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domingo, 6 de janeiro de 2019

Da Califórnia de LUCIANO CARDOSO



PALADAR SINGULAR

Desconheço quem não goste de agosto. No lugarinho donde venho, era um mês saboroso como nenhum. Adoçava-me o bico com paladares singulares. Quem conhece os meus Biscoitos de raíz, sabe aonde quero chegar. Quando por lá andava, e sempre que agora lá vou… chego-me para o mar. Nada me sabe melhor do que ir amanhecer ao calhau com o caniço na mão e a maré a encher. Dizia-me meu pai, “é quando o peixe melhor morde a isca.” Herdei dele aquele salutar bichinho da pesca de pedra que, na Ilha, mal me deixa dormir. E acordo fascinado pelo matinal murmúrio do nosso lindo mar e pela aprazível relação de amizade que nos une. Nunca nos separamos sem que ele me ofereça peixinho fresco para o almoço. 
Estava aqui, há pouco, a almoçar sardinha enlatada para matar o desconsolo e o pensamento levou-me logo à minha bela beira-mar. Não se pode comparar o peixe morto numa lata com o vivinho da nossa costa. Digeri o manjar, meio desconsolado, e tratei de compensá-lo com a fruta madura à minha frente. Do meu quintal, os damascos e os pêssegos, pareciam açúcar. E do quintal de meu irmão, as ameixas vermelhas, açúcar pareciam. Caíram-me como mel mas provocaram-me logo aquele gástrico efeito d’outrora, quando descia ao pomar da minha infância e trepava as árvores para comer até a tripinha me alertar. Nem sempre vinha a tempo o aviso. Sobretudo, se saía do pomar e me punha a vindimar da parreira para o papo. Qualquer uva bem madura ganha um poder explosivo. 
Em miúdo, recordo-me que o meu maior prazer gastronómico vinha das vinhas. Cresci com elas à minha volta. Davam uma trabalheira medonha ao longo do ano mas o trabalho específico que nos pediam na gema do verão era simplesmente de consolar a alma. Sempre adorei vindimar por minha conta, com o estômago a ajudar-me. Agosto dava-me o enorme prazer de ver a uva de cheiro ganhar cor e amadurecer de dia para dia. Cedo começava a namorar os bagos nos cachos e a vigiá-los dos melros, doidos para fazerem os seus estragos. Era só o que faltava eles comerem e eu não. Havia quem pusesse espantalhos nos seus quintais mas eu oferecia-me para espantá-los do nosso. Para meu proveito, claro, papava as uvas que me apetecia. Isto, até meu pai não se aperceber da marosca e eu não aprender, à minha custa, que a uva de cheiro bem madura tem, de facto, um poder explosivo no aparelho digestivo. 
A uva branca é mais fina. Possui um aspeto mais delicado. Era também mais rara no tempo em que me criei. Dava-se melhor perto do mar. Aí ganhava aquele seu peculiar paladar tão ao meu gosto. Regressando um dia do banho, por um atalho meio escondido, os meus olhos não viam outra coisa. As paredes eram baixas e a fome era feia. “Claro que nada há mais feio do que roubar, mesmo que seja só para comer.” Meu pai assim fora educado e assim nos habituara, em rigidez ética à moda antiga. “Deus vos livre de chegar aos meus ouvidos semelhante afronta por parte dalgum dos meus filhos.” 
Eu sempre fui um filho muito bem ensinado. Mas, ninguém é perfeito. A banhoca fora formidável e o almoço estava à espera. Subir da costa até a casa, lá na empinada Canada do Caldeiro, a pé, pela força do calor e com a barriga a bater horas, é que iam ser elas. E foram. O sol escaldava-me o casco e o suor pingava-me da testa, quando as securas me fritaram o miolo e deixei o apetite sobrepor-se ao raciocínio. O dono não estava a ver, supunha eu. Supus mal ao saltar a parede com os olhos postos no primeiro cacho à minha frente. Deitei-lhe a mão e ouvi logo um seco grito “à ladrão!” Caíram-me as uvas aos pés e as pernas, num pulo, voltaram a saltar a parede em sentido inverso. Nunca correra tão rápido até então. Ouvi gritarem-me gatuno mais uma ou duas vezes mas não dera para ver a cara do dono que ali se escondera à espreita dalgum maroto atrevidote, como eu, naquela soalheira manhã em que chegara a casa num virote. Fizera o troço em tempo recorde. Afinal, a distância não era assim tão difícil de galgar. 
“O que foi que se passou, pequeno da minh’alma? Vens todo lavado em suor.” Fiz uma careta e abreviei as palavras. “Vim a correr, mãe. Tou morto de fome.” Ela franziu-me o nariz... “A correr do mar até aqui com a barriga vazia? Tens a certeza que não vinhas a fugir dalguma coisa?” Abanei logo com a cabeça um pronto “não, senhora.” Pareceu convencida, minha mãe. Faltava convencer meu pai. Missão deveras espinhosa porque, em lugar pequeno, tudo se sabe em tempo nenhum. O tal dono não morava muito longe de nós. Por conseguinte, antes da noite me sentar à mesa para a ceia, já tinha apanhado duas paternas palmadas no rabo e o materno raspanete ainda hoje me zoa ao ouvido… “…só espero que tenhas aprendido bem a tua lição. Acusarem-nos um filho de ladrão, para qualquer mãe ou pai de respeito, não pode haver maior desgosto.” 
Agosto ensinou-me, e de que maneira, esta grande lição para a vida. Por isso, adoro o singular paladar das suas mimosas memórias. Sabem-me a uva doce.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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