Era sempre assim quando tinha os meus 6-7 anos de idade: esperar ansiosamente que chegasse o mês de maio para me divertir nos arraiais e iluminações das tradicionais festas do Espírito Santo. E no que concerne ao burgo de Angra do Heroísmo, sempre começava por Santa Luzia e Outeiro e Remédios (Corpo Santo). Um tempo em que só tínhamos essas festividades que, diga-se, ao invés do que acontece hoje, eram muito participadas, mormente as iluminações que, se a memória não me atraiçoa, começavam às 22 horas, duas horas depois do términos do arraial. Um corre-corre para junto do palanque da música e, simultaneamente, acompanhar as arrematações. E não esquecer o saca das bolas com as suas tábuas para atribuir ao vencedor uma dúzia de chocolates, sem ser da marca Regina, porque eram mais caros. Mas não era por isso que o saca das bolas não fazia o seu negócio. Eram seguidos os sorteios.
Mas, em relação aos arraiais e iluminações, e uma vez que estava dividido entre o Corpo Santo e Rua de Oliveira (com as transversais Quatro Cantos, Canos Verdes e Jesus, ou seja, família dividida), normalmente acompanhava as filarmónicas da Recreio dos Artistas e Fanfarra Operário Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Óbvio que estava mais virado para a Recreio dos Artistas (influência do cinema e não só) e quando a filarmónica tocava nos impérios circundantes à zona de Angra, adora ver a atuação do Maestro Alberto Cunha. Sem dúvida, uma figura carismática. Só sabia que ele morava ali para os lados da antiga Praça de São João e que também tinha filhos músicos, nomeadamente dois.
Dessa ligação da minha infância-adolescência-juventude, nunca supus que, volvidos anos, teria como amigos os três filhos do Maestro Alberto Cunha. O Alberto, o Paulo e o Lourival. Mais intimidade com o Alberto e o Lourival. Com o Alberto, e após a minha vinda de Angola, colegas na Junta Geral de Angra do Heroísmo, e, também, como árbitro de futebol, sempre dele recebia importantes conselhos. Mais tarde, no Lusitânia fiz parte da secção de futebol com o Alberto e o Elvino, isto numa altura em que se verificaram demissões no clube. E até fizemos juntos uma viagem ao Faial onde o Lusitânia participou nas comemorações do aniversário do Fayal Sport Clube. Do Lourival, colegas nos jornais Diário Insular e A União. Ele nos respectivos escritórios e eu nas redações dos referidos jornais. Curiosamente, antes de eu partir para São Miguel para chefiar a redação do Jornal do Desporto, e a dois dias da mudança de 1990 para 1991, fizemos uma partida ao Lourival, colocando latas presas ao seu carro. Era já noite e ele não se apercebeu. E lá saiu de A União com aquelas latas fazendo barulho, até chegar a casa. Com o Paulo, o contato quando ele fazia parte de uma comissão pró-sede do Lusitânia e lá estava todas as noites no bar-restaurante a ajudar.
Dos netos do Maestro Alberto Cunha, ainda apanhei dois nos juvenis do Lusitânia. O Dario, que acabaria por ser colega no Diário Insular (composição), esteve pouco tempo, em relação ao irmão cujo nome não me ocorre. Ainda tinha o Luís Felipe, irmão, mas que optou pelo Angrense, o mesmo dizendo em relação ao Gigi Cunha, filho do Paulo. Não me lembro se ele foi, nas minhas passagens pelo Angrense, meu jogador. Também ele guarda-redes. Só o Luís Felipe fugiu a esse estigma.
E quão foi importante recordar o Maestro Alberto Cunha e sua descendência. E essa admiração que tinha pelo Maestro Alberto Cunha começou muito cedo nos arraiais e iluminações nas filarmónicas por ele regidas. Era, de facto, uma grande referência, musicalmente falando.

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