O espírito do Coronel Paula de Carvalho

Conheci com a patente de Capitão o atual Coronel na Reserva, Alveno Paula de
Carvalho, filho de um extraordinário senhor de nome José Paula de Carvalho, que
foi funcionário bancário, no tempo de Montalverne Sequeira, Ezequiel Borges
Barcelos, Henrique Carvalhal e tantos outros dessa época em que ser bancário
não estava ao alcance de qualquer um.
Alveno Paula de Carvalho foi, em 1963-64, presidente da Associação dos
Desportos de Angra do Heroísmo com o seu reconhecido dinamismo. Eu nessa
altura, com quase 20 anos de idade, estava encarregado de duas modalidades que
o Marítimo se fez representar, o atletismo e o basquetebol. No basquetebol, uma
equipa que diria “quase de apanhados”, mas bem orientada pelo meu querido amigo
José Braz Veríssimo que, muito gentilmente, acedeu ao meu convite. Nessa mesma
equipa figuravam, entre outros, Jacinto Azevedo (nos Estados Unidos) e o
saudoso José Henrique Barros que, recentemente, fiz recordar num artigo
publicado no Portal Splish Splash, já que fez anos que Santos Barros e Ivone
Chinita (esposa) morreram num trágico acidente de viação.
Voltando ao então Capitão Alveno Paula de Carvalho, muitas vezes fui ao BII 17
para trazer sapatilhas e camisas que já não eram usadas pelos militares e que
serviam muito bem para os nossos atletas. Sempre que havia uma falta de
equipamento, recorria-se a Paula de Carvalho a solicitar ajuda nesse sentido.
Curiosamente, o Angrense tinha como seccionista o falecido Rui Diogo que, como
sabe, fez jornalismo e ainda comigo trabalhou no Diário Insular, jornal que
sempre serviu.
Ora, sobre o Coronel Alveno Paula de Carvalho, e agora falando do presente, é
interessante o fato de juntar antigos militares que com ele estiveram em Angola
num jantar convívio. Sei que, ultimamente, esta tem sido uma prática em
Portugal Continental, pois é uma forma de pessoas que passaram pela Guerra Colonial
conviverem, após muitos anos sem se reencontrarem. Claro que nos Açores, e
particularmente na ilha Terceira, é mais fácil reunir todo o pessoal que faz
parte do rol dos vivos.
Li com atenção a entrevista concedida ao DI pelo Coronel Alveno Paula de
Carvalho e, com a devida vénia, transcrevo este parágrafo:
“É preciso recordar que os mancebos que iam para a tropa não só aprendiam a ser
militares, como também, muitos deles, aprendiam a ler e escrever, a serem
homens, disciplinados, cumpridores das suas obrigações, e melhoravam
fisicamente, através do treino que lhes era proporcionado durante a recruta e o
restante tempo de permanência ao serviço.
Julgo que ficavam preparados para mais facilmente arranjarem um emprego no
regresso à vida civil. Faça comparações entre os dois sistemas e tire as suas
próprias conclusões.”
Subscrevo inteiramente esta afirmação do Coronel Paula de Carvalho, pessoa que
ainda apanhei no BII 17 quando entrei para o serviço militar. Com isto quero
dizer que foi bastante útil a minha ida para Angola, pois lá aprendi muito e
regressei à terra com os olhos bem abertos, sem aquela timidez que dantes
revelava perante a sociedade angrense, sobretudo esta. E eu que, tal como o meu
amigo Eduardo Silveira (que se encontra nos Estados Unidos), fui voluntário. De
resto, também ficam as amizades. Por exemplo, quando estive em Dezembro/Janeiro
na ilha Terceira, foi gratificante encontrar e conversar um pouco com José
Alpoim Bruges que foi meu aspirante. E ainda foi mais gratificante ele me dizer
que lia todos os meus artigos publicados em A União. Tudo isto tem uma ligação
com o serviço militar e, também, aqui em relação ao desporto, pois foi através
dele que comecei a conhecer o hoje Coronel na Reserva, Alveno Paula de
Carvalho. Claro que na tropa tudo era diferente, mas, mesmo assim, e agora
posso contar esta história (ocorrida em início de 1964), uma vez disse uma
mentirinha ao Capitão Alveno. Estávamos na época das crismas e ainda não se
podia sair do quartel. Alguns solicitaram autorização para se ausentarem, uma
vez que tinham o compromisso de serem padrinhos. Eu, claro, também entrei nessa
onda e falei com o Capitão Alveno para sair com o mesmo objetivo. Mandou-me,
desde logo, para o Tenente Luís Carlos Berbereia Costa que, por seu turno,
assinou a dispensa de saída. Desci a ladeira de acesso ao quartel que atém
parecia um foguete. Até hoje não sei quem podia ser o meu afilhado da crisma.
Tive um, sim, mas após regressar de Angola. Coincidências.

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