O coelhinho
O meu pai era caçador, assim como um tio-avô e um primo em segundo grau.
Foi, assim, naturalmente que me tornei caçador desde criança. No princípio apenas munido de fisga (funda), depois de uma carabina de pressão de ar, por fim de uma caçadeira de calibre doze. Pelas minhas mãos muitos pássaros não regressaram aos ninhos ao fim da tarde, inúmeros pombos não viram mais a rocha que os viu nascer, centenas de coelhos deixaram as suas tocas frias e vazias.
A toda essa bicharada peço desculpa hoje. É verdade que apenas matei para comer, nunca ganhei um tostão a vender peças, e na hora recolhi os invólucros dos cartuchos depois do tiro, não deixando nada pelos matos. Do mesmo modo sempre fechei cancelas para nenhum gado fugir depois da minha passagem. Mas matei muito e fico triste por tal.
Nos meus tempos áureos, nenhum equilíbrio estava em risco. O coelho era uma praga, os lavradores até agradeciam aos caçadores a diminuição do prejuízo nas ervas. Se tivesse sido proibida a caça, acredito que os láparos teriam entrado em muitas casas das freguesias.
Depois vieram febres hemorrágicas que os mataram aos milhares, sendo que sempre desconfiei de mão humana por detrás da epidemia. As juntas dos joelhos também já não eram as mesmas, começaram a doer-me e a espingarda ficou na despensa a enferrujar ainda mais que eu.
Mas, nos meus bons tempos, cacei muito, No Faial e aqui na Terceira. Apanhei os meus cagaços sozinho, de noite, enfrentei nevoeiros e chuva grada, cada pingo uma canada. Cruzei-me com toiros, atravessei ribeiras a correr e tive de me guiar pelas estrelas, quando as pilhas se foram ou a bateria se finou. Perdi-me e encontrei-me.
Foi nesta ilha de Jasus que me tornei amigo de um coelhinho, ao qual decidi poupar a vida. Era muito engraçado, o bicho. Acreditava que conseguia parecer o que lhe apetecesse. Quando me via ao longe, fingia-se vaca, ou cabra, dentro da sua cabeça camaleónica era o roedor que escolhesse, só para se safar. Demasiado anafado para correr depressa, só iludia um tiro com estas manhas.
Com os tempos, aprendeu a falar e parecia mesmo um ser humano, para quem não soubesse que se tratava apenas de um coelhinho. Dizia o que fosse preciso para levar a água ao seu moinho. Defendia uma coisa e o seu contrário sem o mínimo problema. Os outros coelhos chamavam-lhe mercenário, mas o coelhinho pouco de importava com isso. E assim se foi safando…
Feito homem, o coelhinho decidiu dedicar-se à política. Tinha jeito para a coisa. Foi governante, depois deputado, depois o chefe dos deputados, o homem mais importante da sua região, pelo menos formalmente. Despromovido (a política tem destas coisas), o coelhinho começou a escrever coisas para os jornais. A maior parte delas sem interesse nenhum, linhas que ninguém lia, mas mostrando serviço aos patrões.
Até que começou a revelar-se demasiado impertinente e atrevido para com aqueles que tinham ideias diferentes das dele, estes sim, seres humanos sem ser a fingir. Para o coelhinho, eram carpideiras, avençados do frete, porta-vozes, e outras coisas pouco agradáveis.
Por ser um dos que discordam dele, encaixo-me legitimamente nalguns daqueles epítetos. E daí esta crónica.
Se sabe escrever, coelhinho também saberá ler. E espero que lhe cheguem estas linhas, como um aviso, mais certeiro que os tiros do passado.
Coelhinho: toma cuidado contigo. Fingi-te de morto, dá pouco nas vistas e, sobretudo, não ofendas quem te poupou a vida e permitiu que fosses chegando onde querias chegar. Podes enganar toda a gente que te julga homem, mas eu sei que não passas de um coelhinho.
Se não quiseres seguir este conselho, ficas a saber que irei atrás de ti. Amarrarei as artrites e a gota, passarei óleo nos dois canos sobrepostos, comprarei cartuchos novos, que os que tenho já são mais humidade que pólvora, calçarei as botas de cano e partirei à tua procura por cerrados sem fim.
Não armarei laços à falsa-fé. E ambos temos consciência de que nem precisarei de atirar. Quando me vires, hás-de tentar correr, mas o rabinho gorducho é inimigo de grandes velocidades, como sempre soubeste. Poupa-te a agarrar-te pelas pernas traseiras e a fingir que o cutelo da mão direita se dirige com força para a cervical. Porque ias guinchar, mais uma vez, para te safares…
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)

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