morreu muito velha, sentada na sua cadeira de balouço, à lareira, mas estava nesse preciso momento a sonhar com o mar de chumbo no cais da Silveira (não o azul, que era coisa de meninos, mas aquele, mais proceloso, com revérberos de prata). E a morte foi apenas mais um mergulho.

Procuro esse músculo que se chama resiliência. E entro no quarto pouco mobilado de uma residência para estudantes nos subúrbios de outra cidade. Lá fora, a temperatura desce, e não conheço ninguém. O quarto não é aquecido, o que é bom (dizem-me), porque posso usar o parapeito da janela como frigorífico. Nos duches, a água é descontínua (tenho de carregar num botão de vinte em vinte segundos). Acima de tudo, não há um só café à vista, com bolas de Berlim, meias de leite e folhados de salsicha.

Mas há uma estante que me corta o quarto ao meio e que eu, para ganhar espaço, arranco do chão. Há um pano florido, com que cubro a parede, e um candeeiro de mesa que trouxe comigo e que sempre foi o meu. Dali a horas, na cantina, constato que o jantar é um engano. Dali a anos, descubro que o mais difícil foi o recomeço. Voltei diferente, já não cabia no meu quarto de criança.

Hoje, chamo-me Idalina e tenho 83 anos. Entro noutro quarto pouco mobilado, no segundo piso de um lar (também lhe chamam residência sénior, última morada, não lugar). Pouso no chão a minha pequena mala, olho em redor para a mobília que só atrapalha e reprimo um suspiro. Será que a memória me trai, ou já passei por aqui? A tinta amarela das paredes lembra-me outras manhãs, do mesmo tom desmaiado. E da janela, o que se vê? Ponho os óculos. Um mar prateado.

Menina? Bom dia. Pode fazer-me um favor? Traga-me uma pequena lata de tinta branca, uma trincha e um tabuleiro. E já que está aí, com um ar ocioso, traga-me também parafusos e uma chave inglesa. Não sabe o que é uma chave inglesa? Que pecado…

Na minha última morada, há uma cadeira onde me sento descalça, a apanhar sol. Será que aos oitenta as ondas do mar já não rebentam? Já não nos sussurram as nossas paixões? É o corpo que o decide, é a mente que não sente? Aos oitenta, ainda temos ilusões? Procuro, ignorante, o que vai fazer-nos falta. É a ternura. Ou a ficção? Será o toque imaginado de outras mãos?

Neste mundo de beleza inadiável, onde o nada se decide, somos doces e a noite é de veludo. Mas ninguém lá entra brandamente.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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