Continuação
Como é que era o seu pai?
Eu em bruto. Explico-me: o meu pai não tinha mais que a terceira classe, que era o obrigatório no seu tempo. Mas não me acho nada diferente dele, nem sequer na minha maneira de ser, após tantos anos de instrução.” A polidez que tenho é apenas intelectual, a dos livros que fui acumulando. Nada mais.
Apesar da genética, dos constrangimentos, há coisas que são do domínio da vontade e da escolha.
É a velha questão: gosto das coisas porque elas vêm de encontro às minhas inclinações naturais ou porque a vida me moldou para gostar delas assim? Acho que somos o resultado do encontro das duas forças. Costumo dizer que fui para o seminário (aos 11 anos) com a vocação do meu tio. Ele tinha-me precedido no seminário. A minha escolha decisiva foi sair (aos 22). Há uma interacção contínua entre a inclinação natural e as experiências que a vida nos vai proporcionando. Desenvolvi isto no meu livro De Marx a Darwin – a desconfiança das ideologias (Gradiva, 2009).
Alguma vez considerou seriamente ficar no seminário?
Não imagina como era viver nos Açores nos anos 50 e 60, onde imperava uma religiosidade medieval. A distância geográfica e o salazarismo ajudavam a fazer dos Açores uma autêntica bolha. O Santo Cristo era o Pai Eterno. Tudo começava e acabava na religião. Mas no seminário li Mao-Tsé-Tung, que não me impressionou, e Marx, que mexeu comigo.
Eram padres p’ra frentex para permitir essas leituras.
Muitos dos meus professores eram magníficos intelectuais e excelentes seres humanos. Ainda hoje os admiro, apesar das diferenças ideológicas.
Porque é que saiu do seminário? O amor?
Era uma questão teórica ainda, isto é, não foi por causa de uma moça em particular. Pensava: “Eu não vou aguentar, não vou ser cumpridor”. O celibato começava a não fazer sentido e tivemos sérias lutas teóricas com a hierarquia. Depois vim para Lisboa e...
... estudou em Lisboa, na Católica.
Sim. Achei Portugal um país triste. Cinzentão. Formalíssimo. Os cafés estavam cheios de fumo, pessoas acabrunhadas. Apesar do medievalismo açoriano, o nosso comportamento era “natural”, não afectado.
Os seus pais estavam emigrados?
Sim. A minha avó paterna nasceu nos Estados Unidos em 1986. Com cinco anos, os pais regressaram aos Açores e ela com eles.
Em que momento é que os seus pais vão para os Estados Unidos?
Em 1966. Em pouco tempo, uma tia que lá estava reuniu os irmãos e a família toda vinda do Canadá, Brasil e Açores. Uma história de romance. Aqui, tudo o que era interessante era vivido à porta fechada. O que se lia, os debates políticos e os cineclubes. As pessoas nunca diziam o que pensavam, usavam complexos circunlóquios. O pensar era labiríntico. Uma vez na Católica, porque era presidente da Associação Académica, tive de ir encontrar-me com o Cardeal Patriarca. O Reitor ao ver-me reagiu: “Não pode ir em mangas de camisa!”. Fui passar as férias de 70, 71 e 72 com a família nos EUA e descobri um mundo mais vasto, sobretudo a universidade americana, que frequentei como externo.
Ficou deslumbrado com a irreverência, a liberdade?
O espaço livre. As possibilidades oferecidas por riquíssimas bibliotecas. O diálogo sem hierarquias entre professores e alunos (uma ideia é válida venha de onde vier, de um Nobel ou de um caloiro). Gostei muito dessa horizontalidade. Falo com toda a gente da mesma maneira. Simplesmente mudo o nível de complexidade conforme o público e as situações. Senti-me em casa na universidade americana e ainda hoje sinto da mesma maneira. Adoro dar aulas a alunos do primeiro ano e a universidade promove a oferta de cursos para eles dados por catedráticos.
O que é que aprende em particular com os alunos do primeiro ano?
Aprendo principalmente com as perguntas que me fazem. Lêem tudo o que lhes exijo. Um livro por semana. Vêm preparadíssimos para a conversa sobre a leitura e fazem perguntas por vezes inteiramente novas para mim. Para se evoluir no pensamento, nada melhor que uma boa pergunta. Não são arrogantes, falam com grande simplicidade, abertura e boas maneiras. O sistema encoraja-os a falar.
Os alunos portugueses são, genericamente, menos livres? Têm medo de errar?
Eu diria que, no geral, sim. E, também no geral, não lêem. Porque não leram, têm receio de errar ao fazerem um comentário ou uma pergunta ignorante ou mal informada. Reconheço, porém, que em cada curso há sempre pelo menos dois ou três que poderiam estar em qualquer boa universidade americana. Mas a falta desse hábito de espírito crítico vem desde a escola primária.
CONTINUA


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