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terça-feira, 20 de novembro de 2018

Do colaborador Dr. ANTÓNIO BULCÃO


Uma tourada tesa

A Ministra entrou desconfiada no recinto. Não sabia onde estava, e não há nada pior para um ministro. Para um cidadão normal, não saber onde está é um aborrecimento grande. Para um ministro, é um drama terrível.
A Ministra estava vendada. Nesse estado, de cegueira temporária, é perfeitamente natural qualquer ser humano perder as coordenadas, não saber para onde fica o norte. Em suma, a Ministra estava à rasca. 
Ouvia à sua volta como que uma multidão. Aqueles burburinhos que só as multidões conseguem produzir, quando estão à espera de alguma coisa. Não são berros, nem apupos, nem assobios, nem aplausos, sinais de que a multidão já está entretida. É mais um rumor de expectativa, o que é compreensível, pois o espectáculo, se de um espectáculo se tratasse, ainda não tinha começado.
Alguém, que a Ministra não conseguiu identificar, tirou-lhe a venda dos olhos com alguma rudeza. Foi só nesta altura que a governante teve consciência de onde estava: uma Praça de Touros. 
Na arena. O que fazia ela ali? Ela, que nem gostava de touradas? Que achava serem tais manifestações uma coisa bárbara, tradição de gente incivilizada?
Mas o susto cresceu. De repente, como vindo do nada, surgiu na sua frente o bandarilheiro Carlos.
O bandarilheiro Carlos era o mais temido da sua quadrilha. Vindo da banda das ilhas (daí ser bandarilheiro), nunca fizera outra coisa na vida que não fosse bandarilhar. Mas a sua crueldade era conhecida, mesmo pelos não aficionados, sobretudo pelos que odiavam touradas.
“Desces o IVA ou não desces o IVA?”, perguntou Carlos, já erguendo as bandarilhas e ouriçando a espinha, em posição de ataque”.
“O tanas é que baixo. Se pode haver IVA mais alto para comida e bebida com açúcar, também pode haver para espectáculos de que eu não goste”, quase gritou a Ministra, parecendo irredutível.
Bandarilheiro Carlos ficou furioso. Estava habituado a ser obedecido com prontidão, fosse por parte de quem fosse. Quando ordenava, queria dorsos dobrados. Deu um passo em frente, para espetar com toda a força os seus ferros na insubordinada.
Foi aí que se ouviu o som sibilino de um trompete. Um silêncio repentino tomou a praça toda. A multidão reconheceu logo que se tratava de trompetista Alegre. Apesar de já velhinho, trompetista Alegre era bastante respeitado pela afición. 
“Carlos, tu que me apoiaste, mostra alguma dignidade, recua, já que avançaste, em nome da Liberdade”. Esta era a característica que o povo mais apreciava em Alegre. Falava quase sempre em verso.
Só que Carlos, desta vez, não estava para alegrices. Ele sabia bem o que era popular e, por isso, sempre fora populista. Trancou as bandarilhas no lombo da Ministra, que largou um urro e desatou às voltas, com duas bandeirinhas a drapejar.
Abriu-se o portão principal. A multidão fez silêncio, não sabendo o que se iria passar. Uns segundos de espera. Entra a galope cavaleiro Costa. Empinou o cavalo para bandarilheiro Carlos.
“Estou muito surpreendido contigo, Carlos. Muito surpreendido. Não tens consciência?”.
“Tenho, e vou dar liberdade da mesma a todo o grupo de forcados. Cada um deve gostar do que gosta, sem ser o IVA a discriminar”.
“Aqui não há liberdade de consciência, nem maria liberdade de consciência. Nota bem: tu estás a pé e eu a cavalo”.
“Ah é? Pois tira o cavalinho da chuva. Vais ver quem manda de facto”.
Estavam nisto, com a Ministra sempre às voltas, a ameaçar esvair-se em sangue, quando o portão principal se abriu de novo. Outra vez silêncio profundo. O que poderia acontecer mais?
O touro saiu, decidido. Foi o desnorte total. Correndo, fugindo, Costa com o cavalo ao colo, Carlos com as bandarilhas a fazerem de canadianas, a Ministra a usar as suas assim tipo varas para saltar, desapegaram em frente da besta. 
Em poucos segundos, a arena ficou vazia.
Dono absoluto da praça, o touro abanou os cornos, inchou a peitaça e urrou para a multidão: “Afinal, quem manda aqui? Gente tola e eu, paredes altas”.
António Bulcão
(publicada hoje, no Diário Insular)
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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