Natal sem manjedoura
Acordaram cansadas, luas negras e ciganas,
dos desertos da indiferença, cruel e bárbara,
onde passeiam comboios de fome, miséria e doença,
em acampamentos mortos de esperança.
Vagueiam perdidas e esfarrapadas de quereres, estrelas cadentes, excluídas do firmamento, confinadas a guetos,
acompanhadas de dor,
nuas de carinho, em labirintos podres de sentimentos,
num planeta de fato e gravata, de anéis de ouro branco,
tiaras de diamantes, peles de animais dizimados e desigualdades medonhas.
Veste-se o Natal de rosas douradas,
promessas vãs e caridade mentirosa.
Tremem os telhados, apagam-se os faróis de lata,
Corações de pedra gastam milhões, aumentado a fome,
Varandas de água fresca morrem, sem matar a sede
Guitarras de cristal imploram quem a toque,
Árvores, débeis, velhas e doentes,
abraçam o vento frio e despiedado para se manterem de pé,
Perdidas em arquiteturas de pétalas mortas,
Semeiam-se fogueiras de neve,
Apagam-se luzes de beneficência,
Amortalham-se para enterrar os botões de vida,
que nunca viveram,
Fome, miséria, violação e abandono trajados de luzes da ribalta,
disfarçados de boas vontades,
Matam e morrem sem sol nem lua, sem céu `vista,
No inferno da terra onde as feridas queimam,
mais que o sol do deserto,
Apodrece pão, morre-se à mingua.

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