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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Do colaborador DR. ANTÓNIO BULCÃO


Jesus açoriano

Imaginemos que Jesus nascia hoje, mas aqui nos Açores.
De que ilha seriam pai José e mãe Maria? Seriam da mesma? Seriam de ilhas diferentes?
Que pronúncia teria Jesus, quando andasse por aí nos seus sermões?
Que ilha escolheria para nascer? E, nessa ilha, em que lugar?
Preferiria a ponta do Pico? Ou a Caldeira do Faial? O ilhéu do Topo? As Termas do Carapacho? O Algar do Carvão? As Furnas?
Decidir-se-ia por uma ilha com hospital, já que uma complicação sempre pode surgir, ou correria o risco de nascer num Puma, sendo por tal um filho do ar, mas tão especial que daria um outro sentido, mais poderoso, à Força Aérea?
Como se deslocariam os Reis Magos e com que dificuldades, sobretudo na parte que respeita aos camelos? Se a gruta ficasse no cume do Pico, haveria na subida as restrições para os Reis que não houve para Medina?
Como fugiriam José, Maria e Jesus de Herodes? Se fossem de burro, raspar-se-iam para a Graciosa? E quem faria de Herodes, nestes dias?
O que sentiria Jesus, a andar por aí nessas ruas, zonzo entre as músicas de Natal repetidas em colunas de som amarradas a postes, atropelado por gente consumista a gastar milhares em seu nome? Ele, que se despojou de tudo? Quantos vendilhões teria de expulsar dos vários templos?
Que milagres faria, nos dias que correm? Que empresas públicas salvaria? A SATA? A Saudaçor? 
Haveria algum Lázaro suficientemente digno para voltar à vida, por muito que pedissem as suas irmãs lacrimosas?
Quem faria de Caifás? E de Pilatos? Quantos andam por aí prontos para lavarem as mãos quando chegar a hora das contas finais?
Seria preciso abrir um concurso público para a escolha de Judas, tantos seriam os candidatos a trair por bem menos que trinta dinheiros?
De que ilha seria Maria Madalena?
Permitiria a Comissão Europeia o milagre da multiplicação dos peixes? Mesmo excedendo a quota?
Quantos se apresentariam com garrafas de água do Luso, já de garganta sôfrega por vê-la transformar-se em vinho? E quantos exigiriam que o vinho fosse de certa colheita?
Iria o povo abster-se na votação entre Cristo e Barrabás?
Quantos Pedros o negariam antes e depois dos galos se calarem, exaustos?
Em que ilha seria sepultado Cristo, depois de sangrar os espinhos e carregar a cruz?
Teria forças para ressuscitar, no meio desta desgraça?
Não sei.
Só sei que se Cristo nascesse hoje, à sombra da Rocha dos Bordões, nas Flores, seria açoriano.
Se nascesse nas Sete Cidades, seria micaelense.
António Bulcão
(publicada hoje, no Diário Insular)
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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