“FAROL DE NEVOEIRO” – 17 março
Açores e Europeias: a vitória antecipada do PS
Rui Rio e Alexandre Gaudêncio prestaram o melhor serviço possível aos socialistas
A elevadíssima taxa de abstenção habitualmente verificada nos Açores nos atos eleitorais para o Parlamento Europeu (oitenta por cento, a mais elevada do território nacional…) não autoriza conclusões precipitadas. Não legitima, por exemplo, que daí se infira menor preocupação ou envolvimento com os assuntos europeus, ou menos interação entre os eleitos e as populações que representam. O fenómeno é mais abrangente, tem réplicas noutras regiões da Europa (e nem são ultraperiféricas), e radica, provavelmente, num global alheamento e nalguma curiosa (porque desfasada dos tempos tecnológicos que vivemos) desinformação em relação à determinante influência das instâncias europeias, dos seus mecanismos e ferramentas, na nossa vida quotidiana. Muito mais em áreas particularmente sensíveis, como os Açores.
Por isso, partamos do princípio da inegável importância e significado que as eleições do próximo dia 26 de maio têm para a região, que, tradicionalmente, numa espécie de “acordo tácito” entre responsáveis regionais e nacionais dos principais partidos políticos, garante representantes nas respetivas listas, em lugares elegíveis, de acordo com as naturais exigências específicas destas nove ilhas a meio do Atlântico, os seus anseios e os setores de maior penetração técnica no quadro da União Europeia.
Dito isto, já aqui deixei claro, há algumas semanas, que a opção tomada pelo novo líder do PSD Açores com a indicação de João Bosco Mota Amaral como nome elegível para o próximo quinquénio me parecia desajustada em relação ao perfil ideal de candidato para um cargo exigente política, mas sobretudo técnica e fisicamente. As “reformas douradas” não têm – não devem ter, em tese – lugar nas cadeiras do hemiciclo de Estrasburgo. E Mota Amaral teria muito mais a ganhar com uma “magistratura de influência” regional (e até nacional), mas com algum refúgio do natural desgaste provocado pela potencial eleição. Pior, bem pior do que isso, para os social-democratas açorianos, é a desconsideração absoluta de que foram alvo pelo líder nacional do partido.
Rui Rio demonstrou várias coisas numa só atitude. Mas a mais importante é o completo desrespeito pelas autonomias regionais. Mesmo incluindo uma candidata indicada pelo PSD Madeira em lugar elegível, voltou a perder uma excelente ocasião para estar calado quando sublinhou que, por isso mesmo, as regiões autónomas estavam por ela representadas, chegando mesmo a sugerir que a futura deputada ao Parlamento Europeu incluísse, no seu “staff” de apoio, alguém oriundo dos Açores, como compensação para a falta de um candidato natural da região. Um absurdo sobre outro absurdo. Um monumental tiro no pé vindo da Lapa, que Alexandre Gaudêncio, em boa verdade, já previra: é que a indicação de Mota Amaral teria também como fito pressionar a direção nacional do partido com um nome de peso, justamente para tentar diminuir as possibilidades que, no fundo, se vieram a confirmar por inteiro.
Principal derrotado em toda a história: o arquipélago dos Açores. Os seus cidadãos, as suas necessidades, a capacidade de pressão e influência junto das instâncias europeias. Depois, Alexandre Gaudêncio e a “entourage” do PSD no arquipélago. Para mais, a um ano e meio de eleições regionais, nas quais a nova liderança regional “laranja” colocava todas as fichas. É um “harakiri” antecipado, que nenhum carisma, nenhum golpe de asa ou nenhum sorriso de circunstância vai conseguir inverter. E também Rui Rio. Mas do atual líder do PSD, que até tem, um ano antes de Gaudêncio, o seu principal teste (em outubro, com as legislativas), não vai, certamente, rezar a história.
Curiosamente, depois de duas eurodeputadas com trabalho meritório, profundo, interessado e determinado (como Maria do Céu Patrão Lopes e Sofia Heleno Ribeiro), o PSD dá o maior tiro no pé possível junto da sua já insegura imagem pública na região. E contribui decisivamente para um de dois fatores: a manutenção da tal taxa quase inacreditável de abstenção nas nove ilhas, quando se trata de eleições para o Parlamento Europeu, e a vitória inapelável do PS na região, no próximo dia 26 de maio. Compreender as particularidades e a idiossincrasia de cada população, de cada recanto nacional, é tarefa que Rui Rio não fez e, provavelmente, no tempo útil que lhe restará como Presidente do PSD, não vai fazer, por inabilidade ou mesmo por ignorância.
Sobra André Bradford. O candidato socialista não precisava de benesses deste tipo para, desde logo e à partida, oferecer uma plataforma de muito maior confiança e expetativa positiva quanto ao seu eventual desempenho em Bruxelas e Estrasburgo. Poderia estar de cadeirão a esfregar as mãos. Tanto quanto o conheço, não o irá fazer. Irá para o terreno, ainda com mais empenho e determinação. Afinal, passará ele a ser a voz única dos Açores no Parlamento Europeu. E o PS ganhou, sem que tivesse de se mexer, o principal “élan” para uma claríssima vitória eleitoral em maio deste ano e, quem sabe, um aditivo muito significativo para que a vitória se repita nas Regionais, em outubro do próximo ano.
Rui Almeida
Jornalista da Deutsche Welle

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