13 – DEI COMIGO A PENSAR…
… na noite de 12 para 13 de maio
Sei que alguns leitores ficaram à espera de saber coisas sobre um circo em Castelo Branco, mas vou adiar mais uma vez, pois no fim de semana passado fez 61 anos da noite de 12 para 13 de maio de 1958 e acho que vale a pena contar o que me lembro.
Minha mãe casou-se em 1957, em setembro, no mês em que o Vulcão rebentou. Por acaso não sei se foi antes ou depois do dia 27 (data do início da atividade vulcânica dos Capelinhos), pois nunca lhe perguntei nem procurei esse dado. Até pode ter sido depois visto que o dia 27 foi numa sexta-feira…
De qualquer maneira o que interessa para aqui é que eu, em maio de 1958, ainda não tinha nascido, apesar de ter havido tempo para isso, pois um bebé com 8 meses já pode deitar a cabeça de fora; ou então, se tivesse sido concebido antes do Vulcão, por obra e graça de algum deslize de minha mãe, já haveria de estar bem resoluto à data. Mas não foi assim.
Portanto, a minhas memórias dessa noite tenebrosa não são minhas, são principalmente de minha mãe. Mas como tantas vezes ela me falou da sua aflição fui interiorizando, imaginando e quase sentindo, ao longo do tempo, tão medonhos momentos.
De meu nome José, ando por cá desde o dia 15 de abril de 1962 e sou, por isso, fruto da geração do Vulcão, não por ter assistido à sua explosão, mas por encarnar as recordações e os sentimentos de quem com «ele» conviveu.
Tive a felicidade de não penar como tantos faialenses que a emigração engoliu. Apesar de tudo, o Vulcão também faz parte de mim.
Ao domingo, depois do almoço, já tinha eu idade que permitia fixar lembranças, raramente não se dava a volta à ilha. Era um passeio longo, nunca acabava de dia, pois, além de paragens obrigatórias, havia, amiúde, um motivo para meu pai sair do carro e ir ao encontro de alguém.
Comerciante e negociante o José «Casimiro» encontrava sempre assunto: milho, batatas, porcos e tudo mais…
Estavam identificados os sítios certos para parar e, mais do que uma taberna, uma casa, uma terra, uma festa, o que meu pai tinha como verdadeiramente importante (hoje dir-se-ia verdadeiramente estratégico) era as pessoas.
Em cada freguesia ou lugar existia uma espécie de homem de confiança em que meu pai se apoiava para obter informações e tentar fazer os melhores negócios.
Eram muitos: Manuel Jerónimo em Pedro Miguel, Caetano nos Espalhafatos, Manuel Ambrósio no Cascalho, Manuel «das Camionetes» e Moitoso na Praia do Norte e não me consigo lembrar de mais.
Esta relação não era apenas comercial. Havia amizade.
O Senhor Manuel Jerónimo quando (raramente) vinha à cidade almoçava sempre connosco. Vestia calças e camisa de cotim (uma fazenda cinzenta com riscas mais escuras ao alto, a ganga daquele tempo), impecavelmente engomadas e limpas. Delicadíssimo. Dispensava os talheres. Levava a mão ao bolso e tirava uma navalha grande, bem afiada, luzidia. Na outra mão um bocado de pão a ajeitar o conduto.
Para mim e para meu irmão eram momentos de contemplação, porque raros. Desfrutávamos menos na volta à ilha do domingo na paragem em casa dele. A sua mulher saía em alvoroço pela porta da cozinha, com uma voz aguda e apertava-nos num abraço sufocante. Um bezerro ou uma cabra suportaria facilmente um abanão da mulher do Senhor Manuel Jerónimo, mas dois trinca-espinhas (mais eu do que meu irmão) sentiam os ossos a gemer.
O Senhor Manuel Ambrósio, que foi para a América, era pequeno mas vivo como um rato. A primeira vez que veio de visita meu pai chorou. E deu-se a triste coincidência de estar em nossa casa na tarde em que minha avó Teresinha morreu.
Nesta rede de informadores as cumplicidades eram notórias e as atenções também. Para baixo vinha um cabaz com novidades da horta do Senhor Manuel Ambrósio, para cima, no mesmo cabaz, seguia uma alcatra do nosso talho.
Agradecido, na sua simplicidade e rudeza, o Senhor Manuel Ambrósio quis contar a minha mãe a reação de surpresa da mulher quando, certo dia, recebeu um cabaz mais bem recheado. D. Maria – confidenciou –, assim que ela viu aquilo disse logo: mas que merda com aquela gente!
Comecei esta volta à ilha para falar do Vulcão, mas desviei-me por outros caminhos. Voltemos à estrada.
Não era todas as vezes, mas em muitas delas, ao chegar ao fim da reta do Capelo (onde hoje existe o estabelecimento do Senhor Tomás Matos, outro grande amigo de meu pai que me esqueci de referir há pouco) o carro desviava-se para o Vulcão. Não havia ainda a ligação transitável para o Norte Pequeno e a gente ia até ao Canto e «voltava p’a trás».
Era nestas ocasiões que minha mãe falava do Vulcão. Não sei porquê, o tempo estava sempre cinzento, ventoso, acabrunhado, poucas pessoas no caminho, uma ou outra mulher idosa de lenço ou xaile sobre a cabeça. À medida do avanço o Vulcão surgia nas curvas, desconfiado, com as faces de areia ainda avermelhadas. Eu tinha medo que ele se revoltasse com a nossa visita e só me sentia seguro quando meu pai acelerava no regresso.
Minha mãe, uma pessoa tão bondosa e afável, sobretudo para os seus filhos, contava as histórias sobre o Vulcão com palavras que me atemorizavam e a fácies estranha. Não era de propósito, eu sei. Era o sentimento.
Meu avô Souto sentava-se à noite no divã da cozinha. Nas costas das suas mãos longas e largas sobressaíam veias em que eu gostava de carregar com os meus dedos. Punha-me a dois ou três metros de distância e corria para ele, que me amparava com essas mãos acolhedoras e fortes. Ele comia uma enorme tigela, branca com bolas verdes pintadas por fora, de leite com farinha torrada (ficou diabético). Era um divertimento para mim e meu irmão vê-lo deitar as colheradas e reparar na farinha a desfazer-se.
Este quadro corresponde à descrição de minha mãe quando me contou da noite de 12 para 13 de maio, tirando a parte em que eu apareço.
Os abalos de terra eram uns atrás dos outros. Rolavam pedras das paredes, que se calavam debaixo de uma neblina espessa. A coroa do Senhor Espírito Santo foi trazida para a eira onde a vizinhança se reuniu e rezou a noite toda (o meu vizinho Carlos Peixoto falou-me disto há dias).
Quando o tempo está de sul, com nevoeiro, húmido, quase irrespirável, as pessoas dizem-no propício a tremores de terra. Estou convencido que o fazem porque no subconsciente de muita gente essa noite horrorosa ainda aparece.
A casa de meu avô criou uma barriga na fachada, os insistentes pedidos para que fosse para a eira não serviram de nada. O Manuel Silveira do Souto Júnior terá tido as suas razões para não se levantar do divã. Hoje gostava de saber quais, mas, meia dúzia de anos depois daquela noite só me interessava correr para as suas mãos e tocar-lhe e vê-lo comer leite com farinha torrada, pegar na luz de petróleo e, em direção ao seu quarto, despedir-se com uma serenidade maior do que, pelas minhas contas, o seu metro e noventa e tal!
Souto Gonçalves
Publicado também no jornal Incentivo, na sexta-feira, 17 de maio de 2019

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