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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Do colaborador Dr. ANTÓNIO BULCÃO



O bolo primário

A régua não era muito grossa. Mas veio com força. Tirei a mão. Mesmo a tempo.
Encontrando a borda da secretária do professor, a régua partiu-se em duas partes.
Por momentos, senti-me um super-herói. Não apenas conseguira fintar o castigo, como livrara de vez a malta toda de futuras punições. Sem régua, não haveria mais bolos.
Creio que até a brilhantina do professor Rodrigues envermelheceu de raiva. O casco, de certeza, ficou um inferno. Em silêncio se recompôs e ordenou:
“A carpintaria do Queijeiro fica mesmo ao lado de tua casa. Amanhã de manhã trazes uma régua nova ou conto a teu pai”.
Contar a meu pai não. Isso não. Não podia saber que eu fora responsável por um dano em propriedade pública, embora apenas tivesse tirado a mão, e muito menos que eu fizera alguma coisa digna de castigo…
O senhor Francisco era um dos carpinteiros do Queijeiro e um cliente diário do meu pai. Conseguia beber meio litro de vinho de cheiro só de uma vez. Chegava a beiça à borda de um dos copos enormes que havia nas prateleiras de uma espécie de taberna, que ficava nas traseiras da mercearia, e lá vai disto. Nunca percebi como é que o homem conseguia passar a plaina sem levar pelo menos um dedo à frente da lâmina. Mas a verdade é que quanto mais bebia, mais certeza tinha no que fazia, e máquinas perigosas na carpintaria é que não faltavam.
À tarde era mais fácil pedir-lhe fosse o que fosse. Depois de uns quantos quartilhos de vinho, as marteladas nas camas que nasciam das suas mãos abriam-lhe o cérebro para a bondade. O cheiro intenso a cola fazia o resto. Um Francisco anestesiado dizia que sim a quase tudo, com um sorriso onde cabiam todas as mobílias já feitas, mais as ainda apenas em projecto.
Acedeu ao meu pedido desesperado e dirigiu-se para o fundo da carpintaria, onde havia sempre restos de madeira, sem préstimo que não fosse um arremate aqui, um acrescento além. Revirou na pilha poeirenta e sacou de entre ripas um bom pedaço de roseira.
Metida na serra mecânica para ganhar forma, aplainada para tirar farpas e lixada para ficar lisa como a pele das mãos que açoitaria, nasceu a régua mais majestosa que já vira. Talvez tenha ficado demasiado grossa, mas era compreensível. O fim de tarde aproximava-se e a graduação do vinho que meu pai vendia era certamente superior à das lentes dos óculos escangalhados de Francisco. Grossa e dura, a régua pesou-me na mala, na manhã do dia seguinte.
A rotina na escola manteve-se. Óleo de fígado de bacalhau pela goela abaixo de todos, servido o repugnante líquido pela mesma colher empunhada pelo professor Rodrigues. Tomadas posições nas carteiras pela ordem costumeira, tolamente firmei no peito a esperança de que o professor se pudesse ter esquecido da régua. Qual nada…
- A régua, menino Bulcão?
Ainda foi com um sorriso, apesar de tímido, que abri a mala e tirei de lá o objecto castigador e me levantei para a entregar nas mãos do mestre. Mas já foi com um projecto de lágrima no olho direito que ouvi a ordem:
- A sua mão!
Ia ser eu a inaugurar a régua. Suprema humilhação. 
O professor pegou-me na mão e aguentou-a firmemente para não lhe fugir.
Como se tal fosse preciso. Nunca voltaria a tirar a mão. Inchasse até não me caber na algibeira, justificando o nome de bolo, que ali não era precisa água nem fermento para que saísse da forma, bastava uma pancada forte. Aquela mão ficaria ali sozinha até ao fim dos tempos, sem a mão do professor a segurá-la. Até porque, mesmo que a tirasse, aquela régua do senhor Francisco nunca se partiria, tinha a certeza disso. Furtar-me ao castigo só poderia levar-me a ter de me sujeitar a castigo maior. 
Ainda hoje, quando uma humidade impertinente ou um prenúncio de artrite me fazem doer a mão, lembro-me daquele bolo. Ficam-me na palma, a dançar, o professor Rodrigues e o senhor Francisco.
A única coisa boa naquele dia foi a certeza de que, noutras escolas bem perto, havia professores mais ferozes ainda. Mas sobre esses falarei para a semana.
António Bulcão
(publicada hoje, no Diário Insular)
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

1 comentário:

  1. Uma vez, na quarta classe, apanhei umas fortes reguadas do falecido professor Alberto Lemos, também da tua terra. Mas sempre recordo o Alberto com saudade. Que descanse em paz.

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