PRIMEIRO DIA DE ESCOLA
(Esta entrada, a nº 103 do meu DIÁRIO DA EPIDEMIA, foi escrita para ser usada com uma da série de “CRÓNICAS DE HOJE E DE SEMPRE”, que mantenho, enquanto me quiserem aturar, nos
PRIMEIRO DIA DE ESCOLA
Era Outubro, devia estar frio.
Se bem me lembro – desculpa lá, ó Vitorino! – deve ter sido na terça-feira, 7 de Outubro de 1958, que a minha mãe me levou pela mão. Percorremos toda a Rua do Rego, eu com a minha pasta de cartão, ela com o seu bonito sorriso estampado na cara. Imagino que deverá ter saudado efusivamente todos com quem nos cruzámos... o Sr. José, da padaria Angrense, os picarotos que vendiam queijos, o Sr. Henrique da mercearia. Subimos os degraus da entrada principal da Escola Primaria Infante Dom Henrique, a popular Escola do Alto das Covas. E depois, subimos as escadas que nos levaram ao segundo piso.
A sala onde me deixou era mesmo a do canto do corredor. Fiquei ao cuidado de um sujeito alto, magrinho, com cabeleira farta e nariz proeminente. Devo ter pensado que aquele seria um amigo para toda a vida. E foi. O Professor Armindo Jorge da Silveira, uma simpatia de pessoa que, sempre que me encontrava, me chamava de “Sr. Bendito”.
Lembro-me de não ter tido a coragem, naquele primeiro dia, de sequer tirar da pasta de cartão a minha ardósia e o respetivo lápis de pedra. Ali fiquei, sentado, meio amuado, a merecer a galhofa dos mais velhos, principalmente de um que me conhecia bem, filho de um mestre barbeiro, vizinho do cimo da Miragaia. Encontro-o uma vez por ano, aqui na Califórnia e continuamos a recordar coisas desse tempo...
Tenho uma fotografia dessa turma, composta por alunos da primeira classe (a minha) e outros da quarta classe. Ainda hoje sou capaz de nomear quase todos, seja pelos nomes próprios ou pelas alcunhas. Alguns sei que já faleceram, a maioria deles, no entanto, perdi-lhes o rasto, não sei que é feito deles. Só não gosto de ver nesta fotografia é a porta envidraçada que está por detrás do grupo. Traz-me más memórias. No ano seguinte, a correr em perseguição de um colega, ele fechou-me a porta de repente e eu não tive outro remédio senão enfiar as mãos pelos vidros. Cortei o pulso do braço esquerdo de tal modo que estive umas semanas sem ir à escola, fazia curativos diários na enfermaria dos Bombeiros, na Praça Velha.
A Escola do Alto das Covas era a maior da cidade e da ilha. Talvez fosse bem apetrechada para a época, mas, que eu me lembre, as salas, embora grandes e espaçosas, não tinham outro equipamento senão as carteiras duplas para os alunos, a secretária do professor e um grande quadro negro. AH!, esquecia-me: na parede, bem escarrapachadas, as fotografias do Salazar e do Marechal Carmona. Não havia uma biblioteca nem, por pequeno que fosse, um armário com artigos de primeiros socorros. Disso tenho a certeza porque, no dia em que me cortei nos vidros da porta, o professor Leopoldino levou-me para casa, a sangrar abundantemente, com o braço embrulhado na minha bata alva de neve. Talvez eu devia acrescentar à lista do equipamento das salas um objeto que o Professor Armindo Jorge não utilizava, mas que outros seus colegas usavam com frequência e até com alguma crueldade: a régua de madeira com que golpeavam as palmas das mãos dos alunos. Também eu provei, se bem que poucas vezes, os famosos “bolos” do não menos famoso “Descarado” da Agualva, um professor que não deixou muitas saudades.
Mas, afinal, porque é que eu trago às páginas do meu Diário da Epidemia as recordações de coisas que se passaram há mais de sessenta anos? Precisamente porque uma das discussões mais atuais, nestes dias de calamidade com o Coronavírus, tem sido os argumentos acerca da abertura (ou não) das escolas na Califórnia e nos outros Estados. É um assunto muito sério e que vai requerer cuidadosos estudos e minuciosa planificação. A saúde de muitas crianças, de professores e pessoal auxiliar pode estar em risco, se forem tomadas decisões precipitadas e apenas fundamentadas em argumentos políticos.
Já há mais de um ano que começaram as obras numa nova escola primária, mesmo aqui no fim da rua onde vivemos. Agora pronta, será o estabelecimento de ensino onde a nossa neta Olívia vai iniciar a sua vida escolar. Passo ali quase todos os dias, fica mesmo ao lado do trilho e das lagoas onde fazemos as caminhadas matinais. E, quando olho para os modernos e multiformes edifícios, pintados com cores vivas, lembro-me da desbotada brancura e da monotonia arquitetural da Escola do Alto das Covas; quando imagino a Olívia a brincar ou a socializar com os colegas nos bonitos e arborizados espaços de lazer, vejo-me a jogar às “quatro covas” na terra do recreio; e quando vigiei pelas janelas e vislumbrei o magnifico espaço para multiusos, com palco e equipamento para desportos de salão, recordo que, na minha antiga escola nada disso existia, apenas tínhamos, no chamado “pátio de cima” o imóvel onde funcionava a Cantina mas onde eu só entrei uma vez, quando fui obrigado a ir engolir uma colherada de óleo de fígado de bacalhau.
Ao contrário do que aconteceu comigo, criança envergonhada e tímida que tive alguma dificuldade a ajeitar-me ao ritmo escolar, a nossa neta está com um entusiamo tremendo, a sonhar com o seu futuro de aluna perspicaz e atinada. Oxalá a desilusão, caso o Distrito Escolar tenha que adiar a inauguração da escola, não lhe venha a criar traumatismos de maior. Terá que se acostumar às aulas via internet, como já fizeram os primos na parte final do ano letivo que agora terminou. Espero, acima de tudo, que ela possa encontrar um(a) professor(a) que lhe deixe boas recordações, como as que eu tenho do meu primeiro Mestre; e que tenha o cuidado de guardar, para rever daqui a sessenta anos, uma fotografia com todos os colegas, companheiros da sua primeira experiência académica.
Mas, para ser sincero, eu gostaria de ter a oportunidade de poder recriar com a Olívia a caminhada que a minha mãe fez comigo para me deixar na escola, no meu primeiro dia de aulas. Pode ser que eu tenha a sorte de, ao longo do ano letivo, levar a Olívia pela mão e, então, contar-lhe-ei estas e outras estórias.
Tenho a certeza que ela não vai levar na sua mochila uma ardósia e um lápis de pedra...


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