
Guy Fernandes - a "voz de tenor"
Eu começaria assim: João Fernandes do balcão à canção. Efectivamente, João Fernandes, que depois passou ao nome artístico de Guy Fernandes, foi uma das mais consagradas vozes açorianas e creio que poderia ter ido mais além se tivesse tomado outro rumo na sua vida, como, por exemplo, assentar arraiais
em Lisboa, se bem que se reconheça que, para um “ilhéu”, não seria tarefa fácil, ao invés do que acontece hoje. Na verdade, no presente os açorianos já são vistos de forma bem diferente, citando aqui, entre outros, o nosso bom amigo Carlos Alberto Moniz. Mas foi no balcão, na mercearia do senhor Pontes, que aprendi a conhecer João Fernandes e, na sequência, as suas actuações na esplanada do Marítimo, na altura o espaço mais procurado para se ouvir uma boa canção, um bom fado, enfim, os bons-velhos-tempos, porque não existiam outros divertimentos e nem por sombras se falava em televisão. Claro que hoje os açorianos desfrutam de tudo aquilo a que sempre tiverem direito e que para o efeito lutaram tenazmente perante o poder central.
Guy Fernandes, e passando agora ao nome artístico que depois passou a utilizar, sempre foi considerado a “voz de tenor”. E bem me lembro o apoio que sempre contou da D. Ália Santos, uma pianista muito credenciada pelo seu próprio talento. E, voltando um pouco atrás, ainda me lembro de ver o senhor Pontes, com os óculos meios caídos para a frente, “abanar” (correctamente, sublinhe-se) com o João Fernandes. “Ó João, atende aquele freguês ali. Ó João, olha aquela senhora que agora chegou”. Mas, diga-se de passagem, que o João sempre estava com um sorriso nos lábios e de todos recebia carinho e admiração.
Guy Fernandes tem esta história para ser relembrada:
“João Correia Fernandes, criado na Rua de Santo Espírito, freguesia da Sé – Angra do Heroísmo, desde cedo demonstrou gosto pela arte, nomeadamente Música, Cinema e Teatro.
Dada a apetência pela música, decidiu-se pelo seu estudo, designadamente aulas de piano e de cântico, cuja mentora foi a malograda Dª. Ália Santos.
Concluído o conhecimento adquirido pelas lições supra referidas, iniciou a carreira de cançonetista, em que para tal obteve a sua carteira profissional, optando pelo nome artístico de ‘GUY FERNANDES’.
Ao longo de vários anos percorreu os mais diversos espectáculos realizados por toda a ilha.
No decurso da sua carreira artística, foi-lhe dada a possibilidade de fazer parte de concurso a realizar em Continente Português, designado ‘Os Companheiros da Alegria’.
Da sua prestação, resultou a obtenção do 1º prémio e a possibilidade de consagração da carreira profissional, todavia, este caminho foi renunciado, dada a sua paixão pela Ilha Terceira e família.
Fruto da decisão tomada, regressou à Ilha, onde ingressou mais uma vez, pelos mais variados espectáculos que aqui se realizavam, tais como na BA4, S.C. Lusitânia, Recreio dos Artistas, Teatro Angrense, Marítimo, Clube de Golfe da Ilha Terceira, Clube Praiense e outros a título particular, tendo-se feito acompanhar na maioria das vezes na guitarra, pelo amigo de longa data, Carlos Baptista Ávila.
Consumou ainda, digressões pelos EUA e Canadá, junto das comunidades açorianas ali residentes.
Em 2003, efectuou a sua última actuação no clube Marítimo do Corpo Santo.
Guy Fernandes, faleceu a 05 de Dezembro de 2004, na sua residência de extensa data, calando-se assim, a designada por muitos, ‘A Voz dos Açores’.
Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico.
Nota final – Sempre gostei de ouvir Guy Fernandes, que faleceu no ano em que vim para o Brasil. Mas há uma canção que me toca fundo. Esta: “Maria Açoriana”.
Creio que muitos açorianos que pululam pelos quatro cantos do mundo, se lembram de Guy Fernandes. Uma voz inconfundível.
É verdade, o João do balcão à canção.
Do Azores Digital - Meu nobre sapateiro
Sapateiro o homem que concerta sapatos, profissão que, pelo que se sabe, está a desaparecer. Antigamente, e aqui me debruço sobre o burgo angrense (da minha terra), eram muitas as oficinas de sapateiros. Rua de Jesus, Rua Direita, Rua do Rego, Rua do Cardoso (Corpo Santo) e por aí adiante. Gente que muito trabalhava para garantir o sustento da família. E nessas épocas grandes quantidades de sapatos para consertar. E lembro-me que até se pedia para acelerar com esta frase: “ó mestre dê um jeitinho para mais cedo”, isto claro está em relação à data que o sapateiro indicava para os respectivos levantamentos.
O título com que encimei este artigo tem a ver com um sapateiro que muitos anos foi meu vizinho na Rua de Oliveira e cuja oficina estava situada num rés-do-chão na Rua de Jesus, creio que por baixo da casa onde residia o então capitão Luís Pereira da Silva, vulgo Gama. Não tenho a firme certeza se era aí a oficina do meu vizinho. O meu vizinho nobre sapateiro que tantas vezes o via sair de casa bem cedo com a sua cestinha na mão. O que levava na cestinha só ele sabia. Ele a esposa e os três filhos. Almoço? Talvez. Sapatos acabados em casa? Talvez? Cofre do dinheiro? Isso nem pensar. Também naquela época os tostões eram contados para tudo, inclusive para os estudos dos filhos. Os filhos, sim, o Carlos Reis que foi jogador do Lusitânia e que reside na Califórnia, o Walter falecido há 25 anos vitima de um estúpido acidente de viação e, finalmente, o Gil que andou pela Califórnia nove anos e depois assentou arraiais no Algarve onde hoje reside (Albufeira). Califórnia? Sim, para lá emigrou o mestre Carlos Reis, a esposa D. Elvira e os filhos. É verdade, o nosso nobre sapateiro, também foi um dos que emigrou para os States em busca de melhores condições de vida. Morreu há 25 anos e a esposa há quinze. Ó gente boa que me privilegiou com a sua amizade. Os nossos vizinhos daquele pedacinho de espaço da Rua de Oliveira, no início da descida pelo lado direito. E a D. Elvira era uma amante do futebol, do “seu” Lusitânia e não perdia um jogo em que sabia que o filho ia atuar pelo seu clube do coração, o meu homónimo Carlos Alberto, para os amigos e conhecidos o Reis. O Valter esse optou por ser eletricista (e que bom que era nessa profissão) e o Gil mais virado para a intelectualidade.
O mestre Carlos Reis sempre foi uma pessoa calma e, ao invés da esposa, não se deixou influenciar pelo gosto do futebol. É capaz de ter ido ao Campo de Jogos de Angra uma vez por outra, quiçá em jogos mais importantes. De resto, era vê-lo na sua oficina trabalhando sem olhar a horários e sempre bem disposto. Cumprimentava os amigos que passavam sempre com um olá. Ali na oficina ninguém parava muito tempo, ao invés do que se passava em outras em que predominava o tema futebol e touradas.
Mestre Carlos Reis, meu nobre sapateiro, como foi prazeroso da minha parte recordá-lo.

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