No ano em que a Terceira tudo ganhou
Tenho acompanhado algumas declarações de pessoas sobre
formação, sobre resultados das seleções, enfim, do que se tem feito de positivo
e o que, por outro lado, se entende por erros cometidos, neste caso em relação
aos Gabinetes Técnicos, que agora estão muito em uso. Porque agora o futebol
está mesmo para os “doutores da bola”, que ganham razoavelmente, constituindo
aqui um paralelo em relação a outros que serviram a AFAH (falo na AFAH e não em
presidentes que por lá passaram) e que nem um centavo receberam. Eu fui um
deles, mas também não esqueço que outros estiveram em igualdade de
circunstâncias. Fizemo-lo, aceitámo-lo, por amor à nossa terra e, sobretudo,
porque sempre levamos o futebol com notória seriedade e consequentemente pelo
respeito aos clubes que acreditaram nas minhas capacidades de trabalho. Clubes?
Apenas dois, como se sabe, o Sport Club Angrense e o Sport Club Lusitânia, que
servi em épocas alternadas.
Por ocasião do I Torneio Regional de Futebol Juvenil que teve lugar na
Horta, a Associação de Futebol de Angra do Heroísmo, então presidida pelo
falecido Francisco Borges Pinheiro (com quem tive um problema por não querer
passar um cartão livre-trânsito em meu nome ao serviço de A União. O problema
até não foi meu, mas sim do JD Macide que o solicitou. E depois ficou conhecida
a história do cartãozinho, porque eu não me calei e entrei em polémica escrita
com o dito Borges Pinheiro), colocou na mesa de reunião três nomes para serem
votados e escolhidos para selecionador-treinador. Três votos para mim e dois
para o meu bom amigo José Gabriel Borges, da Praia da Vitória. Mais: nessa
reunião (quem manda, manda), ficou decidido que a seleção seria composta por
dois jogadores de cada clube, o que, desde logo, não foi aceite pelos jovens
jogadores do Lusitânia que se recusaram a integrar (seriam dois, óbvio) o
selecionado terceirense. Na verdade, tenho que confessar e ser justo, o
Lusitânia tinha um bom naipe de futebolistas (Natal, Artur, Aristides e tantos
outros) e não tenho dúvidas de que levaria uns cinco, no mínimo. Contudo,
alheio a essa “guerra” e desde que aceitei as condições impostas, “toquei nos
pauzinhos” e convoquei os jogadores que, no meu entender, me davam garantias.
Aliás, com a recusa dos lusitanistas, tive que levar mais um do União e do
Angrense. E vejam quem foram os escolhidos e os respectivos trajetos quando
chegaram a seniores:
Álvaro e Ildefonso
Alberto (União), Fernando Peixoto, Tibério Vargas e Magina (pai do
atual avançado do Angrense)
Arlindo Barcelos, Tony (Angrense), Cardoso (vulgo Marrão), Serafim
(“rodas baixas”), Dilo, Orlando (Praiense), Peixoto (o “terror”, irmão do
Fernando Peixoto), Elvino (Marítimo). Escapam dois nomes, com pena minha.
Ora, esta seleção, que se sujeitou a uma disciplina consentânea com as
próprias realidades do torneio, venceu tudo o que havia em disputa. Vejamos:
Vencedora do torneio invicta: 4-0 (Faial B), 3-1 (Faial A) e 3-1 (São
Miguel).
Prémio equipa que melhor futebol praticou.
Prémio equipa mais disciplinada.
Melhor marcador: Cardoso
Melhor jogador do torneio: Tibério Vargas
Guarda-redes menos batidos: Álvaro Pereira e Ildefonso Ávila (1 golo
cada). Aqui um dado curioso: os organizadores só tinham um diploma, mas, como
coloquei o Álvaro e o Ildefonso jogando cada um uma partida e meia, óbvio que apenas
sofreram um golo cada e atuaram o mesmo tempo. Com esta, brinquei com o meu
amigo Manuel Lino, que fazia parte da organização.
Vem isto a talho de foice, para dizer que, sem gabinetes técnicos
(alguns até de fachada), o nosso futebol jovem sempre deu cartas e São Miguel
sempre esteve presente. Portanto, eles podiam ter (e têm claro) um maior campo
de recrutamento, mas nós sempre nos impusemos pela nossa melhor técnica e
organização, servindo aqui de paradigma um desabafo do Elvino (hoje no Canadá):
“estes 15 dias que trabalhei com o senhor, valeram por uma época inteira no meu
clube”.
Se realmente perdemos hegemonia para os outros, algo está mal e há que
repensar, globalmente, o futebol da nossa formação. Essa mudança de
mentalidades não pode passar apenas pelo Angrense a quem, mais uma vez,
endereço as minhas felicitações.

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