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terça-feira, 23 de outubro de 2018

De Osvaldo Cabral - Jornalista e Diretor do jornal Diário dos Açores


UMA EPOPEIA AÇORIANA

Haverá um mandato em que o Governo Regional acerte em concursos e privatizações?
Nem há tempo para respirar com a constelação de insucessos, onde se desbaratam tantos milhões, atirados para o lixo.
A SATA é o que se sabe: anda há quase um ano para privatizar 49% e nem sabe como decidir.
A fábrica de conservas de Santa Catarina, em S. Jorge, é outra sem que se perceba o que se quer: o governo manda privatizar, o presidente da fábrica dá o “amén” na comissão de inquérito parlamentar, mas no Conselho de Ilha do seu concelho vota contra!
A ATA (Associação de Turismo dos Açores) era para privatizar, mas pelo meio há uma investigação do Ministério Público, o governo não explica como vai fazer a privatização, não fala com ninguém e a ATA não desata...
O transporte aéreo de carga já vai em dois concursos e não se sabe se haverá terceiro concurso ou liberalização.
A epopeia estende-se agora aos barcos: entre concursos, devoluções e enormes trapalhadas, já se perdeu uma década... e barcos, nada!
O governo parece deliciar-se com esta atmosfera brincalhona, que nos custam os olhos da cara.
Esta última rejeição das propostas para construção do tal mítico barco para 650 pessoas e 150 viaturas é mesmo hilariante, porquanto na semana antes a Secretária Regional dos Transportes, cheia de fé, tinha dito no parlamento que o processo estava bem encaminhado e, desta vez é que era...
Esta gente vive neste mundo?
Este concurso tinha sido aprovado em Conselho de Governo, faz agora um ano, “dando seguimento à estratégia que tem vindo a ser implementada nas últimas décadas para a política de transportes na região”, disse então o emproado Berto Messias, porta-voz dessa enorme máquina falhada.
Bonita estratégia nestas últimas décadas: nem barcos e, nos aviões, é aquilo que se sabe, uma miséria nas operações todos os anos.
Um vórtice de falhanços na rica “política de transportes”.
A narrativa prossegue com mais um novo concurso, depois de tantos actos de fé.
Em Setembro de 2015, João Ponte, na altura à frente da Atlânticoline, aviava mais um concurso “até final do ano ou início de Janeiro de 2016”, para que os novos navios começassem a operar - imagine-se! - em 2018, “se tudo correr bem”, acrescentando “não ter dúvidas” sobre a necessidade da região ter dois barcos.
Estamos em finais de 2018 e nem um barco que se veja!
Pior, nem sequer a aprovação de um concurso.
Fez bem João Ponte ter saltado para a pasta das “visitas às pastagens”.
Mas a epopeia tem ainda um antecedente.
Em Setembro de 2014 a Atlânticoline já tinha anulado um outro concurso internacional para a construção dos tais dois navios.
O então Presidente da empresa, Carlos Reis, recusava as críticas generalizadas de que se deveria optar por navios mais pequenos e mais baratos, estando “perfeitamente seguro daquilo que pretendemos” e prevendo que os novos navios deviam começar a operar... em 2017!
A saga soma e segue, tendo início, como todos sabemos, com aquela decisão surpreendente de 2009, em que o governo de Carlos César rejeitou o “Atlântida”, construído nos estaleiros de Viana do Castelo.
Esta brincadeira já vai, portanto, numa década perdida, com a agravante de estarmos a falar de uma empresa pública, paga por todos nós, que faz esta loucura de operações marítimas anuais com apenas 32% de ocupação, que recebe 1,6 milhões de euros de subsídios para as rotas anuais e mais 7,9 milhões para a operação sazonal, em que tudo somado resulta em 68% de subsídios e 32% de vendas!
Os seus responsáveis vão às comissões de inquérito parlamentar e ainda se gabam de “lucros”, como se os subsídios fossem operação comercial.
São estas contas de merceeiro que nos estão a levar para o abismo.
A operação deste ano foi mesmo de patologia política, desviando barcos de passageiros das ilhas do triângulo para operarem em viagens para as Sanjoaninas... completamente às moscas!
Nos portos dos Açores temos uma epopeia semelhante.
Em Janeiro de 2015, o Presidente Vasco Cordeiro foi a Lisboa pedir ajuda a António Costa para os prejuízos dos temporais do mês anterior, no valor de 65 milhões de euros, 50 milhões dos quais nos portos.
No mês seguinte, o então Secretário dos Transportes, Vítor Fraga, anunciava investimentos de 41 milhões de euros no porto de Ponta Delgada, o mais fustigado.
Dois anos perdidos, em Maio de 2017, o mesmo Vítor Fraga volta à carga, anunciando agora 32 milhões de euros para o porto de Ponta Delgada, durante a apresentação do projecto de reperfilamento do cais, repavimentação do terrapleno portuário, beneficiação das redes técnicas e dragagem da bacia do porto.
Mais um ano perdido, a agora Secretária dos Transportes, Ana Cunha, anuncia que será enviado para publicação no Diário da República o anúncio da abertura de concurso da empreitada de reperfilamento do cais e de repavimentação do terrapleno do porto de Ponta Delgada... no valor de 32 milhões de euros.
O discurso repete-se todos os anos, numa vaga de investimentos tão voláteis como as ondas que entram nos nossos portos mal feitos e concebidos aos remendos, como o “porto do Dubai” em Rabo de Peixe.
Do famoso “hub” da Praia da Vitória nem vale a pena comentar.
Nada mudou. Até se diz que a obra em Ponta Delgada vai ser faseada e parece que nem está prevista a instalação de linhas eléctricas que permitiriam as gruas trabalhar a electricidade.
Do futuro do porto nem se fala.
Quando todos os outros, no continente e na Europa, fazem largos investimentos para o armazenamento de gás natural, descarga de granéis sólidos e modernização nos parques de contentores, preparando-se, há vários anos para o mercado competitivo do sector, nós por cá, no porto que movimenta 60% das mercadorias transaccionadas nos Açores, contentámo-nos com anúncios de obras de ano para ano, de forma faseada e sem olhar para o que aí vem.
Homero teria nesta epopeia açoriana uma bela inspiração para a sua “Odisseia”

(Diário dos Açores de 24/10/2018
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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