AS DUAS PAIXÕES DO JAIMINHO ENGRAXADOR
Engraxador
também significa bajulador, mas, neste caso, chamo à estampa o Jaiminho
engraxador de sapatos, figura muito conhecido no Faial e que, no exercício da
sua profissão, sempre (...) assentou arraiais no Largo do Infante, alternando,
também, com os cafés Volga e Internacional. Era por ali que sempre
encontrávamos o Jaiminho, essa figura carismática que os faialenses veneram
(está mais velhinho, mas ainda vivo e, ao que dizem, ainda matreiro), pela sua
simpatia e, fundamentalmente, pelo seu amor clubista, concretamente ao Fayal
Sport Club, decano clube açoriano, e Sport Lisboa e Benfica. E vamos começar
por aqui: quando o Benfica foi ao Fayal defrontar a selecção da ilha (11-1,
Tino Lima marcou o golos dos faialenses), o Jaiminho quase que enlouqueceu de
alegria.
Era o seu
sonho ver o Benfica jogar. Do sonho à realidade e... logo na ilha do Faial.
Mais: o Jaiminho até teve honras de reportagem no Jornal "A Bola", da
autoria do meu querido amigo e companheiro Cruz dos Santos que, curiosamente,
sendo benfiquista, era bem aceite no Sporting. Também um dos amigos de Mário
Lino. O Jaiminho jamais esquece esse dia em que, em pleno Largo do Infante, foi
entrevistado para o maior jornal desportivo de Portugal. E quando o jornal
chegou à Horta, inserindo a referida entrevista, lá andava o Jaiminho com um
exemplar debaixo do braço, exibindo para os amigos que passavam.
Da outra
paixão clubística, o Fayal Sport, Jaiminho também se transcendia em termos de
emotividade. Quando fui treinar o Sporting da Horta, na época de 86/87 (campeão
de ilha e campeão da AFH), o Jaiminho sempre gostava de uma amena cavaqueira,
mas, atrevidinho como era (ainda deve ser, apesar da idade avançada), colocava
esta alfinetada: você vai perder com o Fayal Sport e o campeão vai ser o Salão
(que era treinado pelo meu amigo Manuel Lino). Com o meu sorriso sarcástico, lá
desapontava o Jaiminho: vai ser trigo limpo. O Jaiminho ria de resposta.
Quando
derrotei o Fayal Sport (3-1) na Alagoa, no dia seguinte procurei o Jaiminho
para me engraxar os sapatos e fui-lhe adiantando: têm que ficar nem um espelho
porque, no próximo domingo, à noite, depois de vencer o Salão e
consequentemente ser campeão, vou a uma jantarada. O Jaiminho fitou-me e
aprontou esta: desta vez, não terás a mesma sorte. E lá vencemos o Salão por
3-1. No dia seguinte, procurei de novo o Jaiminho. Então, amigo, mais uma
"chapa três". O Jaiminho estava sério, sem argumento plausível e eu
entrando forte: Jaiminho, esta noite foi de celebrar até não poder mais,
sobretudo em casa do Carlos Batelão em que o stock de champanhe espanhol
acabou. Uma grande comemoração. Desta feita, o Jaiminho falou. Como foram
campeões, isso foi normal. Mas, de seguida, é que foi bonito. Atalhei: Jaiminho
foi pelo nosso êxito e pelo "funeral" do Fayal Sport. Aí mexi mesmo
com o sentimento do Jaiminho que levantou a caixa de engraxar e foi embora todo
zangado. Só não sei os nomes feios que me chamou.

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