Caixão cheio de vida

Pensando bem no assunto, o caixão que nos
acompanha à cova deveria ser o investimento principal da nossa vida.
Depois de conferenciar com o meu distinto
amigo doutor/professor/filósofo Jorge Gato (pós-doutoramento na
Universidade de
Oxford com a tese “A obrigação ética/moral de abrir as portas de casa nos
arraiais pela salvaguarda do quinto toiro”), cheguei à conclusão de que devemos
antecipar a compra do T0 da morada
final.
Os motivos, além de óbvios, são mais do que
muitos. Em primeiro lugar, por uma questão de comodidade.
Há que adaptar, o melhor possível, o nosso
corpo ao caixão. Seria de todo desagradável causar lesões ao esqueleto por uma
posição incómoda.
Acresce a necessidade de criarmos intimidade
com o dito cujo. Um caixão fica um sucesso a ornamentar a sala das nossas
moradias terrenas.
Deveríamos mesmo levá-lo a passear, ver as
vistas como dizia a minha bisavó.
Já imaginou brincar com um caixão na praia,
enchendo-o de areia antecipando até o seu derradeiro ato social no cemitério,
no qual, por curiosidade, até é a figura central?
Ainda mais empolgante seria convencer um carpinteiro
amigo a fazer alterações/melhoramentos no caixão.
Sei lá, por exemplo, equipá-lo com um mini-bar,
esburacá-lo um pouco para apanhar a rede Wi FI a fim de nos entretermos com o
telemóvel.
Se precisar de mais espaço, convence-o a
acrescentar uma cave ao caixão.
Não seja acanhado. Faça do caixão a sua
verdadeira casa. Dê-lhe vida, animação, pinte-o com cores garridas.
Leve lá os amigos, contrate uma acompanhante
de luxo para momentos agradáveis e não tenha medo de promover festas de arromba
naqueles três metros e picos quadrados.
O seu cadáver merece tudo do melhor.
Pode ainda afixar calendários com gajas boas
nuas ou posters com as suas equipas de coração. Aproveite ao máximo e medite
sobre um dos pensamentos mais profundos do provável sucessor de Bob Dylan como
Nobel da Literatura, o já referenciado académico Jorge Gato: “anda a morrer
gente que nunca tinha morrido”.
E, se quer apressar todas estas belas
sensações, aconselho vivamente a experimentar o suicídio dentro do caixão.
Aposto que lhe fica a matar.
joaorochagenio@hotmail.com

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