Continuação
Eram padres “pra frentex” para permitir essas leituras.
Muitos dos meus professores eram magníficos intelectuais e excelentes seres humanos. Ainda hoje os admiro, apesar das diferenças ideológicas.
Porque é que saiu do seminário? O amor?
Era uma questão teórica ainda, isto é, não foi por causa de uma moça em particular. Pensava: “Eu não vou aguentar, não vou ser cumpridor.” O celibato começava a não fazer sentido e tivemos sérias lutas teóricas com a hierarquia. Depois vim para Lisboa e...
... estudou em Lisboa, na Católica.
Sim. Achei Portugal um país triste. Cinzentão. Formalíssimo. Os cafés estavam cheios de fumo, pessoas acabrunhadas. Apesar do medievalismo açoriano, o nosso comportamento era “natural”, não afectado.
Os seus pais estavam emigrados?
Sim. A minha avó paterna nasceu nos Estados Unidos em 1896. Com cinco anos, os pais regressaram aos Açores e ela com eles.
Em que momento é que os seus pais vão para os Estados Unidos?
Em 1966. Em pouco tempo, uma tia que lá estava reuniu os irmãos e a família toda vinda do Canadá, Brasil e Açores. Uma história de romance. Aqui, tudo o que era interessante era vivido à porta fechada. O que se lia, os debates políticos e os cineclubes. As pessoas nunca diziam o que pensavam, usavam complexos circunlóquios. O pensar era labiríntico. Uma vez na Católica, porque era presidente da Associação Académica, tive de ir encontrar-me com o cardeal-patriarca. O reitor ao ver-me reagiu: “Não pode ir em mangas de camisa!” Fui passar as férias de 70, 71 e 72 com a família nos EUA e descobri um mundo mais vasto, sobretudo a universidade americana, que frequentei como externo.
Ficou deslumbrado com a irreverência, a liberdade?
O espaço livre. As possibilidades oferecidas por riquíssimas bibliotecas. O diálogo sem hierarquias entre professores e alunos (uma ideia é válida venha de onde vier, de um Nobel ou de um caloiro). Gostei muito dessa horizontalidade. Falo com toda a gente da mesma maneira. Simplesmente, mudo o nível de complexidade conforme o público e as situações. Senti-me em casa na universidade americana e ainda hoje sinto da mesma maneira. Adoro dar aulas a alunos do 1.º ano e a universidade promove a oferta de cursos para eles dados por catedráticos.
O que é que aprende em particular com os alunos do 1.º ano?
Aprendo principalmente com as perguntas que me fazem. Lêem tudo o que lhes exijo. Um livro por semana. Vêm preparadíssimos para a conversa sobre a leitura e fazem perguntas por vezes inteiramente novas para mim. Para se evoluir no pensamento, nada melhor que uma boa pergunta. Não são arrogantes, falam com grande simplicidade, abertura e boas maneiras. O sistema encoraja-os a falar.
Era muito bem comportado e ouvia as pessoas ao meu redor dizerem isso. Foi no seminário que desabrochei. Passei a agir como me sentia. É ainda como sou hoje. É curioso que as pessoas que só me conhecem desde a minha ida para os EUA me acham de hábitos americanos, mas quem me conhece dos meus anos juvenis repete com frequência: “Nunca melhorou. Foi sempre assim.”
Os alunos portugueses são, genericamente, menos livres? Têm medo de errar?
Eu diria que, no geral, sim. E, também no geral, não lêem. Porque não leram, têm receio de errar ao fazerem um comentário ou uma pergunta ignorante ou mal informada. Reconheço, porém, que em cada curso há sempre pelo menos dois ou três que poderiam estar em qualquer boa universidade americana. Mas a falta desse hábito de espírito crítico vem desde a escola primária.
Quando é que ousou perguntar?
Já no seminário. Tenho uma colecção enorme de sebentas. Tomava nota das histórias das aulas, das provocações aos professores. Com datas e tudo.
Porquê esse rigor memorialístico?
Não sei. Às vezes com desenhos, caricaturas. Ainda hoje faço isso.
Nunca foi acanhado?
Fui, em criança. Era muito bem comportado e ouvia as pessoas ao meu redor dizerem isso. Foi no seminário que desabrochei. Passei a agir como me sentia. É ainda como sou hoje. É curioso que as pessoas que só me conhecem desde a minha ida para os EUA me acham de hábitos americanos, mas quem me conhece dos meus anos juvenis repete com frequência: “Nunca melhorou. Foi sempre assim.”
Como é que se chama o seu irmão? Pergunto-me se terá um nome invulgar. Como o seu.
José Urbano. Tenho uma irmã Lídia, uma irmã Suzete. O meu pai era Manuel, o meu avô era Manuel. O meu pai foi buscar Onésimo porque não quis Manuel e foi pedir ao pároco da aldeia uma lista de nomes. Onésimo era o mais arrevesado. Teotónio é o nome do meu padrinho.
Ninguém esquece Onésimo.
Não é bem assim. Há muita gente que não atina com o nome e acha-o esquisito. Confundem com Nemésio, que é mais próximo do léxico português. Os americanos fixam-no mais facilmente. Uma questão de hábito, pois decoram logo os nomes das pessoas. Vi isso nos meus filhos. Chegados da escola a casa, nunca diziam “um menino”, ou “uma menina”... isto e aquilo. Era sempre “o Mike”, “a Joanne”.
Em que sentido é que se americanizou?
Na América, senti-me sempre à vontade e não me foi exigido que mudasse a minha maneira de ser. Não tive de adquirir tiques que noto em Portugal nas pessoas que ascenderam na escala político-social e que reproduzem maneirismos de autocontrolo, se calhar só visíveis para quem observa de fora. Na América, para além das regras básicas de trato, ninguém impõe formas rígidas de comportamento. Dá um grande sentido de liberdade individual que, nas universidades, resulta magnificamente, facilita um espírito de diálogo e respeito mútuo.
Em Portugal, frequentemente, a discordância é vista como um ataque pessoal.
Sim. É uma das razões porque faço questão de, em todos os debates em que me envolvo, me circunscrever às ideias. Vou reunir várias polémicas num volume intitulado Despenteando Parágrafos, onde sigo essa regra à risca.
CONTINUA

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