CONTINUAÇÃO
É tradição portuguesa não se pensar 'à la longue', mas no imediato. 'Isto está a dar é agora, depois a gente não sabe'. Isso pode ser fatal.
Como é que avalia a recente decisão anunciada por Trump de transferir a Embaixada dos EUA em Israel para Jerusalém? Que impacto é que teve na opinião pública norte-americana?
Têm sido tantas as desastrosas tomadas de posição de Trump que essa surgiu apenas como mais uma. O facto de tanto o Vaticano como as Nações Unidas se terem pronunciado contra [a decisão] não o ajuda, mas creio que as opiniões do eleitorado estavam tomadas antes de virem a público essas posições. A popularidade do Presidente mantém-se baixíssima, segundo as sondagens.
Do seu ponto de vista, qual é o maior perigo que Trump representa?
No outro dia, alguém citado no The New York Times dizia que a Casa Branca é neste momento uma espécie de creche em que há um montão de adultos a tomar conta de uma criança. O que neste momento está a acontecer é que o general John Kelly [chefe de gabinete do Presidente dos EUA] conseguiu impor alguma ordem na Casa Branca servindo-se do seu treino no exército. Todavia, não lhe foi possível controlar Trump a ponto de o impedir de usar o Twitter. Aliás, actualmente, há algo de estranho a acontecer. Os Estados Unidos estão a ser governados por uma família e por um grupo de militares. Isso, para um país cujo governo era o supra-sumo de uma estrutura civil… Na América Latina é que havia generais na presidência. Por outro lado, até é bom que agora estejam generais na Casa Branca porque um homem que age impulsivamente, como Trump, pode cometer uma enormidade. Esse é o perigo.
A questão da Coreia do Norte ainda é a mais preocupante?
Sim. Parece que o Presidente tem poder absoluto; tem autorização para intervir sozinho num contexto de guerra nuclear. Por uma razão muito simples, que é o chamado "preemptive attack", ou ataque de antecipação. Se ele, informado pelos serviços secretos, souber que um país vai disparar mísseis, está autorizado a antecipar¬-se-lhe. Para declarar guerra, o Presidente tem de pedir autorização ao Congresso, mas face a um ataque nuclear tal não é necessário. Porque não dá tempo. A intervenção tem de ser imediata. E é assustador pensar que Trump pode tomar essa decisão.
Houve uma série de fantasmas destapados com esta administração. Nomeadamente, questões de xenofobia, racismo, que pareciam estar um pouco mais adormecidas na administração Obama e passaram a estar na ordem do dia.
Na América, sempre houve uma grande tradição de liberdade, que vem de há muito tempo, da matriz inglesa. A primeira emenda da Constituição é sobre a liberdade de expressão. Então, as pessoas sentem-se senhoras desse direito e exercem¬-no. Não há filtros. Ouve-se e diz-se tudo. Durante o tempo da administração Obama, muito do racismo foi subjugado, não havia espaço público para tal. Apesar de continuar a existir. Agora não. Esse grupo que apoia Trump expressa as mais horrorosas ideias na comunicação social. Por um lado, até é um bom escape porque sai tudo cá para fora e fica-se em palavras, em debates. O problema é quando o exercício dessa profunda tradição age como instigadora de violência. Felizmente, as tensões sociais têm-se mantido relativamente dentro das práticas democráticas.
Continua

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