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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Homenagem a um expoente da literatura - Onésimo Teotónio Almeida


Onésimo Teotónio Almeida

O nome que aparece nos livros: Onésimo Teotónio Almeida. Mas é o Onésimo. (Ficou com o nome mais arrevesado da lista.) Micaelense dos Açores, açoriano de Portugal, americano em casa na Brown University. Cidadão torrencial que procura espaços de liberdade, para se espraiar. Vulcão raramente adormecido. Escritor, filósofo, académico. Tem 67 anos.
Veio para as férias de Verão. Hábito ou necessidade de todos os anos. É um modo de regressar ao essencial, a uma geografia que o coloca na infância, nos anos de formação. Paragem prolongada em Lisboa. Tempo sem tempo nos Açores. O tempo do rapaz que trazia os brinquedos nas algibeiras. (Hoje transporta livros, e em casa faz pilhas, arranha-céus, Manhattans, como lhes chama, com eles. É um homem dos livros tanto quanto é da vida que não aparece nos livros. A vida que só se sente na vida. Wittgenstein falava dela, procurava-a. Onésimo, também.)
Veio num dia de Verão, de muito calor. Falámos num hotel elegante de Lisboa. Estava ligeiramente atrasado e vergastava-se como se o atraso fosse considerável. Depois falou e divertiu-se como uma lava que jorra. Imparável, portanto.
Onésimo Teotónio Almeida ensina no departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade Brown. Tem uma obra extensa. Lançou recentemente Pessoa, Portugal e o Futuro. Podia ser, senão o pretexto, o ponto de partida para a entrevista. Não foi. Fomos lá.

É professor na Brown, é ensaísta, escreve ficção. Tem um personagem preferido? Júlio César, Álvaro de Campos? Podemos definir o que são os personagens de ficção, e também o que faz deles heróis.
Interessam-me mais as ideias do que a literatura, onde sou um visitante e leitor por gosto. Custa-me a entrar num universo ficcional. Só leio romances quando posso lê-los sem interrupções. Para entrarmos na ficção temos de nos deixar embarcar. De qualquer modo, quer na ficção quer na não-ficção o meu desejo é entender o mundo. E tanto a ficção como a não-ficção ajudam.

Precisa menos de enredos e precisa mais de ideias? É conhecido como um grande contador de histórias.
Sim, pelo-me por uma boa história. O nosso quotidiano está cheio de ricas histórias que se entrecruzam e mutuamente se enriquecem. E a História fascina-me. Também gosto de autobiografias, de livros de memórias. Em ficção, quero que ela me ajude a penetrar no real. Shakespeare, por exemplo, é magnífico porque nos faz entrar no universo escuro dos seres humanos.

Falei em Júlio César porque imaginei que um dos seus heróis seria um personagem shakespeariano. Todos precisamos de mitos.
As pessoas que mais admiro são pessoas que conheci ao vivo.

Diga-me cinco. Se gosta de autobiografias e memórias vamos começar por traçar vagamente a sua a partir das pessoas que admira.
Mais do que um herói, tenho uma constelação de gente que admiro em particular. Na minha adolescência e juventude, um tio e o filósofo José Enes tiveram grande influência na minha vida. George Monteiro e Eduardo Lourenço. A Leonor, minha mulher. Nunca pensei fazer uma hierarquia.

Não é uma hierarquia, é uma cartografia.
Então ultrapassa os cinco. E depois não sei porque é que um será melhor que o outro. A minha avó materna foi importantíssima. O Monsenhor Lourenço, um velho professor de inglês, ensinou-me imenso com as suas histórias. Há tanto que aprendi de gente simples. E lidei com pessoas de alto nível que não me ensinaram nada de especial.

Há pessoas que parece que sabem o mundo a partir dos livros e não ensinam nada. E há outras, iletradas, que têm uma compreensão íntima do funcionamento da vida.
É. Aprendo de onde me chega a luz. Sou muito ligado à vida. Quando falo, frequentemente conto histórias para ilustrar uma ideia. Uma ideia abstracta, abstrusa, de repente torna-se clara com uma história, ou uma experiência da vida real.

Por exemplo.
Recentemente estava a falar da importância do [filósofo] Henri Bergson para Fernando Pessoa. Tentava explicar o que era o élan vital, de Bergson, no momento de criatividade do artista. E, para o público a que me dirigia, ocorreu-me o Pauleta como exemplo.

Como é que foi dar ao Pauleta? Mistura Filosofia e futebol.
As pessoas queixavam-se de que ele não construía jogo, mas na verdade ele estava lá à frente imensamente atento e, no momento exacto, surgia oportuno para disparar.

O seu livro mais recente é Pessoa, Portugal e o Futuro. Os seus objectos de investigação são Portugal e Pessoa?
Tenho dois níveis de interesses: a nível teórico, a questão dos valores e das mundividências. A nível aplicado, Portugal. O meu interesse por Pessoa adveio do seu interesse por Portugal.

CONTINUA
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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