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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Caixão cheio de vida - Do jornalista João Rocha



Caixão cheio de vida

 

Pensando bem no assunto, o caixão que nos acompanha à cova deveria ser o investimento principal da nossa vida.
Depois de conferenciar com o meu distinto amigo doutor/professor/filósofo Jorge Gato (pós-doutoramento na
Universidade de Oxford com a tese “A obrigação ética/moral de abrir as portas de casa nos arraiais pela salvaguarda do quinto toiro”), cheguei à conclusão de que devemos antecipar a compra do  T0 da morada final.

Os motivos, além de óbvios, são mais do que muitos. Em primeiro lugar, por uma questão de comodidade.

Há que adaptar, o melhor possível, o nosso corpo ao caixão. Seria de todo desagradável causar lesões ao esqueleto por uma posição incómoda.

Acresce a necessidade de criarmos intimidade com o dito cujo. Um caixão fica um sucesso a ornamentar a sala das nossas moradias terrenas.

Deveríamos mesmo levá-lo a passear, ver as vistas como dizia a minha bisavó.

Já imaginou brincar com um caixão na praia, enchendo-o de areia antecipando até o seu derradeiro ato social no cemitério, no qual, por curiosidade, até é a figura central?

Ainda mais empolgante seria convencer um carpinteiro amigo a fazer alterações/melhoramentos no caixão.

Sei lá, por exemplo, equipá-lo com um mini-bar, esburacá-lo um pouco para apanhar a rede Wi FI a fim de nos entretermos com o telemóvel.

Se precisar de mais espaço, convence-o a acrescentar uma cave ao caixão.

Não seja acanhado. Faça do caixão a sua verdadeira casa. Dê-lhe vida, animação, pinte-o com cores garridas.

Leve lá os amigos, contrate uma acompanhante de luxo para momentos agradáveis e não tenha medo de promover festas de arromba naqueles três metros e picos quadrados.

O seu cadáver merece tudo do melhor.

Pode ainda afixar calendários com gajas boas nuas ou posters com as suas equipas de coração. Aproveite ao máximo e medite sobre um dos pensamentos mais profundos do provável sucessor de Bob Dylan como Nobel da Literatura, o já referenciado académico Jorge Gato: “anda a morrer gente que nunca tinha morrido”.

E, se quer apressar todas estas belas sensações, aconselho vivamente a experimentar o suicídio dentro do caixão. Aposto que lhe fica a matar.

 joaorochagenio@hotmail.com


Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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