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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Do colaborador Dr. António Bulcão



Minóte (ou a defesa de Cristiano Ronaldo)



O movimento “me too” deu coragem à pretensa violada por Cristiano Ronaldo para denunciar publicamente o crime de que terá sido vítima.

Embora me pareça pouco provável, é possível que haja leitores que não saibam inglês. Me too significa “eu também” e pronuncia-se “mitu”. 
Tem muito sucesso, este movimento. Uma actriz, Ashley Judd denunciou ter sido vítima de assédio por um produtor de cinema, Harvey Weinstein. Milhares de mulheres seguiram o exemplo da pioneira (daí o me too) acusando centenas de homens famosos de abusarem da sua posição para colherem favores sexuais. Uns perderam os seus empregos, outros tiveram de sair de séries televisivas de grande sucesso, gente famosa envergonhada por todo o lado, até na cerimónia dos Óscares surgiram mais posições solidárias em relação a mulheres ofendidas.
E eu acho muito bem. Quer as denúncias, quer a solidariedade. Ninguém tem o direito de abusar seja de quem for. Por mais importante que seja o abusador, que seja exposto e condenado, passe o tempo que passar sobre os seus crimes.
Apenas com uma reserva: que seja verdade e haja provas desses abusos. Claro que se o criminoso confessa, está resolvido. Assume, não há mais conversa. Se não assume, tribunal com ele e que falem as provas. Não basta dizer “me too”.
Mas com esta rapariga que acusa o Cristiano Ronaldo, a coisa é diferente. Cristiano nega, e não tenho qualquer razão para desconfiar que esteja a mentir.
1º - Não se conheceram por acaso. Ela trabalhava no bar onde Cristiano foi dançar, e o seu trabalho era animar os clientes do espaço. 2º - Num filme divulgado, vimos os dois a dançar, por vezes com alguma proximidade corporal, não parecendo em nenhum momento que a moça se sentisse assediada, antes pelo contrário. 3º - Quando convidada a subir à penthouse do jogador, não hesitou em aceitar o convite, tendo levado uma amiga com ela. 4º - Se fosse intenção de Ronaldo violá-la, porque teria convidado outras pessoas para estarem presentes? 5º - Não há qualquer prova de que tenha sido violada. Estavam os dois a sós num quarto, tiveram relações, Cristiano admite tal e até confessa ter sido “rude” demais, apenas ela fala em violação. 6º - As fissuras anais não provam uma violação. Provam uma penetração, mas a mesma pode ter sido consentida, sendo que as fissuras podem ser resultado da tal “rudeza”. 7º - Do que tenho lido, posso concluir que não será fácil violar uma mulher no sítio onde ela diz ter sido violada. Mesmo sendo consensual com a parceira, por vezes a coisa não resulta como ambos desejariam. 8º - Sendo que sempre restaria à miúda correr, gritar, pedir socorro, nada disso tendo acontecido. 9º - Pelo contrário: depois de “violada”, foi-se meter no jacuzzi com o resto da malta. 10º - Recebeu muito dinheiro para ficar calada, se calhar gastou-o, e só nove anos passados é que se lembra de denunciar publicamente a pretensa violação. 11º - O facto de Cristiano ter pagado uma generosa quantia pelo silêncio da mulher não prova que a tenha violado. Prova apenas que não queria que a relação fosse tornada pública. 12º - A acusadora quer mais dinheiro.
Imaginemos que a rapariga tinha sido mesmo violada. E que não tinha aceitado os tais trezentos e tal mil euros na altura. E que vinha agora denunciar publicamente Cristiano, mas apenas para que se soubesse e para que outras mulheres não caíssem na finta do melhor jogador do mundo. E que não queria dinheiro nenhum, apenas a exposição da verdade. Se fosse assim, até poderia acreditar na sua boa-fé. Só que, como está a ser, cheira a esturro por tudo o que é canto.
Verdade que as outras mulheres que denunciaram abusos esperaram muito tempo antes de ganharem coragem. Mas não exigiram dinheiro aos abusadores. Nada ganharam com as suas denúncias, a não ser o vexame público dos que delas abusaram. Podem até ter perdido alguma coisa, confessando ao mundo uma vergonha íntima. Ganharam, sem dúvida, a solidariedade de muita gente, através do me too. 
Cristiano já está a ser julgado publicamente e prejudicado, nomeadamente pelos cuidados futuros que anunciam as marcas para as quais tem feito publicidade, uma delas que bordou em calções femininos curtíssimos “just do it”. “Just” numa nádega, “do it” na outra, sendo que a marcha faz falar as duas. 
Todas as mulheres violadas merecem o meu respeito e a minha solidariedade, vistam o que vestirem. A forma de vestir não pode ser vista como um convite, ou um incentivo, ou, ainda menos, como um “pôs-se a jeito”. Por isso mesmo, a inocente Nike devia defender o rapaz que tantos milhões lhe deu a ganhar. Acreditando na sua inocência até a sua culpa ser declarada por um tribunal. Não basta a palavra da miúda…
Finalmente, porque o movimento me too encoraja mulheres como a que temos analisado hoje, decidi fundar um novo movimento. Chama-se “Me Not” e a ele podem aderir todos os que não foram violados nesta vida. Espero estejam em maioria…
Post Scriptum: Novamente para a hipótese pouco provável de haver leitores que não sabem inglês, “me not” significa “eu não”. Soa assim: minóte. Mas ninguém pense que me refiro a outra coisa com sonoridade bastante próxima, sobretudo se for dita com pronúncia de uma ilha que todos sabemos qual é… 
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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