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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Do jornalista e redator principal do jornal Record RUI DIAS


André Silva pisca o olho à estatística

Não cumpriu no Milan o que mostrou no FC Porto: em S.Siro não deu seguimento ao excelente início de conversa que foi marcar 21 golos pelos azuis e brancos na época de estreia, sob o comando de Nuno Espírito Santo. Mas a questão é mais profunda e não permite olhar para os números despojados de sentido crítico. A culpa da dificuldade de afirmação no estrangeiro será, toda ela, dos jogadores portugueses? Será que André Silva, Renato Sanches, João Mário, Adrien, André Gomes e Nélson Semedo, só para falar em alguns, não têm, afinal, a qualidade que lhes atribuímos? Ou terão sido (são) prejudicados pela falta de sintonia nos clubes que os acolheram, vítimas de guerras incompreensíveis entre dirigentes que os contratam e treinadores que não os põem a jogar?

Está a ser muito fácil descartar jogadores portugueses pagos a peso de ouro, incluindo campeões da Europa. André Silva foi contratado por um AC Milan em dificuldades, atirado para níveis muito abaixo dos limites razoáveis; era um jogador promissor, com 21 anos, e já trazia um lastro de golos que, não sendo extraordinário, deixava antever carreira bem recheada. Viveu tempos difíceis porque Genaro Gattuso, o responsável milanista, não queria um avançado para marcar golos em duas ou três épocas, antes desejava uma solução imediata. Resultado? Não teve paciência para cumprir um dos grandes objetivos de qualquer treinador: ensinar, ser pedagogo, na certeza de que a sua competência também se mede na evolução dos jogadores que orienta. Nada que surpreenda, porque os treinadores italianos passaram de moda e há muito se deixaram ultrapassar. Chamem-se eles Gattuso, Spaghetti, Tagliatella, Spaletti, Lasagna, Risotto ou Mancini, são todos feitos da mesma massa – e mesmo Allegri é um caso para ser analisado.

Tal como em todas as funções específicas do futebol (a de guarda-redes é a mais reconhecida), os avançados demoram a expressar-se na plenitude do potencial revelado na juventude. Fenómenos à parte, precisam de tempo, treino e orientação pedagógica até conjugarem todos os elementos que fazem parte do manual. AS cumpriu os primeiros capítulos, os menos exigentes, aqueles para os quais necessita apenas de seguir o instinto muscular (integração no processo defensivo, sem medo do desgaste físico) e satisfazer os requisitos da solidariedade (estar sempre disponível para receber a bola e dar seguimento ao jogo).

Dá agora, perto de completar 23 anos, passos seguros para acrescentar a esse estilo frenético, feito de entrega e participação, a serenidade, a técnica e o talento de concretizador. Pelo Sevilha tem, em 12 jogos, números parecidos com os obtidos em 40 presenças pelo Milan na época passada. Certo que são equipas e contextos distintos, e que é mais fácil marcar em Espanha; mas é preciso dar crédito ao jogador, ao passo em frente que está a dar na construção como ponta-de-lança, cujos 14 golos pela Seleção, conseguidos aos 22 anos, lhe permitem sustentar candidatura à história – ninguém marcou tanto tão cedo e em tão pouco tempo. Na estrela de AS começam a brilhar as pontas de paciência, precisão, maturidade, confiança e intimidação.

AS continua a pensar mais na equipa do que na contabilidade pessoal; não desfez os traços altruístas de uma generosidade sem limites, própria de quem pensa mais no coletivo do que nele próprio e revela a nobreza de recusar o egoísmo na zona de finalização. Nestes casos, parece criminoso o impulso que nos atira para a convicção de que, para alargar o reconhecimento, precisa de ser um cidadão pior; mas é a experiência que desenha a ideia segundo a qual não há grandes goleadores sem obstinação e despudor. AS já convenceu quem lhe aprecia o estilo de que é um enorme futebolista; precisa agora de dar seguimento ao que tem feito em Sevilha. Porque só dando satisfação à estatística convencerá o Mundo de que é um avançado excecional.

João Cancelo
impressionante
O jogo com a Polónia serviu para confirmá-lo como candidato a grande estrela
João Cancelo atingiu nível impressionante e mostrou-o no jogo em Chorzow. Com o percurso internacional feito em Valência, Inter Milão e Juventus, cresceu longe dos nossos olhos e, agora que lhe pomos a vista em cima, caminha para ser um dos grandes laterais-direitos europeus. Itália é um bom lugar para melhorar em termos defensivos – é isso que lhe falta para ter lugar no topo do Mundo até ao fim da carreira.

Bruma e a estreia
de Hélder Costa
Cristiano, Nani e Quaresma não vão para novos e é preciso acautelar o futuro
Bruma e Hélder Costa foram opções para o jogo com a Escócia. E a conclusão é óbvia: há vida, mais jovem e consistente, para lá das escolhas óbvias. O avançado do Wolverhampton, um dos destaques da liga inglesa, estreou-se com um golo, meia dúzia de preciosidades e um jogo consistente; o extremo do Leipzig continua a confirmar o destino anunciado de transformar-se num dos grandes jogadores da sua geração. 

Renato Sanches
com vida nova
A dupla jornada da Seleção sugere ponto de situação muito animador
Renato Sanches ganhou direito a uma vida nova. O jogo na Luz pelo Bayern foi suficiente para inverter a tendência regressiva da carreira e, não fosse a crise do clube, tinha tudo para retomar o caminho da glória. A ascensão traduziu-se na Seleção, ao serviço da qual mostrou irreverência, talento, dinâmica, intensidade… Quando tiver a dimensão tática equivalente (para lá caminha), será um craque absoluto.

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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