Autonomia moribunda (V)
No último escrito tentámos enunciar explicações para a Assembleia Legislativa ter chegado a um ponto de lastimável qualidade na sua composição. Uma das razões apontadas foi o funcionamento dos partidos políticos.
Como já escrevi, os melhores cidadãos das nove ilhas aderiram aos diferentes partidos então existentes, logo a partir de 1974. Alguns apesar de pensarem que ideologia seria uma doença de estômago, outros sem sequer lerem os programas das mesmas associações políticas, mas muitos por convicção, conhecimento e ideais.
As listas de candidatos a deputados reflectiram, então, essa qualidade de cidadania. Tudo era novo e atractivo, na democracia. Poderia haver até alguns que já pensassem a política como uma carreira apetecível, onde ganhariam mais e trabalhariam menos do que nos seus empregos. Mas também houve muita gente que foi para servir, perdendo até dinheiro, em relação às profissões que desempenhavam.
O PSD, então PPD, ganhou as primeiras eleições, com maioria absoluta, em 1976.
Quem conhece as ilhas dos Açores anteriormente ao 25 de Abril lembra-se certamente de como faltava quase tudo que seria essencial ao nosso desenvolvimento. Qualquer governo minimamente responsável teria feito o que fez o primeiro governo regional – iniciar a construção de infraestruturas portuárias, aeroportuárias, hospitalares, etc.
Para as gentes das ilhas, habituadas a pouco ou quase nada, o PSD surgiu como um milagre e Mota Amaral com um Messias. Não admira, portanto, que aquele partido conseguisse cinco maiorias absolutas seguidas.
O PSD teve o poder durante vinte anos e exerceu-o de modo a perpetuá-lo. Os barões dirigentes nas diversas ilhas eram os primeiros candidatos nas listas, com a certeza de eleição. Muitos deles saíam depois para o governo, por isso cuidando de que os candidatos seguintes fossem fiéis ao partido, apesar de muitos tomarem assento na Assembleia apenas para votar a favor ou contra, segundo a vontade do governo. E, assim, o parlamento foi perdendo importância, nada fiscalizando a acção do executivo como era sua competência legal e estatutária.
O PS fazia a oposição possível, tendo na sua bancada alguns deputados com competência e capacidade de oratória. Mas, com os anos a passar e o PSD a ganhar, muitos dos melhores afastaram-se e a maioria dos deputados eleitos já deixava imenso a desejar.
A esperança de conquistar o poder desvanecia-se, o desânimo lavrava nas hostes socialistas. Terreno fértil para gente medíocre e ambiciosa tomar as secções e fazer-se eleger.
Era o PSD quem atraía novos quadros, por vezes recrutando-os ainda nas instituições de ensino superior. Podia dar empregos. O que tinha o PS para dar?
A incapacidade natural de renovação e o afastamento de socialistas de mérito da política activa entregou o poder interno no PS a gente mal preparada e mais interessada no seu futuro pessoal que no êxito eleitoral do partido. Se eles fossem eleitos, pouco importava o resto… Transformaram o partido no seu quintal, no qual mandavam. Novos militantes tinham de passar pela sua peneira. Os que lhes poderiam fazer sombra ou, até, retirar-lhes o tachinho, viam as suas fichas de candidatura à militância esquecidas numa gaveta, sem seguirem para Lisboa. Os que conseguiam o cartão de militante, ou estavam com eles e eram apaparicados, ou estavam contra e eram maltratados quase até à calúnia.
Em resultado de toda esta trama, os deputados eleitos nas listas do PS foram também perdendo qualidade, ao ponto de alguns nem abrirem a boca na Assembleia ao longo da legislatura. Também na principal bancada da oposição a qualidade começava a ser rara…
Claro que nos partidos pequenos a situação era a inversa. Aí tinham de ser mesmo os melhores a tomarem assento na Assembleia. Mas eram representações parlamentares de apenas um deputado (caso do PCP, com José Decq Mota e depois Paulo Valadão), ou grupos parlamentares, mas de apenas dois deputados. A acção parlamentar desses partidos pequenos foi quase sempre meritória e de qualidade. Lembro, para além dos dois citados, Alvarino Pinheiro, em representação do CDS. Mas eram poucos. Muito poucos. A falta de qualidade grassava nas bancadas dos dois principais partidos. Com o Governo a afirmar-se cada vez mais como o único condutor da política e a Assembleia Legislativa a resumir-se a uma triste e simples existência…
António Bulcão
(publicado hoje no Diário Insular)

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