ARREPENDIMENTO
Ai, se eu pudesse, se pudesse agora
Travar esta corrida para a morte,
Apontaria, à vida, um outro norte
Que eu quisera nunca dar outrora.
Por isso, este remorso que apavora
E me consome é cada vez mais forte …
E não há nada que me trave ou corte
Esta mágoa que, em mim, há muito mora!
Poria toda a luz em meu viver…
E nunca, nunca mais queria ver
Essa ilusória imagem da ventura…
Se ela surgisse agora, em meu caminho,
Não voltaria a ter o meu carinho,
Mas, sim, o fel de toda esta amargura !
NATAL
Todos os anos escuto o mesmo :
- Natal ! Natal ! Paz, Alegria, Amor,
Presépio, Lareira, Calor!
E ali vive a fome, dura, crua, nua.
E mais além se estende o frio,
Nos escuros casebres,
Nas portas dos templos,
Na rua … na rua !
Outra vez Natal …
Mas que Natal à vista?
O mesmo de sempre.
Quem m’o nega? Quem?
Que se lance um olhar
Para além,
Para além do mar …
E digam-me onde está o Bem …
No Iraque? Em Timor?
Já satura, já cansa
Sustentar uma esperança
Duma paz mentirosa,
Suportar esta dor,
Numa guerra que se adivinha
E que se aproxima e avança!
Basta de insultos!
Na árvore esplendorosa
De brilhos e de luzes,
Há reflexos de cruzes
Que arrastam os que sofrem!
Natal? Só agora? Agora?
Hipócritas! Hipócritas!
Todos os dias acontece Natal! …
Ele veio ao Mundo e ficou …
E anda por aí maltratado,
Injuriado, abandonado,
Na imagem viva dos que sofrem!
Olha o encarcerado,
O doente, o moribundo,
O inocente roxo de frio,
A inveja, o egoísmo e o mal
E então poderás clamar bem alto:
Agora afinal é que é Natal!
Amanhã.....
Não quero mais pensar no fim da vida,
Porque ele é bem, a angústia indefinida
Que esmaga e que tortura toda a gente !

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