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quinta-feira, 30 de maio de 2019

Do jornalista Souto Gonçalves - 7 – Dei comigo a pensar…


7 – Dei comigo a pensar…
… em meu padrinho António

Meu irmão nasceu 20 meses depois de mim. Ainda antes de irmos para a escola frequentámos a «explicação» da D. Balbina, uma senhora idosa que morava por cima da Pastelaria Ideal quando essa casa ainda era pintada de azul e se destacava das demais, sobretudo quem a via pelas traseiras, na avenida.

Duas sobrinhas auxiliavam-na nas «explicações» e eu e meu irmão tivemos a sorte de aprender com a «menina Rafaela», com quem tivemos uma ligação muito cordial, ao ponto de ela ir às nossas festas de aniversário.

Eu era um «coca-bichinhas»! Não queria sair debaixo da saia de minha mãe. E meu irmão, mais novo mas mais desenvolto, acabava por ficar influenciado pelas minhas mariquices.

Portanto, para ir à «explicação», a meio da tarde, minha mãe tinha que inventar coisas para nos convencer. E fazer cedências. Uma delas era ir buscar-nos mais cedo. A «explicação» acabava às 17 horas, mas a gente saía às 4h20.

Aprendi a saber ver as horas por causa disto. Num Natal eu e meu irmão recebemos um relógio cada um. E foi num instante que começámos a perceber quando chegava às 4h20. Minha mãe deixou de se poder atrasar, senão vinha logo a lágrima ao olho!

Estou a contar isto para dizer que eu e meu irmão até éramos dados como gémeos nessa altura: próximos na idade, vestidos de igual, uma parelha asseada.

Tivemos uma infância muito ligada e por isso desde que me lembro também chamava padrinho ao padrinho de meu irmão.

O meu tio António de Vargas Bulcão, casado com uma irmã de meu pai, foi, com ela, padrinho de Batismo de meu irmão. Nunca lhe chamei tio, era sempre o «Padrinho António». Convidei-o, já na adolescência, oficializando o título, para meu padrinho do Crisma.

Foi, na verdade, um Padrinho com letra grande! Gostava muito dele. Morámos 10 anos na mesma casa.

Recordo-me perfeitamente que na mesa de jantar da família, com meu avô Casimiro à cabeceira, os guardanapos de fazenda distinguiam-se por um anel de plástico de cores diferentes. O guardanapo do Padrinho António era amarelo, como a luz com que iluminou a minha infância e adolescência.

A primeira vez que fui ao cinema na minha vida foi com ele. No Cine-Salão do Sporting Clube da Horta. Desenhos animados. Uma cena em que alguém caía de uma cadeira abaixo várias vezes. Desatei a chorar com pena da personagem e tivemos que voltar para casa.

Já um pouco mais crescido também vi com ele no Sporting um filme de um ciganito e um touro bravo que, depois de adulto, continuou a reconhecer o seu companheiro. Voltei a chorar, mas mantive-me até ao fim!

As tardes de domingo, quando o tempo ajudava, eram divertidas com meu Padrinho António. Rumávamos ao Campo da Doca para vermos o seu Sporting jogar. Foi também com ele que entrei pela primeira vez num campo de futebol, num tempo em que o colorido das camisolas (Sporting, Atlético, Fayal) e o calor do público faziam a festa, já que de futebol nada percebia, e ainda hoje percebo pouco.

O meu Padrinho António tinha a sua mercearia perto da Torre do Relógio, a «mercearia do Senhor Bulcão».

Já falei de mercearias aqui. Talvez porque fui criado nelas dava tudo para poder cheirar de novo aquele ambiente de odores variados, reviver os rituais de embalar açúcar ou farinha ou saborear queijo de São Jorge com figos passados!

A mercearia de meu Padrinho era pequena. Ficava numa esquina, lugar onde todos os negócios dão.

Apesar de pequena a mercearia tinha de tudo, desde a saca com favas, ervilhas ou feijão à porta e uma caixa de madeira com batata-doce, aos brinquedos de Natal nas prateleiras envidraçadas, que eram abertas uma vez por ano. Para não falar das modernas gamas em caixas de papelão de cores vivas ou dos rebuçados dentro dos frascos sobre o balcão, tão apetecíveis…

Todos os dias, primeiro o Norberto e depois o Gilberto, saíam com um cesto no braço carregado de compras para levar a casa de alguns fregueses. Sempre me impressionou a resistência dos seus braços carnudos, capazes de segurar um cesto enorme na dobra do cotovelo.

Meu Padrinho, com as técnicas de marketing desse tempo – ditadas pelo conhecimento psicológico dos seus clientes – atuava conforme a situação, ora mais sério e atento, ora humorado e descontraído.

Vezes sem conta debrucei-me, ao fim do dia, sobre o balcão em que meu Padrinho, inclinado sobre uma língua de papel, somava mentalmente infindáveis colunas de números, para depois registar nas cadernetas dos fiados.

A sua destreza e fiabilidade só tiveram paralelo, mais tarde, nas máquinas de calcular.

E a precisão com que cortava queijo ou enchia açúcar ou farinha? Impressionava-me que as talhadas dos enormes queijos de São Jorge, quando pesadas, apenas se desviavam escassos gramas do peso solicitado pelo freguês. No açúcar e na farinha a concha apenas punha ou tirava uma pitada.

Meu Padrinho António tinha uma voz grave e cantava bem afinado. Assobiava como um canário da terra – era o prenúncio do almoço, quando começava a subir a escadaria que dava para a cozinha e o cheiro da sopa se espalhava pela casa dentro.

A sua gargalhada era um estímulo! Conheço uma igualmente estrepitosa, larga, insinuante, por vezes irónica: a de meu primo António, seu filho.

Fomos à Manhenha, onde tenho família pelo lado de minha avó materna, à matança de porco de um outro primo meu.

Meu padrinho ia rever amigos, deliciar-se com o pitéu, mas, sobretudo, com o fito de jogar sueca. Aí as coisas fiavam mais fino. Caí na asneira de aceitar ser seu parceiro num jogo. Ainda hoje me soa ao ouvido aquela acusação impiedosa e inapelável, quando terei puxado a trunfo na ocasião errada, feito uma inapropriada fineza ou coisa que o valha: assassinaste-me a vaza!

Para além das cartas, outro vício de meu Padrinho António era caçar. Já mais adiantado na idade pediu-me para ir com ele. Palmilhei quilómetros com coelhos às costas, de noite, na Serra do Salão.

Às vezes ele caçava pelo vidro do carro fora. Íamos num caminho de saibro e surge um coelho à nossa frente, aos ziguezagues. Ingénuo e inexperiente comecei a ziguezaguear ao volante o que fez com que meu padrinho não conseguisse fazer mira, como é óbvio. «Tu não percebes nada disto», diz-me ele frustrado ao ver o coelho fugir por baixo de um bardo de hortênsias.

Certo dia, meu irmão, meu primo António e meu Padrinho fomos os quatro à caça. Surge um coelho, meu primo aponta, dispara e manda meu irmão ir buscar a presa. Chegado lá, vira-se para nós e exclama: ele está-se mijando todo! E meu primo António, com a sua veia jocosa, à semelhança do pai, responde: Pudera, se fosse eu também me mijava!

Souto Gonçalves
Publicado também no jornal Incentivo, na sexta-feira, 22 de março de 2019

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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