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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Do colaborador Dr. António Bulcão


As pulseiras de Nuno Melo Alves

Nuno Melo Alves (NMA) propõe que os funcionários públicos sejam obrigados a usar pulseiras electrónicas.
Funda tal proposta no facto “conhecido” de os funcionários públicos darem “escapadinhas” ao serviço, o que, segundo NMA, está provado quer pelas denúncias dos colegas dos próprios, quer pelas constatações dos trabalhadores do sector privado que, fazendo a sua vida normal, estão sempre a empeçar com funcionários públicos em tudo o que é sítio (fora de repartições públicas, entenda-se)…
Há que “controlar” estas situações, diz NMA. Recorrendo a smarphones, gps, smartwatches, windows 10 e laptops e outras artimanhas que Orwell só não incluiu no 1984 apenas porque não existiam no tempo em que escreveu tal romance. 
Todo este “controlo” nunomeloalvesiano não deverá ser tomado como “ofensivo” pelos funcionários públicos. Estes deverão, até, ficar felizes por serem espiados. Sim, porque na sua vida pessoal já usam aqueles geolocalizadores. Que dão indicações para chegar aos destinos de cada um; que ajudam a chegar a um café ou a um barbeiro; que permitem chamar um táxi ou um uber, etc.
Pois se até os carros já podem pedir ajuda sem intervenção humana em caso de acidente, por que diabo é que os funcionários públicos não hão-de ficar felizes por serem controlados a toda a hora e instante?
NMA não consegue distinguir o que é um acto de liberdade do que seria uma imposição estatal. Uma coisa é usar um localizador porque se quer, outra coisa é usar o mesmo porque se é obrigado. NMA compara um funcionário público a usar um gps para o ajudar a chegar à Serreta com uma pulseira electrónica para os seus superiores (e os utentes em geral) saberem sempre onde anda – até se estiver no WC, nas palavras do próprio NMA.
Termina o seu escrito a dizer que “seria um processo semelhante ao das pulseiras electrónicas para controlo de prisões domiciliárias, só que para premiar e não castigar”.
Portanto, a vingar esta tese que, confesso, nunca tinha visto em lado algum, todos os funcionários públicos deveriam usar a pulseira, que constituiria o seu “prémio”. Todos. Os cumpridores e os que dão “escapadinhas”. Felizes os cumpridores por se poder constatar a qualquer instante que cumprem. Felizes igualmente os incumpridores por confessarem a sua tendência para o escape. 
Como homem de boa vontade que sempre fui, tenho a mania de ver virtualidades em todas as propostas e até, na medida do possível, tentar humildemente aperfeiçoá-las.
Por tal, aqui deixo o meu contributo, que espero NMA não leve a mal. Não é minha intenção roubar-lhe a ideia, longe disso. Apenas, como disse, aperfeiçoá-la, imaginando que ela já está em vigor.
Pensemos numa criança a tomar um sumo num café, sendo que, na mesa ao lado, está um funcionário público a beber um pirolito (uma das escapadinhas preferidas dos magarefes). Reparando na pulseira, diz a criança: “Papá, papá, está ali um criminoso”. 
O pai, na sua função didáctica, abre-se num sorriso e esclarece: “Não é um criminoso, meu filho, trata-se apenas de um funcionário público”.
A confusão da criança é legítima, creio que até NMA entenderá que sim. Uma pulseira electrónica está associada a crimes. E os inocentes não sabem bem a diferença entre prémio e castigo, para além da palmada e do sorvete.
Não se trata, no entanto, de uma dificuldade que ponha em causa o mérito da proposta alvesiana. Poder-se-ia, por exemplo, adornar as pulseiras dos funcionários públicos, para melhor as distinguir das dos criminosos. Sei lá, umas safiras, uns brilhantes, dependendo da categoria do funcionário.
No mesmo café, o mesmo pai e a mesma criança, para não criar confusão. “Papá, papá, está ali uma criminosa”. “Meu rebento, não é uma criminosa, é um funcionário público, não te tornes chato senão nunca mais vens a lugar nenhum, já que os funcionários públicos andam a dar escapadinhas por tudo o que é lado”.
Abandonemos então, estes assomos de estilista. Contornemos a dificuldade de outra maneira. Vamos vestir os funcionários públicos todos por igual. Uma farda. Cinzenta. Todos vestidos da mesma cor e feitio, com as suas pulseiras bem à vista.
“Papá, papá, está ali um criminoso que deve ter fugido da prisão”. “Arre que o puto é chato. Já não te disse que se trata de um funcionário público? Toca pra casa já, direitinho à minha frente”.
Já em desespero, metamos, então, uma estrela de David na manga da farda do servidor do Estado. Juntamente com a pulseira, como é evidente. Assim trajado e marcado, acho que até a tal criança entenderia tratar-se de quem era. Sobretudo se lhe ensinassem no jardim-de-infância o modo de identificar um funcionário público. 
Já com a medida implantada, porque não tentar ir mais longe? Não é apenas a tecnologia que permite localizar que evolui. Também a genética tem dado grandes passos. Chegaremos ao dia em que seja possível saber se um nascituro gostaria de servir o Estado e trancar no feto a pulseirinha, ainda no ventre da mãe? Tá bem que dali não pode fugir, mas nunca fiando.
Ou, ainda mais ousado, localizar os espermatozoides que sonham vir a encontrar um óvulo todo virado para a função pública? Também eles (e apenas esses) pulseirados? Claro que, e não é preciso dizer, os espermatozoides que preferem o privado estão livres deste ónus…
Nuno Melo Alves é um homem inteligente. Não está a brincar. Além disso, é figura grada de um partido de direita, o CDS-PP. Juntando as duas qualidades é fácil concluir: não tendo a menor dúvida de que, se algum dia conseguisse ser Governo, aquele partido implementaria a medida proposta por NMA, NMA quer ser poder mas sem os votos dos funcionários públicos.
Nessa medida, o seu escrito conseguiu cumprir. Não encontrei ainda um único funcionário público que não se sinta indignado. 
António Bulcão
(publicado hoje no Diário Insular)
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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