A intolerância para com as Lajes
O Governo Regional dos Açores não quer conceder tolerância de ponto na terça-feira das Festas de Nossa Senhora do Rosário, nas Lajes. Diz quem manda que apenas quer manter as tolerâncias já concedidas, sem aumentar o número de dispensas da função pública.
Para o Governo Regional, não interessa a História, já que em tempos idos aquele dia chegou a ser feriado. Nem interessam as pretensões do povo lajense, expressas através de órgãos eleitos (Junta e Assembleia de Freguesia) e da Associação Cultural da Vila. Nem sequer interessa se as Festas das Lajes preenchem (ou até excedem) os mesmos critérios que levaram à concessão de tolerância de ponto noutras localidades da ilha e da Região. Eles é que mandam, não querem e pronto.
Tendo analisado os argumentos da pretensão dos lajenses, e com eles concordando em absoluto, gostaria de acrescentar mais um, que sempre defendi publicamente. Quem tiver a paciência de reler algumas dos milhares de crónicas que já publiquei, encontrará a prova de que esta sempre foi a minha tese.
Quando os americanos pagavam renda para ocupar as Lajes, desde logo achei que parte substancial de tal verba deveria ser usada para compensar o povo da Praia da Vitória, e, mais concretamente, o povo lajense.
O princípio da compensação é dos mais justos que existem no Direito. Um trabalhador faz horas extraordinárias, ou presta serviço num feriado por interesse da empresa, é mais que justo seja compensado por tais esforços adicionais, fora do horário normal de trabalho.
Ora, transpondo este pequeno exemplo para a matéria que hoje nos ocupa, teria sido mais que justo compensar, ao longo dos anos, o povo das Lajes.
É tal povo que suporta o barulho, por vezes ensurdecedor, dos aviões de grandes dimensões e potência de motores. É ele que cheira o combustível que fica no ar quando aterram aeronaves abastecedoras de caças irrequietos. É ele que, em muitos casos, vê as placas de cimento das suas casas racharem com trepidações. É ele que se sujeita ao perigo que sempre envolve a presença de uma Base Militar.
Uma forma de compensar toda esta gente teria sido, então, por exemplo construir instalações desportivas ou culturais na então freguesia hoje Vila. Assim como quem diz: “Sois vós a sofrer para que Portugal fique bem visto internacionalmente, mas tentaremos compensar-vos, construindo piscinas aquecidas para que possais nadar no inverno, ou uma sala de cinema, onde relaxareis, mesmo sem conseguirdes perceber se o barulho vem do ecrã ou da pista. Tendes os prejuízos, tereis também algum benefício adicional”.
Nada disto foi pensado, menos foi feito. É como se o povo das Lajes fosse particularmente obrigado a aguentar com tudo o que é mau, sem merecer nada de bom. E nem falo de contaminações, nem de doenças, ainda aparece por aí quem sonhe processar-me.
Ora, perante o dito, conceder uma tolerância de ponto naquele dia às Lajes não compensaria nem de perto nem de longe anos de sofrimento. Mas seria, ao menos, um gesto de boa vontade. E de Justiça.
Até ao dia em que nos governe gente justa, ficamos com esta realidade: a Praia da Vitória, no seu conjunto, não merece nem uma tolerância de ponto. Perde pontos quem nos governa, governando desigualmente. Ou serão tais governantes, eles próprios, uns refinados pontos?
António Bulcão
(publicado hoje, no Diário Insular)

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