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sábado, 5 de janeiro de 2019

Do jornalista RUI ALMEIDA


“FAROL DE NEVOEIRO”

Rui Almeida
Jornalista da Deutsche Welle

O facto: Costa e a contestação em ano de eleições

Os inícios de ano sempre trazem balanços, votos e previsões. E renovadas esperanças, mas também reforçadas preocupações. Para o governo de António Costa, 2019 não vai ser apenas um ano de teste (fortíssimo teste...) eleitoral, com as Europeias em maio, as Regionais da Madeira em setembro e as Legislativas em outubro. Vai, também e sobretudo, nestes primeiros meses, ser um ano de convulsões e contestações sociais, agravadas pela vertiginosa aproximação das idas às urnas e pela conjugação de vontades dos principais sindicatos. A esquerda termina, assim, o “pacto de não agressão” representado pelo acordo entre PS, PCP, BE e “Os Verdes”. “Amigos, amigos, eleições à parte”...

Os sinais foram-se acentuando nos últimos meses de 2018: o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, a Direção Geral de Finanças e a CP juntaram-se ao coro de crispação laboral antes assumido por enfermeiros, estivadores e professores. São demasiadas classes profissionais, milhares de trabalhadores em uníssono. O executivo cedo o percebeu, mas talvez tenha, a espaços, negligenciado as ondas de choque e o seu potencial alcance no futuro curto e médio. Ainda que os conflitos se possam ir sanando ou, pelo menos, atenuando, a enorme massa produtiva envolvida nas contestações e todo o ruído entretanto produzido não será, certamente, e do ponto de vista do “marketing” eleitoral, o melhor trunfo para António Costa. Pelo contrário, os seus opositores (e aqui importa naturalmente já imcluir as forças políticas à esquerda do Partido Socialista) certamente saberão (ou, pelo menos, tentarão) capitalizar esta maré para acentuar diferenças, radicalizar oposições e marcar terreno.

2019 será, portanto, um ano cuja permanente mutação de ambiente social e laboral marcará o ritmo, entrelaçada com campanhas eleitorais cujas diferenças pouco se notarão. Nos três casos (eleições para o Parlamento Europeu, para a Assembleia Legislativa Regional da Madeira e para a Assembleia da República), os trunfos e a dramatização do discurso político serão encontrados a partir de agora, sem tréguas. Espera-se, apenas, que com urbanidade e elevação...

A figura: Bolsonaro e os sinais preocupantes

Se foi dominante a sua presença nas pautas do jornalismo internacional na segunda metade de 2018, continua marcante no início deste ano: Jair Bolsonaro, independentemente das convicções demonstradas e dos sinais transmitidos, já foi suficiente “pedrada no charco” para que a sua recorrente eleição como “figura internacional de 2018” alastre pelos primeiros meses de 2019. 

O capitão na reforma projetado a Presidente da República Federativa do Brasil surpreendeu pela dureza do seu discurso, na linha da radicalização que outros líderes latino-americanos sem utilizaram, mesmo os de quadrantes políticos radicalmente opostos (como Fidel e Raúl Castro, em Cuba, e Hugo Chavez ou Nicolas Maduro, na Venezuela). Em rigor, o populismo funciona junto do povo eleitor da mesma forma, quer se trate de um discurso progressista de esquerda, quer, como no atual caso brasileiro, estejamos perante um argumetário de rutura, conservador, aproveitando memórias (excessivamente) curtas e descontentamentos por culpa exclusiva da genericamente corrupta e, ao longo de muitos anos, impune classe política do gigante sul-americano. 

Bolsonaro fará por cumprir algumas das matrizes da sua campanha eleitoral, que o colaram às dinâmicas e aos tiques de Donald Trump. Os sinais dados com a formação de um governo de 22 ministros em que apenas surgem duas mulheres (e profundamente conservadoras...), com a nomeação de sete generais para ministérios-chave ou com o trunfo maior, constituído pelo convite a Sérgio Moro (o “super-juíz” que decretou a prisão do antigo Presidente Lula) para assumir a pasta da Justiça, são sinais evidentes e preocupantes. O sistema democrárito brasileiro não está em risco, mas o modo como o Brasil se posicionará no concerto das nações, as suas relações no âmbito do Mercosul e com a União Europeia, a posição nos BRICS e a capacidade de conjugar, por um lado, um conjunto de tendências de rutura com o passado recente e, por outro, a manutenção de um clima de paz social que é sempre determinante para o sucesso dos primeiros anos de mandato, geram naturais reservas nos observadores internacionais e dentro do próprio Brasil.

Um gigante, um “país-continente” que agora faz continência a um Presidente com tiques de autoritarismo e sectarismo que, no mínimo, desperta, para 2019, muita curiosidade e iguais preocupações. 

A frase: 

“A Igreja diz que a Terra é achatada, mas sei que ela é redonda, porque vi a sombra dela na Lua, e acredito mais numa sombra do que na Igreja.”

- Fernão de Magalhães, citado por Robert Green Ingersoll, no ano em que se completam (a 20 de agosto) 500 anos sobre o início da primeira viagem de circum-navegação à Terra, capitaneada pelo navegador de Sabrosa. 
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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