Do livro Arquipélago do Sentir
Tempo de ilhas;
O tempo de ilhas era palpável, solidário com a ternura, o sexto sentido dum mareante, que se soltava como fios de trama, mal entrançada, era o viver do mar que não tinha porquês, era só apenas o transpirar da vida entrando e saindo dos olhos como sorrisos...
Por vezes doíam de sorrir .. e vinham de novo todas as marés, enrolando búzios e gente num maremoto sem arco-íris.
Nascia a manhã, sem se negar, trazendo em cores lavadas, uma ilha nova a nascente da esperança, pintando o mar de verde, cor de trevo...
Tocavam sinos, entre gritos de marinheiros, desembrulhando a névoa de sonho da noite e o dia repetia-se subindo como a respiração.
Da delicadíssima iluminação das coisas esta será uma história de amor..
Trago do tempo
O pensamento da noite molhada
Que dentro dele se multipliquem asas
Em confusão ardente fecunda quente
Porque se vos falasse de terra diria
Planta pedra
Muro casa
mas porque vos falo de amor
Tudo alude sem mais nada
Estava sozinha... o Inverno reduzia o tempo aos bocados, transformando a lembrança numa polpa macia, sem divisão.
Demasiado tempo!...
A recordação agarrou-lhe os dedos e no cérebro as células começaram a abrir-se como luzes na hora de deitar.
Ali estava o entrar dentro de um coração ilhéu...
A ilha debruçou-se e suas mãos de verde e branco-negro, esguias, estranhas, possessoras, em extensão, tomaram vida, baptizando em marca de conquista o espaço intocàve1 de ser-se i1héu. Tempo que descobre em nós a face ocu1ta, engo1indo serenamente a fantasia, o espaço, a noite e o dia dos que ali se acharam nascidos.
Maria passeou o seu tempo de vésperas pela mão da saudade, libertando todo o subtil encanto que lhe deixara no peito uma quase que quarta estacão numa outra ilha e viu nela correr todos os seus sonhos por descobrir. Todo o seu ser impregnado de vozes antigas, abriu-lhe o peito em flor de gestos, hortênsia de festa.
Era o sol que nascia manhãs de paz... a chave na porta... a água fresca do tailhão... a véspera da matança... o molho de fígado na gordureira escanchada ao lado do frontal... as corridas pelo meio da rua... a música no coreto... e Chico d'Alfredo apregoava no teatro:
- “É João Machado Evangelho!
- “E pronto, veina buscá o pão ó treatro, são três pães e uma brindeira”
Atracada à ilha de Jesus Cristo, escrevo dos tempos abertos ao silêncio, das ruas planas e arejadas... duma gaiola de canário presa ao tirante da cozinha... manhãs de sol e mar transbordando poesia e desta mulher que construiu no peito a memória da alma, a sua ilha dos Bravos continuando para além de qualquer janela.
Em noites de Inverno e mar, ondas altas, revolvidas, começou e se entendeu o seu namoro com o vai e vem daquele Oceano, água de lágrimas e sorrisos ao Cais do Porto das Pipas. Via-o da janela do sótão e o seu novelo de sonhos desatado em amor, desembrulhava a fantasia.
Continua

Sem comentários:
Enviar um comentário