“FAROL DE NEVOEIRO” – 28 outubro
A formiga votou no inseticida…
“O Brasil progride à noite, enquanto os políticos estão dormindo.”
Elias Murad
O médico e pensador brasileiro, desaparecido aos 88 anos depois de uma vida académica, profissional e política preenchida e de sucesso, resumiu em dez palavras o sentimento de uma imensa nação-continente, quinto maior país do mundo em área e sexto em população, com mais de 200 milhões de habitantes.
A diversidade geográfica, social e económica é tão notória que se torna difícil caracterizar com rapidez e assertividade “o brasileiro” enquanto cidadão. Das raízes históricas ao distanciamento que a geografia provoca, a heterogeneidade é ampla e dificulta a missão de sociólogos e antropólogos. Mas a maneira de se posicionar perante a vida, de se organizar em sociedade, de se miscigenar, aceitando a diversidade e multiplicando-a no espaço e no tempo, sempre foram componentes muito fortes do “ADN” brasileiro, trate-se de um nordestino, um paulista, um carioca, um mineiro ou um gaúcho. Quer dizer – e quem conhece o Brasil saberá ainda melhor do que estou a falar – independentemente da origem e das imensas particularidades que enriquecem o país e o seu povo, há uma base, um “modus operandi” que tem tanto de fascinante quanto de perverso, tanto de apaixonante quanto de desarmante e, por vezes, alarmante.
As assimetrias fazem parte da história do Brasil e do seu povo. Desde sempre as elites procuraram a arquitetura de um sistema político que as favorecesse, seja pelas ligações que se estabelecem entre interesses comuns, seja pelo domínio dos grandes negócios, pelo favorecimento das grandes empresas e empresários, pela teia de compadrios e dependências que facilmente se foi criando, sem que o eleitor, em rigor, tenha possibilidades efetivas de mudar o “status quo”, por receio ou, simplesmente, porque o sistema eleitoral é complexo e não permite alterações ou evoluções radicais. Foi quase sempre assim, até surgir o operário metalúrgico que revolucionou o país e, após duas derrotas (frente a Collor de Melo, em 1989 e a Fernando Henrique Cardoso, cinco anos mais tarde). Lula da Silva procurou, no Palácio do Planalto, implementar as ideias e as políticas que o tinham cativado a filiar-se, em 1968, no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Gerou empregos, piscou o olho a uma enorme classe média-baixa e baixa, desfavorecida, sem acesso nem possibilidade de o conseguir aos cuidados básicos de saúde, à educação elementar, aos meios mínimos de uma subsistência digna. Acentuou clivagens com a elite de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, que perdia privilégios e via as suas posições dominantes ameaçadas por uma conjuntura política de investimento e ataque aos problemas sociais gritantes da nação-continente.
Em 2006, no final do seu primeiro mandato, dispunha de um crédito de popularidade superior ao que o elegeu, algo raríssimo em qualquer sistema democrático, em que a erosão do poder se reflete, quase sempre de forma diretamente proporcional, nos índices de popularidade. Após dois mandatos e um apoio assumido a Dilma Rousseff, Lula e o seu Partido dos Trabalhadores viriam a pagar caro alguns erros, talvez comuns na maioria dos políticos com responsabilidades governativas: cedências, acordos de bastidores, compromissos não escritos, facilidades que com facilidades se compensam. E, de um momento para o outro, a corrupção, entalada num emaranhado legal difícil de entender e de digerir, que agora o leva à prisão em Curitiba. Custa a entender que alguém com a experiência de uma luta política de décadas se tenha deixado enredar de tal forma que não suportou o “detalhe” de um apartamento em Santos.
Mas não custa a perceber todo o caminho que a oposição de direita percorreu até lá chegar. Não se tratou apenas do desgaste do exercício do poder desde 2002. O PT e as suas políticas populares deixavam margem ao descontentamento das principais empresas, emaranhadas, também elas e os seus gestores, numa teia de cumplicidades perigosas com titulares de cargos públicos e judiciais. Um verdadeiro caso de polícia à escala de um país gigante, aproveitado agora, em sede de eleições presidenciais, para servir de exemplo numa ideia completamente diferente: a de um patriotismo exacerbado ao limite, quase a roçar o fanatismo, suportado numa onda de popularidade em crescendo, que resulta de dois aspetos: uma utilização sistemática (por vezes muito pouco profissional, é certo, mas terrivelmente eficaz) das redes sociais, da sua abrangência, da sua capacidade de propagação rápida e transversal, e uma radicalização do discurso para “valores” patrióticos, de família e religião que capta uma ampla franja de votantes, descontentes com um fluxo nem sempre verdadeiro e quase sempre manipulado de informação, cansados dos sinais de corrupção galopante e sedentos de moralização. Talvez esquecendo-se, uma boa parte dessa franja de votantes, de tudo o que, nas suas vidas, foi melhorando nos últimos vinte anos.
O Brasil vota hoje. Bolsonaro deverá ser eleito e, com ele, uma ideia radical de país “virado para dentro”, de duvidoso moralismo e questionável respeito pelos direitos, liberdades e garantias que qualquer cidadão exige. Lembro-me de um cartaz, empunhado durante a campanha eleitoral: “A formiga, com raiva da barata, votou no inseticida. E todo mundo morreu. Inclusive o grilo, que se absteve do voto.”
Rui Almeida
Jornalista da Deutsche Welle

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