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domingo, 3 de maio de 2020

Da Califórnia de João Bendito 28º DIA DO “DIÁRIO DA EPIDEMIA”


 EPIDEMIA” ABRIL, 18, 2020
JOAO BENDITO·DOMINGO, 3 DE MAIO DE 2020

Comecei a 19 de Março a escrever o meu “DIÁRIO DA EPIDEMIA”. Pequenas notas e apontamentos para registar o modo como a minha vida e a da minha família tem sido afetada pelo Coronavírus. Embora contra a ideia de alguns amigos, eu acho que não posso escrever sobre esta calamidade sem relacionar as nossas vivências com os procedimentos das autoridades responsáveis pelo combate à Epidemia. Esta é a única entrada do Diário que publiquei. E talvez será a última, ficarão as restantes (já são 40, até hoje) para memória futura.
Aqui está:
ABRIL, 18, 2020
8 AM
Olhei para o espelho, no quarto de banho, e vi um velho.
Não me sinto velho, mas vi-me velho. O bigode todo branco, as sobrancelhas vão no encalce da mesma cor, os papos debaixo dos olhos mais acentuados e até alguns pelos a vigiarem pelas orelhas fora, enquanto outros espreitam pelo nariz abaixo. Aqui, no caso dos pelos, haverá um pouco de descuido. Costumo ir cortar o cabelo uma vez por mês, a simpática senhora vietnamita que faz aquilo num ápice, dá cabo deles enquanto eu pisco os olhos. Talvez foi isso que me fez parecer (mais) velho: o cabelo precisa um corte, está a começar a saltar por cima das orelhas, a criar caracóis no pescoço e a empinar-se na vertical no cocuruto, à roda da coroa de Santo António. Como não posso ir visitar a senhora vietnamita, o cabelo aproveita para crescer, quem sabe a recordar-se do modo que eu o mantinha há cinquenta anos. Nessa altura, ele crescia a seu belo prazer, escorria até aos ombros, tapava as orelhas e era preto que nem tição. Quando eu passava à porta da tenda do Mestre José “Cambado” e não entrava, ouvia sempre uns avisos do apreciado barbeiro: “Ó Bailhãozinho, as minhas tesouras estão bem amoladas!”
Os espelhos não enganam. Mostram-nos aquilo que realmente somos. A não ser que o indivíduo que está no lado de cá use umas tintas, uns pozinhos, uns truques mágicos, para se ir enganando a si próprio. Nesse aspeto, estou inocente, que o diga o indivíduo que vejo no lado de lá do espelho. Para quê usar subterfúgios se o calendário não nos engana? Portanto, há que aceitar o que está à nossa frente. Não serve de nada apagar a luz que está por cima do espelho, a imagem fica lá na mesma, pelo menos até que o do lado de cá vire as costas ao do lado de lá e vá vigiar como estão as coisas no quintal.
O velho, afinal, em vez de ir para a direita, em direção à janela da cozinha, virou à esquerda e veio sentar-se em frente do computador. Este é um espelho diferente, só “reflete” o que eu lhe deito para dentro ou que vou buscar a este mistério que é um cérebro transparente e infinito. Á minha frente estão um monte de fotografias que vou guardando no ecrã (a cara) deste espelho, à espera de oportunidade de as usar para darem cor a algo que eu escreva. Serão, talvez, como as tais tintas e os pozinhos que os humanos usam para se enfeitarem e que eu uso para ornamentar e quebrar a monotonia do branco do papel e do preto das palavras. Há outras coisas na cara desta máquina, uma quantidade de envelopes que me permitem entrar pelo corpo deste animal-pensante – que afinal nem é animal nem é pensante – e através dos quais chego a lugares e a pessoas, a livros e a músicas, à ciência e à ignorância, enfim, ao Mundo.
Há algumas diferenças entre a cara que eu vi no espelho e a cara que tenho agora à minha frente. Esta, digamos assim, “vê”, “ouve” e “fala”. Mas perde em comparação com a cara real porque não cheira nem sente. Talvez, no futuro, alguém invente um app que nos ponha a cheirar a alcatra de congro que o Fernando Alvarino está a desafiar-nos no Facebook... ou outro app que me dê a hipótese de pôr no ecrã a cara das minhas netas e, deste lado, fazer-lhes uma festa nos cabelos e elas sentirem do outro lado. Bem, já estou a variar, como diziaa avó Delminda.
Melhor recordar o que aqui me trouxe. Vim apenas acrescentar mais uma página a este Diário da Epidemia. Faz hoje um mês que o comecei. Engatinhando devagarinho (mas já não usa fralda!), o Diário ajuda-me a enfrentar a monotonia da Epidemia. Já lhe meti no corpo, até agora, quase 80 mil caracteres, em 17 mil palavras e embelezei-o com 40 fotografias. Tenho sido fiel ao meu propósito de escrever uns parágrafos todos os dias e, ao anotar os números de palavras e símbolos, fez-me pensar que já há dias que não menciono as estatísticas relativas ao “Crona-viras”, dito à moda da Terceira. Talvez porque, de dia para dia, elas assustam-me cada vez mais. Nem quero ir atualizar-me nesse campo, ainda é cedo e não quero ficar deprimido o resto do dia.
É capaz de já estarmos a chegar ao ponto que eu mencionei num dos primeiros episódios destas crónicas, o facto que as pessoas poderiam começar a ficar fartas das restrições e deixarem cair as guardas, abrandarem no afastamento físico e abandalharem os cuidados devidos. Mas mais preocupado fico quando vejo que o podem fazer por motivos políticos e quando o responsável-mor neste país pela luta contra a Epidemia, é o primeiro a atiçar o fogo e a convidar à rebelião popular contra as normas que ele próprio estabeleceu no dia antes.
Não será coincidência menor reparar que os grupos armados que se manifestam em frente às sedes dos governos de alguns estados, são grupos de extrema direita, de orientação nazi ou simpatizantes do “Tea Party”. Beligerantes e vociferantes, querem que se regresse ao normal, que a economia volte a funcionar sem restrições e se ponham de lado as diretivas instituídas pelos governadores. Estão os protestantes a pôr em risco a sua própria saúde e, o que é pior, a esborralhar as paredes que foram levantadas para nos protegerem, estão a atuar como uma “Justiça da Noite”, mas ao contrário. Não se lhe pode negar o direito de se manifestarem, mas... armados até aos dentes??? Voltando à metáfora com que iniciei este Diário de hoje, estão a ser a imagem antagónica e desfocada do que realmente o espelho da sociedade americana deveria refletir.
1.30 PM
Ora muito bem, quero apenas acrescentar duas linhas acerca da vida aqui pela vizinhança e deixar as notícias políticas para outra altura. Acabei de chegar da nossa caminhada, tudo tranquilo pelo trilho. Os rapazes das bicicletas devem estar bem aborrecidos porque a pista que reconstruiram, foi novamente destruía; ainda não aparecem nas margens da lagoa os novos descendentes dos gansos; e o rebanho das cabras está a chegar à zona da ribeira que fica em frente ao meu quintal, amanhã aqui estarão e serão personagens no Diário.
De assinalar também que toda a vizinhança recebeu uma nova camada de cobertura nas zonas ajardinadas de todas as ruas. Dá gosto ver, e anima a alma nas nossas caminhadas.
Por hoje é tudo, tenho que ir cortar a relva do quintal.
A vida continua.
Vamos a ver se o espelho não me prega alguma partida ou eu me veja de maneira diferente, quando o enfrentar amanhã de manhã.

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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