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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

domingo, 17 de março de 2019

Do professor, pesquisador, historiador, jornalista Vitor Rui Dores


Marta de Jesus (a verdadeira), de Álamo Oliveira

Falar de Álamo Oliveira é falar da força telúrica de uma escrita que, ainda e sempre, parte ao encontro das raízes e fica entre a ilha e a viagem.

Acabo de ler o seu último livro, Marta de Jesus, a verdadeira (Letras Lavadas edições, 2014), com 190 páginas atravessadas por um sopro bíblico. Esta é, sem sombra de dúvida, uma obra audaz, original e sem equivalente no panorama da ficção portuguesa contemporânea, pois que reconstitui, reinventa e subverte algumas passagens do Novo Testamento – mero pretexto para um sério ajuste de contas do autor com o nosso passado histórico, o nosso presente incerto e o nosso futuro de bruma... Essencialmente aqui se narram as vivências, os ritos e os rituais de um povo que, nas açorianas ilhas, existe e resiste há mais de cinco séculos. 

Mas atenção: se a escrita de Álamo por vezes se ancora no texto bíblico, nunca o faz para o parafrasear, mas para sobre ele produzir um discurso eminentemente irónico e ideológico. De resto, existe uma evidente tensão interior entre literatura e religiosidade, através das quais se inflama o imaginário deste autor que da Terceira escreve para o Mundo.

Tal como no seu anterior livro, Murmúrios com Vinho de Mesa (2013), também nesta obra a inventiva criadora alamiana dificilmente se ajusta a definições, códigos e conceitos da tradição literária bem pensante. Escritor em trânsito pelas diferentes áreas da criação literária, Álamo é a poética da sua prosa pejada de imagens e magias, numa procura constante do dizer renovado. Digo, o poder de encantar e comover os sentidos: uma engenhosa arte literária, uma escrita enérgica e requintada (“O sol não apareceu na linha do horizonte, mantendo a ilha coberta por um manto de nevoeiro da cor do luto. O mar saiu das marés de janeiro, para se suicidar em marés de raiva contra as pedras da rocha. Lá de cima da montanha, os bordões de pedra caíram, estilhaçando-se como mortos em combate”. pág. 188), um estilo dúctil eivado de fina ironia:
“Marta de Jesus, por sua vez, tinha sessenta e cinco anos, um metro e sessenta de altura e cinquenta e nove quilos de peso, solteira e virgem, que uma desgraça nunca vem só”. (pág. 11) 

As personagens funcionam como uma espécie de intérpretes de figuras bíblicas, com um destino por cumprir e uma missão a desempenhar, num contraponto de registos muito estimulante. Duas personagens captam, desde logo, a nossa atenção: Lázaro (“amparo e tutor das suas irmãs orfãs”, Marta e Maria) e João Baptista. Este último refugia-se no (edénico) Poço da Alagoinha e, olhando as suas águas, faz estranhíssimas previsões… 

Romance sobre a mundividência açoriana e sua carga simbólica, Marta de Jesus, a verdadeira revisita um espaço e um tempo que nos remetem para a ilha das Flores. Todos os capítulos do livro começam por “Naquele tempo…” – referente a um tempo português em que se vivia entre parêntesis e a preto e branco, uma época fascizante marcada pela repressão, opressão e intolerância do Estado Novo e caracterizada por um profundo mal-estar social. 

Lê-se, com ávido prazer, as peripécias, os incidentes e as atribulações de um grupo de florentinos que, nos anos 60 do século XX, recebe como mentor um outro florentino rebelde e anti-regime exilado, de nome Pedro, que acaba por convencer Emanuel Salvador, filho unigénito de Maria Nazaré e lavrador de ofício, a espalhar a palavra redentora de um “programa ideológico” entre os seus conterrâneos. É formado um grupo de 12 seguidores, cada um com um nome de apóstolo de Cristo, decididos a embarcar para Lisboa e aí de novo espalhar a “doutrina” até à libertação final. Ao grupo juntam-se quatro mulheres: Maria Nazaré, Marta e sua irmã Maria e ainda Maria Madalena. Embarcam todos no “Lima”, mas não chegam ao seu destino, já que recebem ordem de prisão na ilha do Faial…

Obviamente que não contarei o que se segue… O que interessa reter é que, neste entrelaçar do texto bíblico na ficção narrativa, e vice-versa, estamos perante personagens de grande espessura humana e fundura psicológica, muito solidárias e emotivas que, por detrás de uma aparente normalidade e conformidade, vivem em zonas de sombra e de conflito. Sendo entidades fictícias, são também elas revelações da idiossincrasia da comunidade açoriana, isto é, refletem, em maior ou menor grau, os condicionalismos geográficos, socioeconómicos e culturais dos Açores.

Como um Jano de duas faces, Álamo de Oliveira mergulha fundo no imaginário açoriano, para logo regressar à superfície, de olhar apontado à ficção moderna sem ceder às lusas modas literárias do indizível e do desconstrutivismo… Estamos perante um livro com grande poder evocativo e boa capacidade expressiva. Saudemos este escritor que, com domínio técnico e uma carpintaria hábil (de realçar a riqueza dos diálogos e a recorrência à fraseologia popular), faz uma sábia dosagem do real e do fantástico, do humor e da emoção, do popular e do erudito. E, ao fazê-lo, engrandece e dá luzimento à literatura portuguesa. 

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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