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terça-feira, 20 de novembro de 2018

De OSVALDO CABRAL, jornalista e diretor do jornal DIÁRIO DOS AÇORES


Uma região grisalha

As últimas estatísticas demográficas publicadas pelo INE revelam alguns sinais preocupantes para os Açores.
Nos últimos cinco anos perdemos 3.687 habitantes, baixando a nossa população de 247.549 em 2012 para 243.862 em 2017.
De um saldo natural positivo em 2012, temos vindo a registar até 2017 saldos naturais negativos, o mesmo acontecendo com o saldo migratório.
Estes sinais dão razão aos especialistas em demografia, que há muito previam que após uma taxa de natalidade muito elevada nos Açores, durante todo o século XX, mesmo acima da média nacional, o fenómeno iria inverter-se nos próximos anos.
Chegaram mesmo a chamar-nos “uma ilha de fecundidade”, com as gerações a renovarem-se até 1994, mas no período da crise económica tivemos uma queda brusca, passando para um período de acentuada infertilidade.
A ilha do Corvo é um dos exemplos mais referidos por quem estuda estes fenómenos.
Uma mulher da ilha mais pequena dos Açores tinha, em média, 2,77 filhos, quando a média nacional era de 1,28. Quatro anos depois o índice de fecundidade foi zero. 
Mas se viermos por aí fora, todas as ilhas foram perdendo população de uma forma acentuada nos últimos anos, sem se regenerarem, com destaque para a Graciosa.
A agravar o saldo natural, temos outro problema que em nada contribui para a construção demográfica das nossas ilhas: o desemprego jovem.
Com taxas altíssimas de desemprego entre os jovens, que só no último trimestre ultrapassavam os 32%, temos aqui um convite para que muitos jovens saem das ilhas à procura de outros mercados.
Estamos a perder mão de obra jovem, muitos talentos e cérebros, ficando as comunidades reduzidas a famílias envelhecidas e quase desertas.
Perante este cenário, o mais preocupante é que as políticas de apoio à natalidade desapareceram da agenda do poder político.
Atrapalhado com o desastre financeiro que vai por aí nas empresas públicas, com a ausência de verbas nos cofres das finanças públicas, pouco há para oferecer e investir nesta área.
As políticas sociais nos últimos anos tiveram uma forte componente financeira, mas tudo de forma desgarrada, sem estratégia e objectivos, ao ponto de muita gente fugir dos sítios mais isolados e concentrar-se nas zonas urbanas mais populosas, como acontece com a ilha de S. Miguel.
O eixo Ponta Delgada-Ribeira Grande já é bastante significativo, enquanto vamos assistindo ao despovoamento das outras ilhas.
Só S. Miguel e Terceira já concentram quase 80% da população açoriana.
Alterar a dinâmica demográfica das nossas ilhas nos próximos tempos vai ser muito difícil, se não mesmo tarefa impossível, atendendo ao estado em que se encontram muitos sectores de actividade regional, num declínio só mais animado pelo sopro do turismo.
Vamos continuar a assistir a este inverno demográfico insular de forma cada vez mais acentuada, a não ser que se crie um programa de emergência para as ilhas mais atingidas pelo fenómeno, apostando mais nas suas potencialidades, criando melhores condições de investimento, discriminando positivamente as apostas sociais e dar outra atenção às acessibilidades.
É tarefa gigantesca para um governo que já mostrou ser incapaz de resolver outros problemas de dimensão mais pequena.
Quem não consegue governar uma empresa pública, como pode governar uma ilha ou uma região?
Na ausência de políticas públicas que invertam a tendência, o mais certo é que as previsões dos especialistas se concretizem. Ou seja, de acordo com as mesmas projecções, se temos agora cerca de 18% de jovens, em 2030 serão apenas 12%, enquanto que os idosos, na ordem dos 13%, serão 19% em 2030.
O futuro não é risonho para muitas das nossas ilhas.

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AÍ ESTÁ A FACTURA - O pedido do Governo Regional ao parlamento para aprovar um orçamento rectificativo, com vista à atribuição de 40 milhões de euros à SATA, é só o princípio da enorme factura que vai cair na algibeira de todos os contribuintes açorianos.
Aquele valor é apenas uma gota no oceano do descalabro em que o governo e as administrações deixaram a SATA.
A empresa vai precisar de muito mais do que isso para corrigir a trajectória e até para pagar os compromissos mais urgentes.
São milhões que vão ser retirados aos açorianos, apenas para pagar a gestão ruinosa dos últimos anos, e que podiam ser aplicados em investimentos novos que nos devolvessem riqueza.
Esta é uma das causas porque estamos a pagar cada vez mais impostos indirectos nos Açores, destinados a cobrir os enormes buracos nas empresas públicas.
Bem que fomos avisando ao longo destes anos que isto não podia continuar e que um dia o governo ia cobrar-nos a factura.
Pois aí está o resultado.
Que é só o princípio.
O pior ainda está para vir.

Novembro 2018
Osvaldo Cabral 
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal, Milenio Stadium Toronto)
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Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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