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sábado, 15 de dezembro de 2018

RUI ALMEIDA Jornalista da Deutsche Welle



“FAROL DE NEVOEIRO”

 A arte de saber esperar sentado...

Todos pensam fazer o seu papel, cumpri-lo da melhor forma possível, tratar da sua vida, dos seus negócios, dos seus interesses de forma a que, no final, as contas lhes sejam favoráveis e os sorrisos proliferem. Mas há preocupação com os que, em rigor, viabilizam esta dinâmica? Há uma atenção sistematizada em função dos clientes, da satisfação destes, da qualidade do serviço prestado, do rigor, do profissionalismo e da eficácia que estão subjacentes a qualquer atividade? Aqui é que reside a questão essencial. Nos Açores, há ainda muito caminho para percorrer, muitas voltas a dar até chegar a porto seguro, até conseguir reunir qualidade de atendimento, capacidade de resposta e vantagens competitivas.

Confesso que sorrio quando percebo que, nos dias em que Ponta Delgada, o maior porto da região, é “tocado” por navios de cruzeiro de grande porte, significando, portanto, um acréscimo de alguns milhares de pessoas, entre passageiros e tripulantes, a desembarcar na maior ilha dos Açores, há um notável frenesim dos prestadores de serviços. Porque – eles sabem-no melhor que ninguém... – essa é uma oportunidade dourada para aumentar as receitas e melhorar os orçamentos. Os passeios turísticos, as lojas de “souvenirs” ou até a restauração rápida dos arredores das Portas do Mar engalanam-se, sorridentes, perante a perspetiva de negócio rápido. Mas enganam-se, a si próprias e aos outros potenciais clientes, os que recorrem aos seus serviços com maior frequência e regularidade, porque a sua bitola habitual de qualidade de prestação de serviço não é, nem de perto nem de longe, aquela que procuram mostrar aos endinheirados (mas mesmo assim não muito consumistas) turistas que cruzam os mares.

É, no essencial, uma questão a montante do incremento de ligações aéreas, do aumento do número de camas ou das reivindicações junto da Câmara Municipal para que os comerciantes possam ter estacionamento facilitado nos arruamentos colaterais ao centro urbano. É uma questão de educação, de brio e de profissionalismo. Mas que, curiosamente, se estende a outros ramos de negócio e a outros momentos do ano.

Dois exemplos pessoais e muito recentes: num processo de transação automóvel, contacto efetuado, há mais de um ano, com uma das principais empresas açorianas naquela área do comércio, que inclui compra, venda e aluguer de veículos. Entre trocas de documentos e faltas de comunicação (ao nível mais elevado da empresa), ao fim de doze meses ainda aguardo que o processo se conclua, ainda espero – sentado... – que os interlocutores empresariais me contactem para selar o acordo já conversado. Curiosamente, a dado passo do processo, alguém segredou que “se se tratasse de uma venda pura, tudo seria muito mais rápido”. É, no limite, uma situação que configura uma marcante falta de respeito e de profissionalismo. O que espanta porque, como escrevi atrás, surge de uma companhia totalmente implantada no mercado. Ou talvez aí esteja a justificação para tão nítida ausência de “respeito”...

Mais recente é o segundo exemplo: há duas semanas, e porque estou ligado a um projeto sul-africano de estabelecimento de pontes comerciais com os Açores e com os seus produtos mais distintivos, contactei uma empresa com bom “portfolio” de clientes e de trabalhos efetuados na região, na área tecnológica e de IT. Gente jovem, aparentemente empreendedora, com sede numa das ilhas do grupo central mas ramificação em São Miguel, à procura, certamente, de contratos e trabalhos que a possam projetar para fora da região e do país. Explicada sucintamente a necessidade de colaboração, ficou prometido um telefonema para o dia seguinte. Até hoje. Nem mais um contacto escrito, nem o prometido telefonema para perceber enquadramentos e alcance do projeto. Jovens, de qualidade promissora, mas com um registo de “profissionalismo” que os faria não ter lugar em mercados efetivamente competitivos, onde a concorrência fosse forte e o grau de exigência incomparavelmente superior...

Outros exemplos poderiam ser aqui aduzidos. Infelizmente, proliferam na região. Uma espécie de “lazeira contagiosa” tomou conta de muitos serviços e empresários. E também de repartições e departamentos públicos, cuja dinâmica de resposta a simples contactos eletrónicos é nula, num desrespeito absurdo e absoluto por quem necessita de interação ou informações. Por tudo isso, torna-se curioso escutar as recorrentes afirmações de responsáveis por organizações que agrupam empresários de comércio e indústria da região sobre competitividade e qualidade dos serviços prestados na região. Eles saberão – melhor do que eu, certamente – que o problema surge antes das estratégias de desenvolvimento, dos programas de apoio ou dos projetos competitivos. É uma questão de educação para o mercado, de conceito de profissionalismo, de capacidade de entendimento das relações interpessoais no trabalho. É, no limite, uma questão de respeito por clientes e parceiros. Ou de absoluta falta dela.

Portanto, se precisar de respostas rápidas, competitivas e atempadas, vai, antes disso, precisar de sorte. Ou de muita paciência para esperar sentado.

Rui Almeida
Jornalista da Deutsche Welle

O “Farol de Nevoeiro” fecha durante duas semanas, para “obras e festas”. Desejo-vos uma quadra de sorrisos e projetos, e um ano de realizações e sucessos. Regresso marcado para o dia 6 de janeiro!

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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