JORNALISMO EM DESTAQUE

485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Do jornalista Rui Almeida


“FAROL DE NEVOEIRO” – 10 fevereiro

O fado da indignidade e da lentidão



O facto: as fronteiras da indignidade

Ponto prévio: a greve é um inalienável e constitucionalmente reconhecido direito de todos os trabalhadores. É uma ferramenta negocial como qualquer outra, a utilizar em situações limite, de impasse ou que, estrategicamente, requeiram alguma pressão suplementar sobre os decisores. 

Quando um sindicato ou outra organização de trabalhadores decide optar pelo recurso à greve, supõe-se exatamente isso: que as restantes vias ou pistas de negociação estão esgotadas ou, pelo menos naquele momento, sem viabilidade prática. Aqui chegados, importa do mesmo modo reconhecer que este instrumento só se torna verdadeiramente justo e eficaz quando se cumprem duas condições cumulativas: que o trabalhador em greve sofra o correspondente prejuízo sob a forma de ajustamentos por defeito na sua folha salarial do mês a que a paralisação se refere, mas que, por outro lado, o objeto do seu trabalho também sinta as consequências. Só assim a greve tem efeito claro e ganha peso na mesa de negociações.

Isto é, se os enfermeiros pretendem lutar pelo que julgam ser os seus direitos, quer nas componentes remuneratórias, quer no que concerne à garantia de reescalonamento e evolução continuada das respetivas carreiras, estão no seu pleno direito, defendido pela Magna Carta da nação. Que o façam com recurso a “crowdfunding” para mitigar o “peso” na bolsa de cada um de semanas sucessivas de paragem laboral, é indigno e incorreto. 

Por outro lado, que o façam até ao limite do razoável nas consequências sentidas pelos utentes dos estabelecimentos de saúde, faz parte do “jogo” democrático e dos seus direitos consignados. Mas que ultrapassem sucessivamente essa barreira, colocando em risco, pela própria natureza e imprescindibilidade das suas funções, a saúde, a recuperação ou a intervenção urgente de quem necessita de cuidados, é abjeto e injustificável. 

Todos sabemos que qualquer classe profissional, quando pretende avançar para este tipo de formas de luta, procura a simpatia da opinião pública para as suas causas e para o que julga ser a sua razão, em cada momento do processo. O que sucede, no conflito que opõe enfermeiros e tutela, é exatamente o contrário: por grande inabilidade (e, convenhamos, alguma inexperiência…) da Ordem dos Enfermeiros – designadamente da sua jovem Bastonária – a opinião pública tem hoje uma ideia cada vez menos favorável, mais crítica e menos condescendente com os motivos (porventura totalmente justos, sublinhe-se) que levam a classe a manter uma greve desajustada no tempo e no espaço e, sobretudo, a penalizar fortemente os utentes urgentes. 

Moral da história: eis como uma luta que poderia, até, colher alguma simpatia pelos desajustamentos estruturais verificados na carreira, por injustiças acumuladas ao longo dos tempos, pelo não reconhecimento e valorização da importância determinante da função no processo e no sistema de cuidados de saúde, se vira totalmente contra a classe profissional em causa, ultrapassando todas as fronteiras do admissível (mesmo ou, essencialmente, em quadro de luta laboral), e roçando o ignóbil. Que, aliás, será de imediato atingido se se confirmar a perspetiva de “falta ao trabalho” já, em surdina, aventada por franjas da classe, se confrontada com a óbvia requisição civil ordenada pelo governo.

Como em todos os conflitos laborais (mais mais ainda neste, pela particular sensibilidade do setor em causa e das suas consequências), importa manter o bom senso e o equilíbrio. Algo que a jovem Bastonária, talvez encadeada pelos holofotes de um inusitado mas efémero “mediatismo”, parece ter perdido. Em definitivo?...


A figura: Carlos do Carmo para lá dos tempos

Esteve há bem pouco tempo no Coliseu Micaelense, talvez no seu último espetáculo na Região Autónoma dos Açores. Carlos do Carmo não é apenas a maior voz masculina do fado de todos os tempos. É uma referência de dignidade, de valores, de respeito. Dignidade pelo modo como sempre orientou a sua carreira sem ferir companheiros de caminhada, sem rivalidades obscenas, sem necessitar de ultrapassar sinuosamente parceiros de um mesmo negócio.

Valores porque, ao longo dos anos, sempre manteve as suas posições. Um homem de esquerda, aziago não apenas ao antigo regime mas até, bem recentemente, a um Presidente da República (Aníbal Cavaco Silva) que, abstendo-se da equidistância das suas funções, nem o parabenizou pelo Grammy Latino conquistado como prémio de carreira (o primeiro de sempre para um artista português). Um homem de palavra, independentemente das opções que, coerentemente, sempre tomou durante a sua vida pessoal e profissional. 

Respeito pela forma como encara o público, alvo primeiro do seu trabalho de mais de seis décadas. É extraordinária a forma como Carlos do Carmo sempre soube orientar a sua carreira, criando músicas, letras e canções que passaram por gerações e continuarão muito depois da sua (anunciada) reforma, no final deste ano. É a figura desta semana, numa galeria que, infelizmente, tantas vezes se esquece dos seus agentes de cultura, daqueles que, verdadeiramente, ultrapassam os tempos porque são de todos os tempos.

A frase:

“Peço desculpa por dizer isto, mas em Portugal é tudo muito lento, muito lento”
Robert Yildirim é o líder do grupo turco que lidera a atividade portuária em Portugal. Quer investir 450 milhões de euros no país, nos portos de Leixões e de Lisboa. Diz que, por cá, todos sorriem, mas poucos avançam. Queixa-se da demora na obtenção das autorizações necessárias para as obras programadas. Quer colocar Leixões a competir com Barcelona. Mas é tudo lento, muito lento. 
Até que, acrescento eu, um dia se aborreça e invista o seu dinheiro noutras paragens…

Rui Almeida
Jornalista da Deutsche Welle
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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