UM DIA DEPOIS DA FESTA DE ANOS
Cheguei à cidade à noitinha, um dia depois da festa dos seus 186 anos. Segui pela avenida abaixo. O mar escorria preguiçoso entre as pedras do quebra-mar. O Pico descoberto apanhava o último raio de sol. Nuvens empeçavam no Cabeço Gordo porque o vento não tinha força para as empurrar. Acenderam-se luzes em São Jorge e as da Madalena cintilavam. O Cruzeiro virou para o Canal. De onde eu estava parecia acompanhar a luz de estibordo refletida no espelho da baía. Quem estivesse na Horta ao fim da tarde de ontem não invejaria o Paraíso.
Até os transeuntes que de outras vezes passam a correr agoniados como se o colesterol os perseguisse não resistiram à contemplação.
Não se ouvia nada senão o que não se escuta num dia normal: o silêncio de uma brisa morta!
Dois carros fizeram a avenida de ponta a ponta numa velocidade incompreensível despertando os que já se julgavam em ascenção ao céu.
Na Biblioteca ia começar uma audição de piano de uma aluna finalista do ensino artístico da Escola António José de Ávila.
Sessenta pessoas a assistir. Bravo!
Sentei-me na fila dos que gostam mas não percebem de música erudita: atrás, mas em linha de vista com os dedos da pianista.
Sei que tocou Beethoven, Mozart, Chopin (acho que não estou enganado porque memorizei o anúncio do programa), mas não me peçam para dizer a ordem pela qual foram executados.
Minha mulher, que ensina música, ainda me segredou umas coisas e eu disse que sim com a cabeça.
Esta menina senhora finalista pianista deu um concerto excelentíssimo! É verdade que, gostando de música clássica, prefiro Strauss, Verdi, que não eram chamados para o caso. Saí da Biblioteca impressionadíssimo com o nível de execução demonstrado pela Aurora Nunes. Tem um futuro promissor.
Os candeeiros renovados da cidade dão-lhe um ar romântico. Por isso é que gosto de passear à noite pela Horta.
Fui até ao mercado. O maestro José Maria da Silva estava no auge com a sua orquestra (da Câmara). Acho que é um grupo de músicos que se pode apresentar em qualquer parte do mundo. Sempre que o ouço lembro-me do James Last, de quem sou fã.
E o José Maria imprime à orquestra um toque artístico interessante. Basta observar os tiques de regência, a subtileza das mãos e dos gestos e a leveza e o ritmo do corpo, que surgem como o prolongamento das notas musicais, ou a causa de tão sublime desempenho.
O mercado estava cheio. Começa a transformar-se no "quarto" do serão da nossa casa que é a Horta. (A crítica política não tem lugar neste escrito, por isso alguns reparos ficam para outra ocasião).
O grupo de fados de Coimbra que atuou já a caminho da meia-noite encantou-me. Mas encantou-me mais quando o fadista anunciou a Samaritana. E ainda mais me encantou quando público fez coro de uma maneira que não é habitual nos faialenses.
Uma nota profundamente negativa: apesar dos delicados apelos do fadista o ruído de algumas pessoas a falar foi uma coisa muito feia. E as crianças? Os paizinhos acham que os meninos podem fazer tudo, é um mal dos tempos modernos.
Já no dia da inauguração do mercado foi assim. Enquanto o senhor presidente da Câmara falava o burburinho era ensurdecedor.
Ó faialenses, onde está a vossa hospitalidade, virtude do bem receber forjada no cosmopolitismo que vos pôs em contacto com múltiplas culturas, a vossa educação, lhaneza de trato?
Isto e dois carros a acelerar na avenida não foi suficiente para me estragar a noite, porque de facto tive ontem o privilégio de passar um bom bocado na nossa cidade um dia depois da festa de anos.

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