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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Homenagem a um grande vulto da literatura ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA



CONTINUAÇÃO

Neste livro, mais do que de Bergson, fala da influência do filósofo Georges Sorel no poeta português. Pode sintetizar o seu contributo?
Descobri que Pessoa, tal como Sorel, são os únicos pensadores no mundo que usam um conceito de mito especial. Em vez de uma explicação do passado, situam o mito no futuro, como íman a concitar os ânimos e os desejos das pessoas de modo a operarem uma transformação social. Trata-se de uma construção e por isso Pessoa considera-se um “sebastianista racional”. Ele sabe da “verdade da mentira que criou” porque “o mito é o nada que é tudo”. São expressões dele. A minha leitura pretende ser uma reconstrução do puzzle que era a mente de Pessoa ao lançar-se na escrita de Mensagem. E ele explicou-se todo melhor do que ninguém.

Ao falar do élan vital e do pessimismo que impressionava Pessoa, parece falar do Portugal destes dias. É uma marca da nossa cultura, este pessimismo?
Creio que sim. Pessoa quis reagir contra o pessimismo derrotista que imperava no final da monarquia e depois no período da 1ª República. Ele não era um activista mas uma saída para o país que via de braços caídos. A sua concepção é engenhosa, brilhante mesmo. Mas não é para ser tomada à letra, como tem sido feito por gente que lê a Mensagem sem ler o que Pessoa diz dela ou sem perceber as pistas que ele deixa por todo o lado. Pessoa era um homem de ideias, um ruminante que lia tudo, mastigava e deitava fora o que não lhe interessava. Ainda assim absorvia imenso.

Ensina cultura portuguesa na universidade.
Não tinha nenhum treino em cultura portuguesa, excepto a que levava nos ossos quando fui para os Estados Unidos aos 25 anos.

Tinha estudado Filosofia.
Sim. Eu fazia doutoramento em Filosofia em Brown [University] e um grupo de professores queria criar um Centro de Estudos Portugueses. Vieram ter comigo e juntei-me a eles. Pus-me a ler tudo o que encontrava sobre o tema e comecei a identificar os temas mais recorrentes e a mitologia do nosso imaginário: os descobrimentos, a decadência, o sebastianismo, os estrangeirados, a renascença portuguesa com um pensamento muito provinciano, todo voltado para o passado como se mais nada tivesse acontecido no mundo.

As palavras que usa são de terra e não de mar. A ilha era um lugar de fantasia?
Quando se vive numa ilha, a ilha é tão grande como o mundo. Só nos apercebemos da pequenez dela quando saímos. Na minha segunda classe anunciaram a visita do director escolar que vinha de Ponta Delgada e eu julgava que era o Salazar do quadro na parede à minha frente.

Perguntava-se, quando era miúdo, o que é que existia para lá do fio do horizonte?
Sim. Fui sabendo da existência de um outro mundo lá fora. Mas adorava a minha ilha, que achava lindíssima, que era o melhor dos mundos.

Então sente-se basicamente açoriano?
Costumo dizer: quando fui para a Terceira percebi que era micaelense. Na Madeira, senti-me açoriano. Em Lisboa, vi que era insular. Em Espanha, reconheci-me português. Em Paris, já era ibérico. Nos EUA, europeu. Na China, achei-me decididamente ocidental. Se um dia for a Marte, hei-de sentir-me terrestre.

Com que é que se espantava mais na infância?
Tive uma infância feliz. Íamos muito ao mar e passear para montes de onde se desfrutavam belas vistas. Mas o mar era perigoso e só íamos acompanhados de adultos. O mar dos Açores não é para brincadeiras.

Teve o espanto da natureza, o impacto da natureza?
Sim. “O mundo é o meu mundo”, disse Wittgenstein. As lagoas, as montanhas deslumbrantes, os passeios e os acampamentos ficaram para sempre comigo. A antiga questão do valor intrínseco é muito séria. Um pôr-do-sol é belo porque fomos habituados a senti-lo assim, ou é mesmo belo em si? Eu, sem ninguém me ensinar, fiquei apaixonado pelo belo da natureza em meu redor. Daria panos para mangas esta questão da objectividade/subjectividade estética.
  
Nos seus diários Wittgenstein fala de como a experiência da guerra havia mudado o seu pensamento filosófico e o seu mundo. O que é que, a si, o pôs em contacto com o coração do mundo?
Foi decididamente a emigração. Só entendi Portugal na diáspora, só lá me entendi (se é que me consigo entender). Ver os emigrantes no embate diário com o universo anglo-americano permitiu-me observar os conflitos de valores, de visões do mundo em acção.
Sempre me senti atraído por uma frase que ouvi a um professor – “as couves nascem do chão”. Percebi que o empirismo, aquilo que se nos mete pelos olhos dentro, foi mais forte que todas as teorias lidas nos livros, e moldou a minha visão do mundo. Sempre que um autor, Marx ou fosse quem fosse, não estivesse de acordo com a realidade que eu observava, era a realidade que triunfava na minha compreensão das coisas.

Retomemos a ideia de cartografia, caminhos principais e secundários, bifurcações. Quais foram os momentos decisórios, os grandes passos no mapa?
Não sabemos quais são as forças que nos movem. Somos um produto de forças genéticas e culturais (aquelas que encontramos na nossa interacção com o mundo). Sinto-me produto de ambos. Reconheço em mim muito que veio dos meus pais, da minha família, da minha educação. Ainda hoje sinto inclinações que alimentam hábitos que eu já tinha em criança. Tenho muitas semelhanças, até físicas, com o meu pai. A minha mãe notava isso. Dizia-me: “És o teu pai chapado!” Na boca dela, não era um elogio.


Continua
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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