Craque para uma década
Sempre teve qualidades imensas e de algumas das quais nem ele próprio terá toda a consciência. Sendo um médio de predominância defensiva (equilibrado, disciplinado, defensor do espaço, que zela pela ordem e se expressou eternamente acima da idade), o que torna Rúben Neves precioso e, como veremos em breve, apetecido pelos tubarões europeus, é o potencial para ser muito mais do que simples porteiro de discoteca – há momentos em que, por passes, assistências e até golos (impressionante nos esquemas táticos), não destoa entre os artistas que abrilhantam as noites na pista de dança. RN vê mais longe, conecta com companheiros mais distantes, abrevia etapas na construção do jogo ofensivo e tem, ele próprio, soluções contundentes nas imediações do golo. É muito mais do que um 6, tem tudo para ser um enorme 8 e, no limite, pode até ser um 10.
RN é uma espécie raríssima na história do futebol, porque poucos foram capazes de, sujeitando-se ao papel de zelosos bombeiros, lhe juntarem o impulso criativo para dar abrangência à ação; é notável que um jogador importante num determinado espaço e função ilumine o acesso ao outro lado do terreno com visão escandalosas, técnica sublime para lhe dar seguimento e ampla preponderância no funcionamento da equipa, sentida em qualquer circunstância. RN analisa o jogo com a bola nos pés, de frente para a baliza, sabendo que para atacar bem se deve jogar em toda a largura do terreno. Difícil terá sido o início, porque nenhum adolescente consegue dominar esse saber enciclopédico. Durante meses, quando tudo começou, não custa adivinhar a cena: os treinadores a reclamarem concentração para não cometer erros e correr riscos, ele com espírito de aventura, disposto a dar largas ao ímpeto juvenil de se expressar com bola e ser importante segundo os seus parâmetros de avaliação. Desde o primeiro minuto só havia um modo de resolver o problema: tinha de jogar, jogar muito.
Foi intrigante quando Nuno Espírito Santo, que pouco o utilizou ao serviço do FC Porto, o levou para a Premiership, apesar de todos terem ficado a ganhar: os dois clubes, RN e o treinador que, conhecendo o potencial do jogador, soube desde logo os benefícios de o ter sob o seu comando. Como se disse na altura, às vezes na vida é preciso dar um passo atrás (no caso sair do clube do coração, um grande da Europa) para depois dar dois em frente (ao serviço do modesto Wolverhampton, entretanto regressado ao escalão superior do futebol inglês). RN não deu dois passos em frente, deu dez. Contas por alto, depois de o ver pela Seleção frente a Croácia e Itália, está feito um jogador com dimensão surpreendente; impreciso em alguns momentos mas com autoridade incrível. O craque está a construir-se e o tempo corre a favor dele. Temos jogador para a próxima década.
Por estranho que pareça, para quem se tornou adulto e responsável tão cedo tem ainda de graduar-se como homem. É fatal. Mesmo estando muito à frente na maturidade para os 21 anos, só num futuro próximo será exigível que atinja a plenitude no entendimento do potencial que possui, até onde pode chegar e de como deve manejar todas as ferramentas para se acomodar no destino final. Se para muitos médios-centro o limite é a perfeição com que executam uma tarefa estrita, RN tem toda uma carreira para se fortalecer e completar um gigantesco puzzle, porque quando dominar todos os elementos de uma parte do seu jogo, logo lhe faltarão outras para completar o todo. Se não der por concluída prematuramente a assimilação de competências e mantiver a ambição de aprender, traduzida na aceitação das sugestões dos treinadores, será um jogador esplendoroso. Portugal terá descoberto um titular da Seleção Nacional e o futebol europeu um novo ídolo e fruto apetecível. Não faltará muito para que chegue esse momento.
A autoridade de um menino
Quando menos se espera, aparece um grande jogador – num ápice o Benfica lançou um miúdo que conhece todas as regras do futebol, gerindo-as com a mestria de um veterano. Surpreendente não é ter boa relação com a bola; o que causa espanto é a autoridade com que se movimenta no jogo e obriga os outros (companheiros e adversários) a tê-lo em conta. Saiba ele gerir a carreira com a mesma mestria.
Primeiros passos de Jovane Cabral
Jovane foi apresentado como exemplo da formação sportinguista, por talento e por atitude, embora neste caso tenha sido apenas utilizado como antítese de Matheus. O jovem teve arranque sensacional na primeira equipa leonina, com interferência positiva em quase todos os jogos nos quais participou. Este sopro de loucura e paixão, quando acompanhado de bom senso, é sempre bem-vindo ao futebol.
Os golos são destino de CR7
CR7, ele próprio, estava a ficar ansioso, não por pensar que a torneira se fechara para sempre, mas por temer que a demora influenciasse o bem-estar. Noutros tempos o jejum teria servido para alimentar dúvidas e realçar deficiências; agora, com a vossa licença, é um não assunto: Cristiano esteve três jogos em branco, marcou 2 golos à quarta tentativa e, no final da época, cá estaremos para fazer as contas.
Artigo de junho de 2013
1. A qualidade no futebol leva implícito o resultado - ninguém é bom se perder sistematicamente. Mas ganhar pode não ser tudo quando os clubes se atrasam em relação às metas que se propõem alcançar. Nas últimas duas décadas o Benfica viveu enredado numa teia gigantesca, desenhada por desvios ideológicos ao rumo de toda a vida; à perda de influência nas altas instâncias e à falta de coerência técnica traduzida no modo como foi transformando cada época numa etapa avulsa, descontextualizada de qualquer estratégia - e só não se desagregou por completo porque, apesar de tudo, manteve o apoio popular que reitera o estatuto de maior clube português.
2. Os adeptos têm reações instantâneas, muitas vezes despojadas de reflexão; as emoções à flor da pele não lhes permitem analisar a realidade com lucidez, pelo que são apenas o reflexo de um estímulo negativo que conduz à revolta. Contra ventos e marés, Luís Filipe Vieira resistiu aos protestos exteriores e manteve Jorge Jesus no cargo - incrível como, depois de perder campeonato e Liga Europa, só a derrota na final da Taça de Portugal conduziu o povo ao desvario. LFV preferiu não responder com o mesmo sentido de imediato, ganhou tempo e agiu de acordo com as convicções: sofreu com as derrotas, refletiu sobre as suas consequências e decidiu de acordo com o seu balanço dos últimos quatro anos.
3. Em 2009, quando entrou na Luz, JJ assumiu a herança de um clube que perdeu o hábito de vencer e deixou de olhar para o futuro com a coerência necessária encontrou uma equipa desamparada, sem elos de ligação ao passado e confundida pela urgência de voltar às vitórias, apesar dos erros de diagnóstico, gestão e organização. O mérito foi respeitar o legado histórico da comunidade e formar equipas deslumbrantes, com pendor ofensivo e estética apurada; recuperar um estilo, consolidá-lo e construir exército temível que mereceu respeito e admiração das plateias. Em pleno ciclo hegemónico do FC Porto, JJ criou riqueza e diminuiu a desvantagem para a força dominante.
4. O exercício mais honesto para medir a importância de JJ é a comparação. Se tivermos como referência os anos 60 e 70, símbolos de uma potência que vencia três em cada quatro campeonatos, ou mesmo o período entre o início dos 80 e meados da década seguinte (seis títulos em doze), ganhar uma em quatro ligas não chega - é um desastre. Mas se considerarmos o período entre 1994 e 2013, em que o Benfica foi campeão apenas por duas vezes, a conversa muda de figura. O voto de confiança em JJ pressupõe a convicção do regresso às vitórias sustentado num projeto sólido e não como resultado de aposta no euromilhões; tem como objetivo razoável beliscar a hegemonia portista e não depender de milagres como o de Trapattoni, cujo título caiu do céu aos trambolhões.»

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