Aviso à navegação: Hoje é dia de futebol, portanto quem não gosta ou até detesta, pode ir pregar para outra freguesia.
Uma coisa é certa. Muda-se de mulher, partido político (conforme o encosto der mais) mas de clube não se muda.
Comecei a gostar de futebol através da radio, onde num radio Bush ouvia relatos de hoquei patins e sobretudo de futebol. Lembro-me de Artur Agostinho e Nuno Braz, do Porto, com uma frase que me ficou até hoje: "Aí vai Serafim, escorrega, cai, levanta-se e prossegue a jogada". Não posso esquecer o nosso conterrâneo e amigo Fernando Maciel, tudo gente da antiga Emissora Nacional, hoje Antena 1. O Fernando tinha a arte e engenho do segredo bem guardado de ninguém saber qual o clube da sua preferência.....Oh Fernando, já agora não me venhas dizer que "é curto e do Lobo Antunes". Tu és um homem de escrita, dita de forma impar. Gostas de andar escondido....
Mas voltando aos relatos, eu com 6 anos já relatava jogos de futebol, usando um buzio como microfone. À janela da minha casa,os golos sucediam-se.... Os vizinhos passavam e sorriam e por vezes mandavam umas bocas ou perguntavam o resultado.Gente estranha, passava, pasmava e chegou a chamar a polícia para levar o rapaz a São Rafael, pois não batia bem da tola.... Uma vez vieram em cata de mim, mas lá me safei, por ser menor e ter apanhado uma "anestesia", que era o nome dado por um vizinho meu, adulto, à palavra amnistia. Estes relatos tinham por palco a Travessa das Hortas, hoje Praça Almeida Garrett, uma espécie de Canada térrea, cuja explicação mais pormenorizada ficará para outra ocasião. Mas o gosto pelo futebol levou-me à compra de tantos radios portateis, a quem dava muito uso e má vida, que até lhes perdi a conta.... Ainda hoje,um radio com auriculares faz parte da minha vida. São manias.
Levado pelo entusiasmo do que ouvia, passei à acção, isto é,
a frequentar o Campo de Jogos da Cidade, piso terreo e duro.
Ali assisti a tantos jogos, com entradas gratuitas por ser novinho e quando mais espigadote, a precisar de bilhete e sem dinheiro, ia para o quintal da casa da Tia Maria, ao lado do campo, onde a troco de uns centavos ou de nada se via o jogo, com o inconveniente da balizada do lado do relvão se ver mal.
Muitas rivalidades, muito entusiasmo, nada de televisão, telemóvel ou outras esquisitices que tais para a época. Era ao vivo. Entre o peão e a bancada, para cada qual a sua preferência. No peão podia-se ficar mais perto dos jogadores e fiscais de linha, para mandar umas bocas.... Na bancada, vários senhores de chapéu e com bate boca pelo meio, ameaças de pancada mas no fim, tudo calmo e sereno. Ao cimo da bancada ficava a tribuna para a comunicação social e autoridades. Ao lado da bancada voltada para o relvão, havia um género de reservado de peão, onde se colocava a claque do Angrense. Era "o canto da pulga". Do outro lado da bancada, na parte superior, tinha um muro que dava para uns cerrados da tropa,com vaquinhas militares e tudo e de cujas tetas saia leite que dava de mamar a alguns..... No dito muro ficavam os seminaristas, com as suas batinas pretas (os estorninhos), uma espécie de saias. Na época havia muitos seminaristas e hoje pouquinhos e vestidos normalmente. Há quem diga que as batas do antigamente é do que eles gostam agora, mas em versão de saias e de preferência mini...Nunca compreendi o que isto quer dizer?!.... Mas não deve ser nada do que estão a pensar...
No exterior do portão principal do campo de jogos e separado pela rua, ficava o cerrado do Bailhão, onde hoje é o parque automóvel. Um cerrado como deve ser e para onde a bola do jogo às vezes ia parar, chutada por algum desajeitado, em momentos de aflição ou para ganhar tempo. É que não havia bola suplente e às vezes até chegar a dita cuja era uma eternidade.
Quando era mais pequeno comecei a ir ao futebol na carrinha do Sr João Garcia (pai do actual, com o mesmo nome), toda lavada, só que de acartar porcos e derivados estava sempre gordurosa e eu gorduroso ficava. Nada de especial para a idade. Os meus companheiros de carrinha eram os gémeos Garcia, Francisco e Alberto, há muito emigrados para o Canadá.Chegados ao campo de jogos, pela porta dos carros, lá saiamos para o ar livre.
Anos mais tarde morava no Caminho Novo de São Pedro, onde aos domingos almoçava ao meio dia, ao som das marchas militares que ecoavam do campo de jogos, anunciando os jogos da tarde. Às 13h começavam as reservas(as eternas futuras promessas) e às quinze, o jogo das primeiras (seniores). Era uma barrigada de futebol, com uns copinhos ao intervalo na taberna do João Linhares, ao pé da Recreio dos Artistas.
Falemos agora de alguns jogadores do futebol terceirense, que estão na minha memória, e que são dos mais antigos (portanto, nada de ofensas. Respeito todos. Erros ou omissões, as minhas desculpas..
Do Angrense: Maciel, Carlos Silva (trator) e irmão Tibério (chegou a jogar no Belenenses, não sei se com ou sem SAD),Canetas, Laureano, Horácio e os irmãos Anibal Borges e Vilaverde.
Do Lusitânia, os irmãos Teixeira, Manuel e José, Teófilo, Airosa, Galego, Luis Borba, Nuno Flores, Eduardo Faria, André, Jorge Jacinto, Natalino (banana), guarda-redes, que se conta que antes de um jogo com o Angrense esfregou manteiga nas mãos!....Ainda o Costa, Renato Lima, Jorge Faria e Mario Lino, que acabou no Sporting e na selecção Nacional.
Do extinto Maritimo (que tanta falta fez ao nosso futebol), O Georgino que foi parar ao Lusitania, tal como o Carlos Alberto. Alguém conhece na Ilha Terceira alguém ligado ao futebol, como jogador e treinador, com tantos anos de actividade, como o Carlos Alberto? Eu não conheço. Digam-me quem é ou vão perguntar-lhe....Um percurso que não mereceu ao longo dos anos, qualquer distinção, numa qualquer gala de desporto onde se repetem galardões a pessoas e instituições. Apenas um acto de justiça, ou se preferirem, numa cidade que tem a Memória, não tem gente com memória. E a história não se faz assim....
Não posso deixar ficar para traz o Americano, Noá e Pauleta, todos micaelenses, com rápidas passagens pelo Angrense e o José do Couto do Lusitânia, que para além do futebol será, porventura o praticante de desporto mais completo dos Açores (se S. Miguel deixar....). Era bom em tudo. Toda a gente sabe. Quase toda fica melhor....
Passando para a Praia da Vitória, temos o Praiense (quase na Liga dos Campeões, com nuestros hermanos), com os irmãos Lagoa, Valentim Eduardo e Jorge Alberto.
No União Praiense (os brancos da Praia), saliência para o madeirense Eusébio, um excelente jogador. O União acabou há muitos anos e o nosso futebol ficou a perder.
Resta-me evocar o Vilanovense e o valente Picanço.
A nível de árbitros tivémos, entre outros: Jorge Cipriano, Joaquim Simões, Albino, Lopes, José Gabriel (perna branca), Carlos Alberto Alves, José Eduardo (uma paz de alma) e Antero Arruda, muito nervoso, sempre a puxar pelos calções, e que num jogo expulsou tantos jogadores que esteve quase a ficar sózinho em campo!....
Aos 18 anos aparece-me a oportunidade de fazer a página desportiva do falecido jornal "A União", então vespertino, para substituir o Sr Henrique Bruges, que trabalhava no Banco Nacional Ultramarino, fumava charuto e era do Angrense. Recebi conselhos do Sr Henrique e lá fui eu.O Diretor do jornal era o Dr Cunha de Oliveira e mais tarde o Padre Rego.
Passado pouco tempo, o José Daniel Macide (o grande amigo, o velho Max, que saudades....)veio colaborar comigo. Ele gostava de escrever e bem. O problema é que na primeira crónica que ele fez de um jogo de futebol veio mostrar-me e perguntar a opinião. Li e fiquei sem saber quem tinha jogado e qual o resultado?!.... Tal e qual. Falava no tempo, um sol muito bonito, os passarinhos no ar, os senhores de chapéu também diziam palavrões, etc. etc. A respeito de bola, nada. Conversámos, riu-se e lá engrenou que naquele caso um bom texto sem futebol, chapéu....
Assim começou "no mundo da bola", nome que demos à página desportiva da 2ª feira. Escrevia-se a pão de milho (à mão) e fé em Deus. O Mestre ´Faria fazia milagres com as letras de chumbo, para paginar. A nossa irreverência dava saida ao jornal, modéstia à parte. De vez em quando era necessário publicar uma foto, o que se tornava numa autêntica odisseia. Primeiro, autorização do administrador do jornal, Padre Rocha(muito forreta) para que o mestre Vieira do Diario Insular fizesse a zincogravura, que permitiria a saida da foto na União e que não tinha meios para tal.
Acho que se fez muito para os escassos meios. Ainda houve entrevistas mirabolantes, mas verdadeiras, com jogadores micaelenses pelo meio, que vieram jogar um Torneio Açoriano
a Angra e meteram o Viola (jogador do Operário da Lagoa) no saco.....Ganhou o Lusitania e o Luis Borba e o Sr José Rosa, tesoureiro do Lusitania nessa altura, ficaram-se a rir. Foi uma das maiores assistências no campo de Jogos de Angra.
Entretanto fui para a tropa e a bola ficou entregue ao Macide e a quem lhe seguiu.
Mais ainda antes da tropa, trabalhava eu na Câmara Municipal de Angra do Heroismo e sou convidado pelo Engenheiro Miranda, em nome da direcção do Radio Clube de Angra, para ir fazer os relatos de futebol do Torneio Açoriano de futebol, que se disputava na semana seguinte, em S. Miguel. Eu? Oh sr engenheiro nunca fiz um relato na minha vida.Oh rapaz, tem de ser, só temos o Durvalino Sarmento e ele não pode ir. Mas porquê eu? Na última reunião de direcção do RCA disseram que eras a pessoa indicada, pois fazias muito barulho na emissora dos estudantes na Rua da Sé, durante o Carnaval. Por esta é que eu não esperava.... O Engenheiro, que também trabalhava na Câmara, adiantou logo que eu não me preocupasse com mais nada, pois já falara com o Presidente, Dr Moniz de Oliveira, e a dispensa de serviço estava dada....Comandante manda, soldado obedece. Com a irreverência da idade e alguma dose de irresponsabilidade, lá estive eu em São Miguel, a fazer 3 relatos de futebol, com a presença do Santa Clara, Fayal Sport e Lusitania. Vitória da equipa terceirense e uma experiência inesquecivel para mim. Algumas argoladas pelo meio, mas no final a aventura a cabou bem....
Para acabar a minha incursão pelo futebol, falta-me dizer que fui seleccionador da selecção de Angra de futebol, em conjunto com esse grande maluco chamado Luis Borba. Esse mesmo, que ao ser convidado pela Associação de futebol diz que só aceita se eu também fôr convidado. E assim fui eu fazer figura de corpo presente.... Actuei como psicólogo!.... Ainda hoje não percebi e o Borba farta-se de rir.
Já chega de palavras. Saudações desportivas.
Ate à próxima.

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