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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Da Califórnia de LUCIANO CARDOSO



SORRISO TRIUNFANTE

Rotulam-no de desporto-rei. É o jogo mais popular do planeta. Nenhuma modalidade desportiva melhor cativa emoções e apaixona multidões ao redor do globo que habitamos. Apaixonei-me pelo futebol ainda miudinho descalço aos pontapés numa bexiga de porco insuflada com ar soprado pelas bochechas de meu avô. Ia fazer cinco anos quando o fabuloso Pantera Negra deixou o seu Moçambique para conquistar o nosso Portugal e seduzir o mundo da bola. É um mundo louco, sem dúvida, mas que faz muita gente feliz. 
O Eusébio foi um gerador de felicidade para a miudagem do meu tempo. Tinha magia nos pés, brio na cabeça e garra no coração. Era uma alma humilde com um talento impressionante que o ajudava a marcar golos excecionais levando o país ao delírio. “Orgulhosamente só”, por vontade de Salazar que teimou em mantê-lo subdesenvolvido na cauda da Europa, o nosso sacrificado país sofreu e muito fez sofrer as nossas isoladas Ilhas de Bruma obrigadas a pagarem bem caro o pesado preço da insularidade que tanto nos castigou nesse tempo que já lá vai. Quando Eusébio quase levou à loucura a nação no Mundial de 66, na Inglaterra, eu ainda não tinha visto uma televisão. Foi com o ouvido colado a um velho Grundig, na tenda do Ti Manel Sapateiro, que vibrei com os tais 4 mísseis enfiados à Coreia do Norte no famoso jogo dos 5-3 (depois de estarmos a perder 0-3) – uma exibição individual para nunca mais esquecer. 
Tinha dez anos quando o nosso lendário relatador, Artur Agostinho, eloquente como os melhores, transmitiu do famoso Estádio de Wembley para o mundo as lágrimas do nosso desolado ídolo após o amargo desaire ante a poderosa equipa anfitriã na tal renhida meia final de há meio século. Doeu tanto não passarmos à final, ali tão pertinho, perfeitamente ao nosso alcance. Esse honroso terceiro lugar foi a melhor classificação de sempre da nossa seleção nacional em campeonatos mundiais. Eusébio, que acabou por ser o melhor marcador do torneio, consagrou o seu nome e os valentes Magriços fizeram história ainda hoje recordada com um sorriso algo nostálgico. 
Há quem acuse Ronaldo dum sorriso meio maroto. Não nego mas vejo-o apenas triunfante. Desde que trocou Portugal por Inglaterra e Espanha, aonde tem coroado a sua carreira com superlativo sucesso, o nosso Cristiano habituou-se a andar nas bocas do mundo pelos mais variados motivos, na sua maioria elogiosos e a condizerem com o enorme motivo de orgulho que ele constitui para todos nós portugueses amantes do bom futebol. Claro que não é perfeito mas honra lhe seja dada por ter sabido subir do nada para o topo promovendo hoje Portugal como ninguém além fronteiras. Eusébio, antes de partir desta para melhor, costumava delirar com as explosivas atuações de Ronaldo e era um dos seus maiores fãs, como sabemos, multiplicados aos milhões pelos quatro cantos do mundo. O nosso mimoso menino da Madeira é já uma estrela de brilho único no firmamento futebolístico universal. Só quem é cego teima em não vê-lo super brioso e brilhante naquilo que faz. 
O que Cristiano Ronaldo tem feito ao longo da sua formidável carreira, já ultrapassou os números e méritos de Eusébio na esfera internacional. Claro que os tempos eram outros e até consta que Salazar proibiu o lendário Pantera Negra de rumar ao estrangeiro como a sua fama o pedia e o seu estatuto bem merecia. Contudo, dando o seu a seu dono, é tempo de se reconhecer o carisma fenomenal do magnífico astro madeirense. Tem categoricamente superado todas as expetativas deslumbrando até os próprios adversários que o temem mas não deixam de elogiá-lo como um fantástico fora-de-série capaz mesmo, por vezes, como tem sido o caso na Rússia, de carregar com a equipa às costas. Alguns chamam-no de bicho, monstro, terror e outro nomes esquisitos que só revelam tremendo respeito e profunda admiração. 
Aos 33 anos de idade, ainda em soberba forma física, o nosso craque continua a exceder-se permitindo a Portugal e aos portugueses sonharem alto. Para um pequenino país como o nosso, sermos campeões europeus, sem dúvida que é um feito extraordinário. Chegar à final deste Mundial seria um prémio mirabulante. Vencê-lo, será milagre? Com Ronaldo no seu melhor, nada é impossível – rezam os mais entendidos. Não sou desses mas agrada-me constatar, até agora, os deuses do futebol a acompanharem-nos com a tal estrelinha da sorte indispensável a quem aspira ir longe. Sou dos que acham termos equipa para jogarmos um pouco mais do que nos dois primeiros jogos cujos resultados foram bem melhores do que a exibições. 
O que conta, no entanto, aFinal, como o saboreámos há dois anos em Paris, é erguer o troféu no fim. Porque futebol é festa. Festejar em Moscovo, de novo, com o signo das quinas ao peito seria o máximo. Será o meu coração de 62 anos suficientemente elástico para absorver tamanho impacto? Prefiro nem pensar nisso, por enquanto. Vou disfrutar apenas o jogo que se segue e esperar que Ronaldo continue ao seu melhor nível, com aquele sorriso triunfante, a dar-nos as maiores alegrias. Bem que precisamos delas neste mundo de tantas tristezas.

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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