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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Do jornal A União



AS DUAS PAIXÕES DO JAIMINHO ENGRAXADOR

Engraxador também significa bajulador, mas, neste caso, chamo à estampa o Jaiminho engraxador de sapatos, figura muito conhecido no Faial e que, no exercício da sua profissão, sempre (...) assentou arraiais no Largo do Infante, alternando, também, com os cafés Volga e Internacional. Era por ali que sempre
encontrávamos o Jaiminho, essa figura carismática que os faialenses veneram (está mais velhinho, mas ainda vivo e, ao que dizem, ainda matreiro), pela sua simpatia e, fundamentalmente, pelo seu amor clubista, concretamente ao Fayal Sport Club, decano clube açoriano, e Sport Lisboa e Benfica. E vamos começar por aqui: quando o Benfica foi ao Fayal defrontar a selecção da ilha (11-1, Tino Lima marcou o golos dos faialenses), o Jaiminho quase que enlouqueceu de alegria.

Era o seu sonho ver o Benfica jogar. Do sonho à realidade e... logo na ilha do Faial. Mais: o Jaiminho até teve honras de reportagem no Jornal "A Bola", da autoria do meu querido amigo e companheiro Cruz dos Santos que, curiosamente, sendo benfiquista, era bem aceite no Sporting. Também um dos amigos de Mário Lino. O Jaiminho jamais esquece esse dia em que, em pleno Largo do Infante, foi entrevistado para o maior jornal desportivo de Portugal. E quando o jornal chegou à Horta, inserindo a referida entrevista, lá andava o Jaiminho com um exemplar debaixo do braço, exibindo para os amigos que passavam.

Da outra paixão clubística, o Fayal Sport, Jaiminho também se transcendia em termos de emotividade. Quando fui treinar o Sporting da Horta, na época de 86/87 (campeão de ilha e campeão da AFH), o Jaiminho sempre gostava de uma amena cavaqueira, mas, atrevidinho como era (ainda deve ser, apesar da idade avançada), colocava esta alfinetada: você vai perder com o Fayal Sport e o campeão vai ser o Salão (que era treinado pelo meu amigo Manuel Lino). Com o meu sorriso sarcástico, lá desapontava o Jaiminho: vai ser trigo limpo. O Jaiminho ria de resposta.

Quando derrotei o Fayal Sport (3-1) na Alagoa, no dia seguinte procurei o Jaiminho para me engraxar os sapatos e fui-lhe adiantando: têm que ficar nem um espelho porque, no próximo domingo, à noite, depois de vencer o Salão e consequentemente ser campeão, vou a uma jantarada. O Jaiminho fitou-me e aprontou esta: desta vez, não terás a mesma sorte. E lá vencemos o Salão por 3-1. No dia seguinte, procurei de novo o Jaiminho. Então, amigo, mais uma "chapa três". O Jaiminho estava sério, sem argumento plausível e eu entrando forte: Jaiminho, esta noite foi de celebrar até não poder mais, sobretudo em casa do Carlos Batelão em que o stock de champanhe espanhol acabou. Uma grande comemoração. Desta feita, o Jaiminho falou. Como foram campeões, isso foi normal. Mas, de seguida, é que foi bonito. Atalhei: Jaiminho foi pelo nosso êxito e pelo "funeral" do Fayal Sport. Aí mexi mesmo com o sentimento do Jaiminho que levantou a caixa de engraxar e foi embora todo zangado. Só não sei os nomes feios que me chamou.


Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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