“FAROL DE NEVOEIRO”
Todos pensam fazer o seu papel, cumpri-lo da
melhor forma possível, tratar da sua vida, dos seus negócios, dos seus
interesses de forma a que, no final, as contas lhes sejam favoráveis e os sorrisos
proliferem. Mas há preocupação com os que, em rigor, viabilizam esta dinâmica?
Há uma atenção sistematizada em função dos clientes, da satisfação destes, da
qualidade do serviço prestado, do rigor, do profissionalismo e da eficácia que
estão subjacentes a qualquer atividade? Aqui é que reside a questão essencial.
Nos Açores, há ainda muito caminho para percorrer, muitas voltas a dar até
chegar a porto seguro, até conseguir reunir qualidade de atendimento,
capacidade de resposta e vantagens competitivas.
Confesso que sorrio quando percebo que, nos
dias em que Ponta Delgada, o maior porto da região, é “tocado” por navios de
cruzeiro de grande porte, significando, portanto, um acréscimo de alguns
milhares de pessoas, entre passageiros e tripulantes, a desembarcar na maior
ilha dos Açores, há um notável frenesim dos prestadores de serviços. Porque –
eles sabem-no melhor que ninguém... – essa é uma oportunidade dourada para
aumentar as receitas e melhorar os orçamentos. Os passeios turísticos, as lojas
de “souvenirs” ou até a restauração rápida dos arredores das Portas do Mar
engalanam-se, sorridentes, perante a perspetiva de negócio rápido. Mas
enganam-se, a si próprias e aos outros potenciais clientes, os que recorrem aos
seus serviços com maior frequência e regularidade, porque a sua bitola habitual
de qualidade de prestação de serviço não é, nem de perto nem de longe, aquela
que procuram mostrar aos endinheirados (mas mesmo assim não muito consumistas)
turistas que cruzam os mares.
É, no essencial, uma questão a montante do
incremento de ligações aéreas, do aumento do número de camas ou das
reivindicações junto da Câmara Municipal para que os comerciantes possam ter
estacionamento facilitado nos arruamentos colaterais ao centro urbano. É uma
questão de educação, de brio e de profissionalismo. Mas que, curiosamente, se
estende a outros ramos de negócio e a outros momentos do ano.
Dois exemplos pessoais e muito recentes: num
processo de transação automóvel, contacto efetuado, há mais de um ano, com uma das
principais empresas açorianas naquela área do comércio, que inclui compra,
venda e aluguer de veículos. Entre trocas de documentos e faltas de comunicação
(ao nível mais elevado da empresa), ao fim de doze meses ainda aguardo que o
processo se conclua, ainda espero – sentado... – que os interlocutores
empresariais me contactem para selar o acordo já conversado. Curiosamente, a
dado passo do processo, alguém segredou que “se se tratasse de uma venda pura,
tudo seria muito mais rápido”. É, no limite, uma situação que configura uma
marcante falta de respeito e de profissionalismo. O que espanta porque, como
escrevi atrás, surge de uma companhia totalmente implantada no mercado. Ou
talvez aí esteja a justificação para tão nítida ausência de “respeito”...
Mais recente é o segundo exemplo: há duas
semanas, e porque estou ligado a um projeto sul-africano de estabelecimento de
pontes comerciais com os Açores e com os seus produtos mais distintivos,
contactei uma empresa com bom “portfolio” de clientes e de trabalhos efetuados
na região, na área tecnológica e de IT. Gente jovem, aparentemente
empreendedora, com sede numa das ilhas do grupo central mas ramificação em São
Miguel, à procura, certamente, de contratos e trabalhos que a possam projetar
para fora da região e do país. Explicada sucintamente a necessidade de
colaboração, ficou prometido um telefonema para o dia seguinte. Até hoje. Nem
mais um contacto escrito, nem o prometido telefonema para perceber
enquadramentos e alcance do projeto. Jovens, de qualidade promissora, mas com
um registo de “profissionalismo” que os faria não ter lugar em mercados
efetivamente competitivos, onde a concorrência fosse forte e o grau de
exigência incomparavelmente superior...
Outros exemplos poderiam ser aqui aduzidos.
Infelizmente, proliferam na região. Uma espécie de “lazeira contagiosa” tomou
conta de muitos serviços e empresários. E também de repartições e departamentos
públicos, cuja dinâmica de resposta a simples contactos eletrónicos é nula, num
desrespeito absurdo e absoluto por quem necessita de interação ou informações.
Por tudo isso, torna-se curioso escutar as recorrentes afirmações de
responsáveis por organizações que agrupam empresários de comércio e indústria
da região sobre competitividade e qualidade dos serviços prestados na região.
Eles saberão – melhor do que eu, certamente – que o problema surge antes das
estratégias de desenvolvimento, dos programas de apoio ou dos projetos
competitivos. É uma questão de educação para o mercado, de conceito de
profissionalismo, de capacidade de entendimento das relações interpessoais no
trabalho. É, no limite, uma questão de respeito por clientes e parceiros. Ou de
absoluta falta dela.
Portanto, se precisar de respostas rápidas,
competitivas e atempadas, vai, antes disso, precisar de sorte. Ou de muita
paciência para esperar sentado.
Rui Almeida
Jornalista da Deutsche Welle
O “Farol de Nevoeiro” fecha durante duas semanas, para
“obras e festas”. Desejo-vos uma quadra de sorrisos e projetos, e um ano de
realizações e sucessos. Regresso marcado para o dia 6 de janeiro!

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