FIALHADAS
Hoje estou com saudades do pulmão de Angra do Heroísmo, a que chamam Monte Brasil.
Há cerca de 20 anos habituei-me a ir lá, diariamente, quer chova quer faça sol, dar uma caminhada.
Normalmente começo pelo cominho de Santo António, passando pela respectiva ermida, onde me casei algures no século passado. Na altura, do exterior da ermida não se via a baía de Angra pois as árvores tapavam tudo o que a vista pode alcançar. Se calhar por isso não via a marina!... Esta minha amnésia não me larga, pois é claro que essa apregoada marina surgiu muitos anos mais tarde. E ainda bem, porque ainda agora tenho dúvidas sobre o interesse da sua construção… A nossa baía era bonita…simplesmente.
Lá vou eu pelo caminho referido, sozinho com os pássaros, os arbustos e algumas poucas árvores que restam. Começo a a avistar o mar e ao fundo o ilhéu das cabras que antigamente foi propriedade de um familiar meu, acho que primo afastado, que vivia no Brasil e que como parte da fortuna que fez com o açougue o comprara. Anos mais tarde, segundo o que rezava a história, o dito cujo primo foi expropriado pelo Governo, não sei de se de lá ou de cá, e como compensação recebeu uma brasileira e uma ucraniana, que ao tempo viviam na ilha, em missão de caridade e apoio aos mais necessitados!... Ainda há gente boa neste mundo…
No final do Caminho de Santo António paro e vejo os golfinhos e cachalotes a saltarem muito próximo da costa. Costa, o primeiro ministro? Nada de geringonças, que nos Açores não há dessas coisas, a não ser uns truques de ilusionismo e uns pozinhos mágicos que tudo transformam para que tudo fique na mesma…
Antes que caia ao mar, volto para trás pelo mesmo caminho (não há outro) e cruzo-me com uma senhora de trela na mão e cão grande à solta que ao ver-me, diz: não tenha medo, não faz mal a ninguém, enquanto o animal (ou pessoa?) já tem as patas no meu peito?!... e esta?
Prossigo, caladinho, não vá ser alvo de algum processo de maus tratos….
Chego ao início do caminho e subo o caminho que conduz à Caldeira e Pico das Cruzinhas. Vou com cuidado pois o autocarro de turismo que aí vem é grande embora transporte meia dúzia de gatos pingados… Turismo em grande!
Mais acima cruzo-me com o trator dos serviços florestais e troco saudações com os trabalhadores do Monte Brasil. Conhecimento antigo e genuíno.
Vou ao Caminho das Belasdonas (meninos para a escola) que no seu final me permite ver a parte oeste da ilha com São Mateus em primeiro lugar e ao fundo a ilha de S. Jorge, com as casas do Topo e Santo Antão. Por detrás, e com sorte, pode avistar-se parte da ilha do Pico e respectiva montanha.
De regresso à estrada principal inicio a curta subida até à Caldeira onde antigamente se realizavam touradas à corda, muito concorridas, com farnéis logo pela manhã e as pessoas distribuídas em anfiteatro.
Resolvo voltar à direita pelo caminho de terra que há-de levar-me à vigia da baleia. Passa por mim um carro que acelera, o motorista vira a cara em sentido oposto a mim e quem o acompanha, tenta esconder-se. É o pão nosso de várias vezes, e até hoje nunca percebi o problema de eu identificar uma pessoa que se presta a dar a conhecer as nossas belezas naturais, plantas endémicas e a vigia da baleia lá no cimo de um dos picos do Monte Brasil. Será aí que eu sei que nos vamos voltar a encontrar daqui a pouco…
Meu dito meu feito. Avisto aquilo que me parece uma cagarra agarrada pelos braços?! Que devo fazer? Telefonar para o SOS CAGARRA ‘Não, que a linha é só para machos!... Então dou meia volta e deixo os amantes da natureza darem largas ao seu amor… pelo Monte Brasil?!...
Regresso, respirando o ar puro do arvoredo e vendo voar e planar um milhafre… que bonito! …. O milhafre ainda me consegue transmitir a mensagem que não quer estar em S. Miguel no próximo 6 de Junho, como lhe sugeriu um visitante micaelense, há alguns meses. Pela minha parte pode ficar descansado, pois como está escrito no Castelo de S. João Batista: “ANTES MORRER LIVRES QUE EM PAZ SUJEITOS”.
Saio do Monte Brasil com energias renovadas e com a certeza que em breve voltarei.
Até à próxima.

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