Dolviran
Quando era rapaz, adorava estar picadinho de febre.
Estar picadinho de febre era meio caminho andado para faltar à escola. Não bastava, mas ajudava muito.
A mão fria da minha mãe na testa e o anúncio para meu pai, que tinha o mesmo nome que eu: “António, acho que o António está picadinho de febre”.
Quando meu pai se acercava, os meus olhos semicerravam-se em grande sofrimento. A mão de meu pai era maior que a da minha mãe, detectava sempre com maior rigor se a coisa era grave ou não.
“Sentes dores no corpo?”. Esta parte das dores no corpo era essencial. Aprendi depressa. Da primeira vez que a pergunta veio, disse logo que não e marchei para a escola, estava apenas picadinho. Somando as dores no corpo a tudo o que estivesse acima dos trinta e sete, podia ser gripe, e a possibilidade de não ver o professor primário por uns dias crescia logo na penumbra do quarto de dormir.
Ora as dores no corpo só eu as podia sentir. Para a febre havia termómetros, para sintomas mais preocupantes havia médicos ao domicílio. Mas as dores no corpo eram apenas minhas, e, como é óbvio, dizia sempre que sim, que as tinha, e fortes, pelo corpo todo, começando nos pés e acabando na cabeça.
Picadinho de febre, com dores no corpo, lá vinha o termómetro. A parte negra que não tinha números era entalada na virilha e tinha de esperar uns minutos sem me mexer, rezando para o mercúrio ferver uma pisca antes de passar pelas lentes dos óculos de meu pai, que lavraria a sentença final. Entre os trinta e seis e meio e os trinta e sete, mesmo com dores terríveis no corpo a me prostrarem, marchava para a escola. Mas bastava um trinta e sete e um para dizer adeus ao “cabeça de areia”, devo confessar que nunca entendi esta alcunha do professor Rodrigues, mas que a carregou até à cova lá isso carregou.
Gripe quase de certeza declarada, começava uma rotina que eu adorava.
Canja de galinha feita mesmo de galinhas a sério, não destes frangos depenados que se vendem no híper. Numa palavra, canja muito mais saborosa que a de hoje, com miúdos frescos a dissolverem-se no palato, ai que rico fígado tinha esta galinha.
Depois havia compota de pêssego e almanaques do Tio Patinhas, devorados mal saídos da Tabacaria da Sorte rumo aos meus olhos febris. Ler fazia subir a febre, segundo minha mãe, pelo que esperava até ficar sozinho para aceder às últimas do Pato Donald e da Margarida, com os Metralhas no conto seguinte sempre a fazerem das suas.
Claro que temia os febrões. Quando a mão da minha mãe arrancava assustada da testa para fora com as palavras “António, o António está com um febrão”, a coisa era séria. Já nem força tinha para confirmar dores no corpo e o termómetro ganhava soberania absoluta quando se atirava para os trinta e nove e meio, quase quarenta. O febrão já requeria tios, tias, avôs e avós a virem ao quarto e eu sem fome a rejeitar as canjas e compotas mais saborosas, “tens de comer senão ficas fraco” mas o meu corpo sem querer nada além de olhos fechados e pouco barulho à minha volta.
O febrão trazia o senhor doutor de urgência, xaropes amargos e comprimidos escritos num papel chamado receita, sempre numa letra impossível de decifrar por um comum mortal. Depois de escrever, o médico falava. Este de oito em oito horas, este se lhe der tosse uma colher de sopa… E eu com os olhos apertados, a rezar a Santa Catarina para não ouvir a palavra supositórios.
O supositório era o pior. Não me trancaram um único que não me ardesse como o diabo no cu, o que me levava a retrair o olho do mesmo até me lacrimejarem os outros. O diabo do míssil ficava ali, sem entrar, e meu pai a irritar-se, “puxa para cima”, e eu a saber que se puxasse o ardor me apanharia a tripa toda…
Um suplício, o supositório. Uma tortura, senhores. E depois não se podia fazer cocó, que se o supositório viesse empurrado lá tinha de mamar com outro, para fazer efeito.
Hoje rezo para ter sempre saúde. Não me quero sequer picadinho. O mais leve arrepio deixa-me em aviso vermelho.
A findar os cinquenta, apenas desejaria um febrão para poder voltar a sentir a mão da minha mãe, a mão do meu pai, a afagarem-me a testa.
Mesmo que a seguir viesse uma palmada no rabo e toca para a escola, merecido castigo por inventar dores no corpo, que já não tenho idade para isso.
António Bulcão
(publicada hoje, no Diário Insular)

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