Mais selvajaria primária
Quando a régua me deixou a mão direita a latejar, a dor e a humilhação só se atenuaram pela consciência de que, noutras escolas, com outros professores, era ainda pior.
O professor Vieira, que eu apenas conhecia pela sua careca fugaz, tinha a pior fama de torturador. Os relatos dos alunos que frequentavam a sua escola poderiam pecar por exagero algumas vezes, mas eram consonantes em relação a certos castigos.
Tinha vários vimes, de largura diferente, que aplicava em rabos e pernas desprotegidas pelos calções curtos, deixando uns e outras verdugadas pelo marmeleiro.
Por vezes aplicava a táctica do “mãos ao ar”.
Demorei algum tempo a entender o que seria tal prática. Para mim, o único que dizia “mãos ao ar” até aos meus sete anos era o Búfalo Bill da banda desenhada, quando entrava num saloon onde se portavam mal alguns pistoleiros malcriados, podres de bêbedos, doidos para fazer esterco. Com coragem para os meter em sentido apenas o herói Bill, que raramente era obedecido pelos meliantes.
Gerava-se no saloon um “silêncio de morte”, segundo o narrador da banda desenhada, os bandidos viravam-se para Búfalo, já arredando as abas dos casacos para deixar à vista as coronhas dos revólveres, os desgraçados que não tinham nada a ver com aquilo fugiam espavoridos ou escondiam-se debaixo de mesas escorrendo a uísque, e Búfalo limpava o sebo aos tolos que se tinham recusado a pôr as mãos no ar.
Para os alunos do professor Vieira, no entanto, a ordem de mãos ao ar era prenúncio de tareia geral. Vá-se lá saber o que lhe dava na telha, havia manhãs de mau humor e levava tudo. Justos e pecadores, magros e gordos, ricos e pobres, todos com as mãos no ar a mamar bolos a torto e a direito.
Era famosa a unha do polegar da sua mão direita. Cortada em bico, afiada a ponta com limas de pormenor, fazia pressão contra o indicador, tendo no meio tenros lóbulos de orelha de alunos chorosos. Mesmo assim, era melhor que o puxão. O puxão de orelhas era coisa para meter as mesmas à moda de Mister Spock…
Até se contava o caso de um aluno que tinha as orelhas bem junto ao crânio, tendo ficado com a direita desapegada da cabeça para fora num puxão mais desarticulado do mestre.
Ao pé disto, os bolos do professor Rodrigues e as suas pancadas com o ponteiro em dia de ir ao quadro eram carícias de uma suavidade até quase desejável.
Cá por mim, depois daquele bolo selvagem, lá me fui safando, portando-me bem, evitando erros de ortografia, fingindo-me de santo.
Houve uns tempos, acho que na terceira classe, em que o professor Rodrigues adoeceu. Parecia impossível um professor primário adoecer, mas aconteceu.
Durante essas semanas fui destacado para a escola da Volta e dei graças a Deus por a classe estar entregue a uma professora. Mulher, mãe de filhos, seria certamente mais branda.
Fui mandado sentar numa carteira ao fundo, afinal era excedentário, não fazia parte daquela Volta e não devia perturbar a ordem pré-estabelecida.
Depois de observar tudo e me sentir minimamente à vontade, decidi que era ajustado fazer algumas perguntas ao colega da carteira ao lado, para me inteirar sobre as regras da casa. Da secretária da professora veio um “shiuu” determinado, a impor silêncio.
Obedeci por minutos, mas depressa voltei à carga. Sendo mulher, a professora não me iria bater… Veio segundo “shiuu”.
À terceira tentativa de socializar, ouvi um silvo e um baque na parede atrás de mim. A professora tinha atirado o ponteiro, que passara entre a minha cabeça e a do colega com quem tentava entabular conversações.
Fiquei arrepiado. E se aquilo me tinha batido numa fronte? Ou num olho?
No intervalo, os colegas temporários da escola da Volta sossegaram-me. Era uma táctica usual daquela professora, atirar o ponteiro sala abaixo para separar cabeças conversadoras, mas nunca tinha acertado em ninguém. Seria, portanto, dona de uma pontaria que nem o Búfalo Bill, ou, pelo contrário, completamente desprovida da mesma.
A verdade é que a minha boca nunca mais se abriu, olhos fixos numa arpoadora de dotes inigualáveis, em terra onde se matavam baleias com alguma frequência, embora os melhores trancadores viessem do Pico…
António Bulcão
(publicada hoje, no Diário Insular)

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