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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Do jornalista e redator principal do jornal Record Rui Dias


O polivalente que se tornou especialista
George Bernard Shaw (1856-1950), dramaturgo, escritor e jornalista irlandês, Nobel da literatura em 1925, não pensou em futebol quando afirmou que "o especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos e, por fim, acaba sabendo tudo sobre nada". O tempo tem acentuado, no último século, a tendência universalista da sociedade, mas há casos particulares que privilegiam o conhecimento profundo das especificidades de certas funções. André Almeida começou por dar resposta à teoria de Shaw (cumprindo o ideal de saber alguma coisa sobre tudo) mas foi impelido a consolidar competências que, mais estritas no âmbito global do futebolista que desejou ser (médio-centro), lhe são mais favoráveis para a missão que lhe pediram para cumprir (defesa-direito). Teve então de se construir na conjugação entre as obrigações rígidas atrás (responsável, sóbrio, difícil de ultrapassar, com bom sentido posicional e tempo de entrada aos lances) e a integração nas ações à frente (boa articulação motora, talento para tomar as melhores decisões, técnica para executar no último terço e capacidade para articular jogo pelo caminho).

AA adaptou à função de lateral-direito as valências técnicas, o entendimento tático e o desenvolvimento físico de toda a vida; concentrou num objetivo claro a versatilidade exibida desde miúdo, enriquecendo assim o jogador de enorme fiabilidade em que se tornou. Formado segundo parâmetros de avaliação generalistas, não adquiriu logo a totalidade dos argumentos necessários a tarefa tão específica. Está agora a harmonizar características e qualidades avulsas, de tal forma que é hoje um defesa-direito consolidado, completo e credível, com soluções ricas na ação criativa e cada vez mais preciso nos movimentos sem bola. AA é o polivalente que as circunstâncias obrigaram a reciclar como especialista; um jogador com amplo entendimento do futebol e desejo de participação no jogo, que adaptou o conceito, a visão e a interferência no funcionamento da equipa, a uma intervenção menos influente mas nem por isso menos exigente.

Aos 27 anos, está a completar o puzzle como referência do clube e até do futebol português; está a dimensionar-se como elemento de topo na equipa de craques mundiais que tem sido o Benfica na última década, fazendo-o à custa de um caminho que ele próprio trilhou, quase sempre colocado perante obstáculos gigantescos – todos ultrapassados, diga-se de passagem. É, por isso, protagonista de uma história de vida na qual brilha a força de perseverança, ambição, coragem, inteligência e de um talento futebolístico menos visível e reconhecido, para o qual contribuem fatores humanos relacionados com temperamento, trabalho, dedicação, estudo, ensino e aprendizagem. AA manteve sempre à distância o sedutor de idiotas que é o êxito e recusou o vedetismo sem sentido, talvez por reconhecê-lo como um dos principais produtores de imbecis. 

Já na presente época, AA foi confrontado com vários desafios de coeficiente máximo de dificuldade, o maior dos quais ocupar o lugar deixado vago por Nélson Semedo. Começou por eliminar a concorrência de Douglas, que chegou à Luz com o prestígio acrescido pela ligação ao Barcelona e o passado de sucesso no São Paulo, e prosseguiu dissipando gradualmente as debilidades apontadas ao seu futebol. É impressionante como, tendo sido tão desconsiderado em certas fases da carreira, está a atingir nível tão alto e influência tão grande no tetracampeão nacional. De tal forma que viu o Benfica recusar propostas milionárias (do Leicester, por exemplo) com argumento que tem tanto de lógico como de surpreendente: é imprescindível no ataque ao penta. É mesmo. Num Mundo materialista e pouco dado a sentimentalismos, AA ouviu o que queria, mesmo em prejuízo da tantas vezes sagrada conta bancária. Prova de que, também por isso, é um homem especial. 


O altruísmo de Cristiano

Há quem não passe a bola à mãe se tiver 5% de possibilidades de fazer golo

Cristiano decidiu contra a lógica da carreira: pensou mais no coletivo do que nele próprio, abdicando de um golo quase certo para oferecê-lo a Benzema. O egoísmo, antes de ser um defeito futebolístico, é a linha de raciocínio habitual e eficaz de quem alimenta carreiras feitas de números – e é obscena a estatística de CR7. Ronaldo foi muito elogiado. Tudo bem. Desde que não repita a graça muitas vezes...


Marega a fazer época fabulosa

Partiu com atraso para a época mas está a recuperar todo o tempo que perdeu

Marega iniciou a época sob a suspeita (havia quem tivesse a certeza) de não ser suficientemente bom para jogar no FC Porto. Os mais céticos ainda não estão convencidos, mesmo com os 20 golos na Liga, talvez envergonhados por engano tão escandaloso. Em Portimão, o maliano deixou tudo no lugar: jogou, marcou e assistiu; foi decisivo em espaços curtos e fulgurante em mar aberto. Está a fazer época fabulosa.

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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